Jornal Maio

A primeira revolução negra da história

Antonio Pinto Tortosa é historiador, professor na Universidade de Málaga. Estudou a revolução jacobina negra em Santo Domingo no século XVIII, a primeira revolução negra da história, bem como a história contemporânea de Espanha nos séculos XIX e XX e, ainda, temáticas da história da energia. Nesta segunda parte da entrevista, aborda a revolução haitiana e a francesa, o seu carácter e o seu destino e a figura contraditória de Toussaint Louverture.

Entrevista com o historiador António Pinto Tortosa, por Raquel Varela (2.ª parte)

Toussaint Louverture

Raquel Varela (RV): Qual é a ligação entre a Revolução Haitiana e a Revolução Francesa? 

Antonio Pinto Tortosa (APT): Bem, em grande parte, o gatilho para o que aconteceu no Haiti foi um eco do que tinha acontecido em França, porque quando a Assembleia Nacional Constituinte se reuniu em França, em Junho de 1789, muitos proprietários de terras ausentes do Haiti estavam em França.

E depois, na Assembleia, quando se debatiam os limites da cidadania francesa, alguns dirigiram-se aos outros membros da Assembleia Nacional e disseram: “Cuidado com a quem vamos chamar cidadãos!” Porque se dissermos que todos somos cidadãos, um deles, o marquês de Mirabeau, tem uma frase emblemática: “Cuidado, vocês estão a viver ao pé de um vulcão.” Se todos são cidadãos, cuidado, porque se os africanos reivindicarem a cidadania, estaremos condenados.

Portanto, são estas tentativas da França de limitar o direito à cidadania que provocam estas notícias. Quando estas notícias chegam a França, os africanos, tentando acelerar o processo, tomam as rédeas da situação e rejeitam outras concessões de direitos mais temporárias, que não os beneficiam, porque só beneficiam esta elite de ex-escravos que agora são livres e têm uma posição confortável. 

 

RV: Porquê o livro Os Jacobinos Negros, de C. L. R. James, é tão importante para os historiadores do povo e historiadores críticos em geral? 

APT: É uma obra dos anos 1930, e é a primeira tentativa de explicar um processo histórico a partir da perspectiva dos oprimidos. Até aí os acontecimentos foram sempre explicados a partir da perspectiva da elite branca e de um ponto de vista europeu. Portanto, é uma primeira tentativa de dizer que o que está a acontecer em França não é uma revolução propriamente dita, mas que a revolução em sentido estrito é o que está a acontecer aqui.

Aliás, há um historiador, creio que agora em Yale ou Princeton, se bem me lembro, chamado Nick Nesbitt, que escreveu dois ensaios sobre o assunto. Um deles reproduz documentos de Toussaint Louverture, e o outro chama-se Universal Emancipation: The Haitian Revolution and the Radical Enlightenment (Emancipação Universal: A Revolução Haitiana e o Iluminismo Radical). O que este homem afirma é que o iluminismo, na sua forma radical, está a ser aplicado no Haiti, que o que está a acontecer em França é um iluminismo muito moderado, muito diluído, e que é ali que está a ocorrer a verdadeira abolição das hierarquias sociais.

E o que este homem, Nesbitt, faz em 2008, quando publica este livro, James já o fizera 80 anos antes, num contexto em que ninguém no mundo ocidental ponderava escrever história a partir da perspectiva dos oprimidos. Daí a sua relevância. 

 

RV: Quem foi Toussaint Louverture? 

APT: Toussaint Louverture é uma figura muito controversa. Quando a revolução começou, ele já era livre, pelo que não beneficiou da revolução para se tornar livre, pois já o era.

Era filho de um príncipe africano, trabalhava numa plantação em Saint-Domingue e, quando a revolução começou, ajudou os seus patrões a fugir para os Estados Unidos para que pudessem sair em segurança. Depois, começou a combater na revolução, mas não como general; era tenente de Georges Biassou. O primeiro dirigente foi Dutty Boukman, mas Dutty Boukman foi assassinado pelos franceses em novembro de 1791, e o comando ficou dividido entre duas partes. De um lado estava o general Jean-François Papillon, e do outro, Georges Biassou. E a servir Georges Biassou estava Toussaint Louverture, que na altura se chamava Toussaint de Bréda.

Em seguida, ocorreram os combates dentro das forças de Biassou até 1794. Além disso, Biassou e Papillon alistaram-se no exército colonial espanhol em 1793, quando a Espanha já tinha declarado guerra à França, e ele lutou com as tropas auxiliares coloniais espanholas. Em 1794, já nas fileiras espanholas, aderiu à causa republicana e declarou-se o grande defensor da liberdade universal dos escravos africanos. Foi então que mudou o seu apelido de Bréda para Louverture, tornando-se chefe da luta pela libertação do Haiti. O facto é que nunca chegou a atingir o objectivo. Era uma personagem muito astuta, pois primeiro deixou Espanha, conseguiu expulsar os britânicos da ilha, depois os governantes franceses, e proclamou-se governador absoluto da colónia. Conseguiu também eliminar todos os obstáculos no seu caminho. Invadiu Santo Domingo em 1801, mas com uma personalidade tão napoleónica — aliás, queria ser conhecido como o Napoleão Negro, e essa é uma das razões pelas quais Napoleão o perseguiu desde o início, uma vez que tinha conquistado muitos inimigos — e em 1802 foi traído pelos seus próprios homens. Os franceses capturaram-no e levaram-no de volta à Europa como prisioneiro. Foi aprisionado nas montanhas do Jura, no Forte de Joux, que atualmente fica na fronteira entre a França e a Suíça, e morreu poucos meses depois. Assim, a grande tragédia é que foi o primeiro grande combatente pela independência haitiana, mas morreu antes de ver o Haiti conquistar a sua independência.

