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Jornal Maio

COLUNA VERTEBRAL

A decadência final do país dos 19 e 20 valores

São mais de 30% os estudantes (sobretudo nos colégios privados) com classificações de 19 e 20 valores em todas as disciplinas! Não interessa, portanto, se do ensino público só entraram para a universidade 3%.

António Carlos Cortez

António Carlos Cortez

Professor de Português e de Literatura Portuguesa, poeta, ensaísta e crítico literário

Não obstante as inúmeras Cassandras deste tempo que avisam, de há largos anos a esta parte, sobre a derrocada do sistema educativo, ninguém compreende séria e profundamente que este é o ano zero da decadência final da escola e da universidade. Tudo foi pensado para isso. Desde a precarização dos professores no tempo de Maria de Lurdes Rodrigues, às metas essenciais; desde a ideia da digitalização nas escolas, num plano engendrado no consolado dos Costas, ao desmantelamento actual do Ministério da Educação, os políticos e os nossos funcionários ao serviço da OCDE podem mesmo considerar que tudo lhes está a correr de feição. 

O Governo e a imprensa ao serviço da ideologia Trump que se expande em Portugal e na Europa (uma ideologia assente na mentira, no materialismo mais grotesco, na boçalidade, na violência e na exploração dos recursos humanos e do planeta) não cessam de trazer a palavra “sucesso” para o campo da educação. São tantos os mentirosos democratas (Úrsula, Costa e o inenarrável holandês do nosso complexo industrial e militar) ao serviço do trumpismo, que os imitadores de ocasião, os oportunistas da praxe, apresentam estatísticas de sucesso num dos anos mais conturbados que alguma vez escolas e universidades viveram.

Houvesse vergonha e sucesso é palavra que não usariam. Digo mais: desconfie-se de quem recorre a essa palavra quando fala ou escreve sobre educação. Educar não visa o sucesso, mas sim – e isso é essencial – o autoconhecimento. Porém, neste tempo brutal, que interessa autoconhecermo-nos? E nunca como hoje, desde a ascensão do nazifascismo e do estalinismo nos primeiros 40 anos do século passado, precisámos tanto de falar de autoconhecimento. Melhor: de consciência. Mas consciência não rima com sucesso e a escola e a universidade portuguesas são pensadas para os alunos atingirem o “sucesso”. É assim que se concebem os exames, se alteram pautas de classificações finais, se redigem actas, se fazem reuniões, se escolhem direcções. Tudo em nome da lealdade e da hierarquia: o professor obedece ao DT, o DT obedece ao director da escola, o director obedece ao subsecretário e por aí adiante até chegar ao senhor ministro. Em nome dos alunos, claro! E por isso exigência e trabalho, verdade e liberdade também não rimam com sucesso. Haja sucesso, pois! 

