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Jornal Maio

O professor de Matemática e as “conservadoras”

Falava connosco sempre com ar paternalista e preocupado com o nosso futuro: “Moça, queres ir lá para cima?” (entenda-se, a universidade). E nós que sim. “Só se for para a cozinha, moças”.

Nos anos 90 tive um professor de Matemática invulgar. Era um ribatejano entroncado, com suíças que sobressaíam e óculos de massa como os do meu avô. Talvez não fosse tão velho como parecia: uma figura do século passado. Não deste, mas do anterior. Caminhava calmamente com a sua pasta volumosa, ar pensativo e triste. Tinha um tique: quando endireitava os óculos, franzia o nariz. Éramos uma turma de humanidades de raparigas; só havia um rapaz. Não ligávamos à matemática e ele sofria connosco. No desespero, chegou a fazer-nos o teste até ao 10. A partir daí, era connosco. Não era só a sua figura que era do século passado, mas, sobretudo, a linguagem. Parecia saído de um romance do Eça de Queirós. Tratava-nos por moças, ao quadro referia-se como pedra – “Moça, vai à pedra” – e ao livro como compêndio. Tudo nele era espanto em relação a nós, adolescentes, mas já conscientes de alguns dos nossos direitos como mulheres e sem qualquer condescendência para com o machismo. Uma atitude que nos parecia irreversível e que só alguém como o nosso professor (condenado a desaparecer nas próximas décadas) podia questionar. Tínhamos com ele uma relação de respeito. Falava connosco sempre com ar paternalista e preocupado com o nosso futuro: “Moça, queres ir lá para cima?” (entenda-se, a universidade). E nós que sim. “Só se for para a cozinha, moças” – dando a entender que éramos burras e que, se chegássemos à universidade, seria para trabalhar nas cantinas. Às vezes também dizia que éramos mais produtivas a coser meias. Aquelas frases pareciam-nos tão bizarras que ríamos e respondíamos o que entendíamos. Mas ríamos porque acreditávamos que aquele modelo de homem estava a desaparecer e que o futuro seria humanista e igualitário. Uma questão de tempo, na nossa cabeça.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Trinta anos depois, ouço não um homem ribatejano, mas um grupo de mulheres que, felizmente, têm o direito conquistado (pelas tais feministas que desprezam) de vir para a praça pública apelar ao retrocesso e criticar aquelas que lhes permitiram exercer o direito de expressarem as suas ideias e de se organizarem. Tolas de extrema-direita, contra o aborto, apologistas dos movimentos pró-vida, mas pelo genocídio de crianças em Gaza. E nisso são incomparáveis com o meu professor que, apesar da linguagem machista, era um homem de profunda humanidade, que antevia as dificuldades que o futuro nos reservava. Na forma, estava todo errado, mas tinha um coração bom. Anos mais tarde, voltámos a reencontrar-nos num contexto diferente: eu já na faculdade, ele reformado, frequentávamos o mesmo café. Tínhamos longas conversas sobre questões da atualidade. Mais tarde ainda fui para Lisboa e, às vezes, quando regressava a Coimbra, encontrava-o noutra esplanada mais central. Como me viu em alguns protestos, cumprimentava-me sempre com ar sério e a seguinte frase: “Como vai a jovem revolucionária?” Ao que respondia: “Como vai o meu professor?” E conversávamos. Hoje, o retrocesso é abismal. Não se trata só de conservadorismo. Estas mulheres são de extrema-direita e, como tal, não têm qualquer sentido de humanidade. Antes mil homens com o coração no sítio que estas perigosas mercenárias, a quem me custa chamar mulheres. Do meu professor guardo boas memórias. Hoje compreendo que só na forma era machista. Era um provocador. Na verdade, queria que fôssemos para a universidade e nos emancipássemos. Já estas anormais querem que voltemos para casa. Se o contexto nacional e internacional não fosse tão grave diria, como o João César Monteiro: “quero que estas gajas se f…” Como a realidade é alarmante, espero que tenhamos capacidade para nos organizarmos e reagirmos.