Jornal Maio

A sombra dos dragões

2ª parte: A malinha perdida

Com um sobressalto que quase lhe arrancou o coração do peito, Julieta recordou imediatamente que dentro da malinha tinha não só os documentos de identificação pessoal, mas também um molho de panfletos da Oposição.

Poucos dias depois do comício na avenida, Julieta saiu do trabalho e apanhou o costumeiro eléctrico para casa. As viagens nos transportes públicos são muitas vezes propícias a pensar na morte da bezerra, e foi assim que ela fez a viagem, dando voltas e mais voltas no espírito a possíveis soluções para induzir o filho de novo à fala. Ora pensar na morte da bezerra, sobretudo na cidade, é fonte potencial de desastres, atropelamentos, tropeções e cortes nos dedos com as facas de cozinha.

Mergulhada em meditações, saiu do eléctrico, desceu a calçada, e só quando chegou à porta de casa e quis usar a chave se apercebeu: tinha deixado a malinha de mão no eléctrico! Com um sobressalto que quase lhe arrancou o coração do peito, recordou imediatamente que dentro da malinha tinha não só os documentos de identificação pessoal, mas também um molho de panfletos da Oposição. Tocou à campainha, subiu as escadas a galope e, desfeita em lágrimas, contou ao marido o sucedido.

Nesse dia, depois de deitar a criança, o casal meteu-se na cozinha, a queimar papéis, panfletos, livros, cadernos de apontamentos e contactos e tudo o mais que pudesse ser comprometedor. Toda a casa cheirava a papel queimado. Levaram a noite inteira nisto, porque os modernos apartamentos na cidade não têm lareira e queimar papéis nos bicos de gás do fogão é uma operação morosa. Depois de bem vasculhada toda a casa à cata de papéis comprometedores, concluíram a operação a tempo de irem trabalhar. E lá foram eles, de coração apertado, sempre à espera de serem abordados por torcionários da PIDE, com a dolorosa noção de que de nada serviria aquela trabalheira toda, porque uma mala com documentos de identificação acompanhados de panfletos inflamados contra a ditadura equivalia a uma confissão, por mais papéis que queimassem. 

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Passou mais um dia de expectativa angustiada. À noite, estava Gastão a pôr a mesa para jantar, com a ajuda da criança (que eles procuravam manter sempre ocupada), quando toca o telefone. Havia uma regra naquela casa: à hora de jantar não se atendia o telefone nem se ligava a televisão. Contudo, dado que ainda não estavam sentados à mesa e ansiavam por notícias da malinha (já quase preferiam ser caçados, para acabar com aquela penosa expectativa), Julieta decidiu abrir uma excepção e atender o telefone.

– Estou a falar com a senhora Julieta Montês? – perguntou uma hesitante voz de homem, sussurrada.

Não valia a pena negar. Sim, era a própria.

– A senhora por acaso … hum… por acaso não perdeu uma malinha de mão com o bilhete de identidade?

Nenhuma referência aos panfletos. Que poderia isso querer dizer? Para quê negar, se o homem já sabia o nome, o número de telefone e a morada? Mais uma vez Julieta confirmou.

Pois bem, ele tinha encontrado a mala e estava disposto a entregar-lha. Ela que comparecesse no dia seguinte no edifício sede dos Correios, no Terreiro do Paço (onde se situam vários ministérios e uma esquadra de Polícia), às 15 horas em ponto, e pedisse ao porteiro para ir ao gabinete da direcção de registos.

O casal sentiu-se dividido entre a esperança e um sentimento de fatalidade. Não havia outra coisa a fazer. Era ir lá e … o que fosse soaria. Passaram a noite às voltas na cama, incapazes de dormir. Era a segunda noite em branco nessa semana, até parecia que estavam em treinos para a tortura do sono.

 

Passaram a noite às voltas na cama, incapazes de dormir. Era a segunda noite em branco nessa semana, até parecia que estavam em treinos para a tortura do sono.

 

No dia seguinte Julieta compareceu no local e hora aprazados. O porteiro encaminhou-a por um corredor e que procurasse a sétima porta à direita. Lá foi ela, com as pernas a tremer. Primeira porta, segunda porta, terceira porta … e assim sucessivamente, até chegar a uma porta com uma placa a dizer: “Gabinete de Censura”. Quase lhe desfaleceram as pernas, julgou que ia baquear de joelhos. E logo: não espera, esta é a sexta porta … olhou para trás, donde viera, a recontar as portas. Sim, era a sexta porta. Encheu-se de coragem e avançou para a sétima. Bateu à porta. Que entrasse. Viu-se diante de um senhor de bigode e pêra. Os dois estavam lívidos, como se tivessem caído no balde da cal.

– Senhora Julieta Montês?

Julieta acenou que sim, com a garganta tão seca e apertada que nem conseguia articular, como o filho.

– Tem aqui a sua mala – disse ele sem mais delongas e estendendo-lhe a mala com mãos trémulas. – Leve-a já daqui para fora, por favor. E se por acaso nos encontrarmos um dia na rua, faça de conta que nunca nos vimos nem conhecemos. Siga pelo corredor na mesma direcção em que veio e saia pela porta de serviço – acrescentou o homem, empurrando-a com cortesia, mas firmemente para a porta do gabinete.

Finalmente Julieta conseguiu desobstruir a garganta:

– Obrigada. Muito obrigada. Muito, muito agradecida. Nunca mais vou esquecer este bom gesto.

– Esqueça. Por favor, esqueça que eu existo. – E bateu a porta.

Julieta saiu em passo estugado. No primeiro café que encontrou enfiou-se na casa de banho para inspeccionar a mala. Lá estavam os documentos de identidade e os panfletos. O homem nem tivera coragem para os destruir! Felizmente, tivera coragem suficiente para restituir a mala, mas era evidente que quase morrera de susto. Julieta demorou-se uns bons minutos na casa de banho. Amarfanhou os panfletos, meteu-os um a um na retrete, puxou o autoclismo umas trinta vezes e por fim regressou ao emprego, bastante aliviada. Parece que a tormenta tinha passado. Nesse fim de semana o casal foi à Costa da Caparica comemorar o bom sucesso da aventura com uma mariscada. Voltaram os sorrisos à família, ainda que a criança continuasse sem pio.

Julião, tal como o pediatra tinha vaticinado, acabou por recuperar a fala dois anos depois, no primeiro dia em que foi à escola e entrou em contacto com outros colegas da mesma idade. E, como já se disse, não guardou qualquer memória da turbamulta na avenida, naquele maio de 1958. Herdeiro do racionalismo humanista do pai, da ousadia arrebatada da mãe e de uma noção de justiça social multiplicada por dois, viria mesmo a meter-se, na universidade, em protestos estudantis, a levar na cabeça quatro pontos abertos por um cassetete e a tornar-se uma figura destacada na luta contra a ditadura. Mas nunca, até ao fim dos seus dias, deixaria de sentir uma espécie de paralisia nas imediações de um cavalo.

(fim)

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