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Os jornais fizeram manchete com a notícia do ano: só 3% dos estudantes pobres é que entraram no ensino superior. Está claro que esta notícia não teve eco numa sociedade amortecida e alienada como a nossa. Deveria, porém, ter merecido o debate mais sério e incisivo. Mas também já sabemos: em Portugal a sociedade civil não tem capacidade de organização. Tolhidos pelo futebol e pelas Cristinas e Gouchas da TV, os Portugueses divertem-se no lodo. Os partidos há muito que abandonaram as pessoas, e as pessoas, essas, desacreditaram dos partidos do dito “arco da governação”, PSD, PS e CDS. São estes os partidos responsáveis pela decadência em que estamos atolados. Uma decadência cheia de sucesso. O CH, no fundo, sendo, como é, uma extensão malsã do PSD, uma metástase do cancro americano-trumpista, é também cúmplice nisto tudo. Ventura chegou mesmo a defender, qual novo Bob Kennedy Jr. da educação, que o ideal era nem haver um ME. O menino do IC19, que beneficiou da escola pública desde 2016, depois de servir o PSD, encarnou Trump e, agindo em conformidade, defende um mundo sem cultura, sem livros, sem artes, sem saber, sem ciência, sem memória. Um mundo de sucesso, claro. Com esse André a ser levado ao colo pelos media e a obter financiamento de amigos foragidos à justiça, e igualmente financiado pela extrema-direita global, esse grupo de criminosos é igualmente responsável pela degradação da nossa vida colectiva. É uma responsabilidade de facto e simbólica. O que está em causa é não só o elevador social ter parado de vez – é um facto – como, simultaneamente, estar instalada no sistema educativo uma nova ideologia, a saber: é natural que só quem tem dinheiro possa prosseguir cursos. Este dado, para além de factual, é simbólico, porque instala no quotidiano das famílias pobres duas ideias reveladoras. Primeira: não vale a pena estudar quando se é pobre, pois as condições de partida estão viciadas. Sem dinheiro para livros, e não só para os estúpidos manuais em uso, e sem agregados familiares cuja vida esteja melhor e minimamente estabilizada, em que ambiente emotivo e afectivo vivem os estudantes pobres neste rectângulo? Segunda: a educação é uma mistificação total: o esforço e o saber (já o observava Camões) “vão pedindo às portas da cobiça e da vileza”. Na verdade, o aluno pobre sabe que a educação é para os ricos. Esses têm condições: podem pagar explicadores, podem frequentar centros de línguas estrangeiras, podem comprar livros. Aos pobres, no país real, está reservado, depois dos 12 anos de escolaridade obrigatória, o biscate, o horário bestial no McDonald’s, um trabalho numa loja de roupas, a caixa de um supermercado, a recepção de um hotel, um curso técnico-profissional que servirá de nada, ser porteiro num bar de alterne, ser segurança na PSG, ir para a restauração enquanto a bolha turística não rebenta de vez. E, no entanto, há sucesso, dizem eles. 

 

Sucesso? No país dos génios, há sucesso. Nunca a decadência conheceu sucesso assim.

 

A prova disto mesmo é esta notícia: são mais de 30% os estudantes (sobretudo nos colégios privados) com classificações de 19 e 20 valores em todas as disciplinas! Não interessa, portanto, se do ensino público só entraram para a universidade 3%. Se vejo bem, este é um país de génios. O génio, como as quotas mandam, está reservado aos ricos. E, contudo, tanto 19 e tanto 20? Considerando a qualidade e exigência dos exames, bem como a qualidade e a exigência na formação de professores, sem esquecer a qualidade e a exigência das aulas que se facultam em Portugal (só cínicos e idealistas podem desmentir o óbvio: não se dão aulas de qualidade neste país, posto que a própria classe docente, esmagada pelos baixos salários não lê, não compra livros e é indigente na sua larga maioria – provam-no as conversas que se ouvem nas salas de professores, sem contar com os comentários dos alunos) por essas escolas de Norte a Sul, quem pode sequer garantir que, ao menos no privado, com tantos 19 e 20 valores a todas as disciplinas, teremos bons quadros no futuro? Ninguém pode ou quer garantir. Porquê? Porque sabemos todos que, mesmo nos privados, não se estuda – salvo aqueles colégios onde as direcções adoptam os seus próprios programas e contratam bons professores que, motivados e com reconhecimento, fazem os próprios manuais desses colégios – e impera, em bom rigor, um pacto: inflacionam-se as notas para se garantir clientela. 

É, no fundo, disto que se trata: de mentira na educação. Portugal é ou quer ser uma colónia americana. De preferência governada por Trump. A direita portuguesa, com o ministro da Educação vindo do Mais Liberdade, um think-tanque (desculpem o neologismo) que adultera a palavra liberdade e bombardeia com IA, automação, mentira e desemprego todo o sistema educativo, é um serventuário do neoliberalismo tecnofascista. O seu secretário de Estado, cuja linhagem não engana, é pior: Homem-Cristo declarou: “Temos os piores professores de sempre.” Mas, meus senhores, como não haveríamos de ter se temos, também, a pior geração de sempre de políticos? É que nem tecnicamente são competentes. É por isto que há sucesso neste país. Há talento! Há saber! Pareço o Eça… Sucesso? No país dos génios, há sucesso. Nunca a decadência conheceu sucesso assim.