 

O objectivo inicial da Revolução Haitiana — criar uma república negra, a primeira república negra independente da história — foi alcançado. No entanto, a nação que dela emergiu não conseguiu evitar reproduzir os vícios das sociedades ocidentais.

 

RV: Qual foi o destino da revolução? 

APT: O destino da Revolução Haitiana é difícil de definir porque o seu objectivo inicial — criar uma república negra, a primeira república negra independente da história — foi alcançado. No entanto, a nação que dela emergiu não conseguiu evitar reproduzir os vícios das sociedades ocidentais, pois tornou-se um regime militarizado, onde reinava a violência e os golpes de estado eram frequentes, um regime extremamente instável. Infelizmente, a revolução tornou-se um legado histórico manipulado por todos aqueles governantes haitianos que procuraram recuperar a sua legitimidade enquanto presidentes da república, esquecendo a verdadeira origem e o espírito da revolução, que era dar voz aos oprimidos, aos grandes oprimidos do mundo: os escravos. Acredito que este é o seu legado mais relevante. As manipulações subsequentes são mera propaganda política que não leva a lado nenhum.

 

RV: És um entusiasta de BD. 

Sim. 

 

RV: E tens um podcast

APT: Sim. Começámos em 2020, mas, no formato actual, já lá vão três anos. Entrevistas, comentários e divulgação de banda desenhada. Banda desenhada histórica, sim. A BD, penso, é uma ferramenta muito valiosa para o estudo da história porque, através de códigos diferentes que o texto escrito não oferece, permite reinterpretar e analisar as sociedades representadas sob diferentes perspectivas. 

É uma narrativa. É uma reconstrução de acontecimentos a partir de uma perspectiva específica. Mas tem valor na medida em que reflecte a visão predominante daquele acontecimento histórico na época em que a banda desenhada estava a ser escrita. Portanto, nesse sentido, é um testemunho muito valioso da memória, de como a memória de certos episódios históricos está a ser reproduzida.

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RV: Tens também uma linha de investigação sobre energia. Como vês o papel da energia na história do capitalismo e da guerra?

APT: Para ser honesto, não é nada animador. Porque é bastante irritante que não sejamos capazes de aprender com as lições da história recente. E, sobretudo, dá a impressão de que esta guerra (Irão) pelo controlo dos espaços geoestratégicos, cujo interesse se centra fundamentalmente na disponibilidade ou falta de recursos energéticos, cai constantemente na mesma armadilha: o desejo de prolongar um modo de vida assente numa forma de exploração de recursos que já se revelou insustentável. Manter esta perspectiva significa que não nos apercebemos de que os recursos estão a esgotar-se e que o planeta nos está a dar sinais de que precisamos de mudar o nosso modelo de desenvolvimento se queremos continuar a viver nele. Caso contrário, o planeta continuará a existir, mas nós não. Ou porque os recursos se esgotam e nos extinguimos, ou porque nos extinguimos uns aos outros lutando por objectivos mesquinhos que, a longo prazo, nada significam em relação à verdadeira sobrevivência da humanidade. 

 

RV: Como vês a situação social e política em Espanha hoje? 

APT: É complicada. Digamos que não é novidade, mas o que é novo é a existência de redes de distribuição de informação e de circulação de opinião que não existiam há 30, 40 ou 50 anos. Então, talvez isto implique que a dinâmica de polarização — o único consolo é que não é exclusiva deste país, mas global — esteja a atingir níveis sem precedentes, porque os níveis de tensão alcançados pelas redes sociais com a circulação de informação falsa são muito superiores aos alcançados em qualquer outra época. Neste ponto, a única opção é combater a desinformação com educação e promoção do pensamento crítico. 

Recuso-me a utilizar as mesmas plataformas e os mesmos vectores, por assim dizer, que aqueles que espalham a desinformação com um claro objectivo político. Recuso-me a utilizar as redes sociais da mesma forma que eles e recuso-me a utilizar as mesmas plataformas de disseminação que eles. Isto significa que o público que atingimos é menor, mas penso que não se trata tanto de quantidade, mas de qualidade. Trata-se de trabalhar gradualmente para fomentar um pensamento crítico genuíno que não se concentre tanto em angariar muitos seguidores para uma opinião específica, mas sim em gerar uma fonte inesgotável de pensamento racional entre dirigentes críticos e intelectuais que, pouco a pouco, se tornem racionais e capazes de transformar esta dinâmica em que estamos imersos. 

 

RV: Estamos de costas voltadas, é a minha última pergunta. A história de Portugal e de Espanha é enformada pelo nacionalismo português e espanhol, e não por uma história ibérica desigual e combinada? 

APT: Bem, não faz sentido, não faz sentido porque, como disse Benedict Anderson, os nacionalismos são comunidades imaginadas. Nós, Espanhóis, estamos constantemente a olhar para a Europa Central e não nos concentramos no país vizinho que temos do outro lado da rua, Portugal, por assim dizer. Isto entristece-me muito, porque revela uma identidade nacional espanhola que quer esquecer o iberismo e as suas raízes latinas e se centra mais no Norte, o que está muito longe da nossa definição cultural. Mas penso que, bem, o tempo acabará por nos desiludir, a ideia de que os interesses do Norte têm muito pouco a ver com aquilo que somos culturalmente, e que seria melhor aliarmo-nos a outros povos com quem partilhamos um património cultural comum, o que pode levar-nos a alcançar empreendimentos comuns muito mais frutíferos para todos, mesmo que não seja apenas por causa da fantástica gastronomia da Península Ibérica — esse é outro elemento.