Jornal Maio

Albânia: a mobilização popular sobe de tom

Um projecto político-imobiliário na ilha de Sazan, na Albânia, no valor de 1400 milhões de dólares, cujo testa-de-ferro é o genro de Trump, Jared Kushner, tem vindo a enfrentar enorme rejeição popular. Têm sido diárias as manifestações de indignação popular em Tirana, a capital. A 11 de Junho, uma mobilização de dimensão histórica reuniu dezenas de milhares de pessoas nas ruas durante mais de cinco horas.

ilustração: Ricardo Ferreira

Intensifica-se a rejeição popular do projecto político-imobiliário na ilha de Sazan, na Albânia, no valor de 1400 milhões de dólares.

Têm sido diárias as manifestações de indignação popular em Tirana, a capital. 

A 11 de Junho, uma mobilização de dimensão histórica reuniu dezenas de milhares de pessoas nas ruas durante mais de cinco horas.

O testa-de-ferro do projecto é o genro de Trump, Jared Kushner, um promotor imobiliário e político com conhecidas ligações financeiras a países do Golfo Pérsico e ao Estado de Israel.

A holding da empresa de Kushner, Affinity Global Development, gere activos da ordem de 5 mil milhões de dólares provenientes de fundos soberanos de países do Médio Oriente.

Para o negócio na Albânia, Kushner usou como corretor político Richard Grenell, ex-enviado especial de Trump para a Sérvia e o Kosovo, ex-chefe interino dos serviços de informações dos EUA e ex-embaixador de Trump na Alemanha. 

O negócio (estava também previsto um na Sérvia, entretanto congelado, de transformação do antigo Ministério da Defesa da Sérvia num hotel de luxo) incide na compra da ilha de Sazan, situada no estreito de Otranto, ponto de passagem fundamental entre o Adriático e o mar Mediterrâneo, com grande importância estratégica e militar ao longo da história. 

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Após a Primeira Guerra Mundial, a Itália criou uma base militar para assegurar a sua hegemonia regional. Após a derrota de Mussolini, no final da Segunda Guerra Mundial, o regime estalinista de Enver Hoxha retomou o controlo da ilha, construindo uma rede de 15 km de túneis, milhares de bunkers anti-nucleares e uma base de submarinos. A ilha é controlada pelas forças armadas da Albânia.

A posição estratégica da ilha sugere que Trump, com a sua dolorosa recente experiência de estreitamento de estreitos estratégicos, quererá dela tirar partido para reforçar o domínio do imperialismo americano na Europa. Note-se que percorre o leito do estreito de Otranto um gasoduto de grande importância, que transporta gás natural do Azerbaijão para a Europa. O mar em torno da ilha goza de um estatuto de protecção especial da natureza.

O primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, alega que o projecto de Kushner, que teve o seu aval pessoal, permitirá ao país entrar na “Liga dos Campeões do Turismo Mundial”. Entretanto, os americanos beneficiarão de isenção de impostos durante a fase de construção, e o Estado albanês encarregar-se-á de toda a infra-estrutura, incluindo água, electricidade e esgotos.

 

Os jovens e os trabalhadores albaneses exigem a demissão do governo, cantando palavras de ordem sem apelo nem agravo: “Edi Rama, rua!”, “Rama para a prisão!”, “Revolução!”, “Nova Albânia!

 

A mobilização popular concentra toda a indignação que vai pelo país. O primeiro-ministro afunda-se, denunciando a “desinformação”, acusando “forças externas”, “bots” e até “narrativas anti-semitas”, segundo ele responsáveis por alimentar a contestação. Num país caracterizado pela carência de salários decentes e pelo desmantelamento dos serviços públicos, o governo tenta fazer valer a promessa de criação de empregos ligados ao turismo. 

Contudo, a juventude está na linha da frente das mobilizações. Os jovens e os trabalhadores albaneses não são parvos. Exigem a demissão do governo, cantando palavras de ordem sem apelo nem agravo: “Edi Rama, rua!”, “Rama para a prisão!”, “Revolução!”, “Nova Albânia!”.

E o movimento de contestação ultrapassa as fronteiras da Albânia. A diáspora albanesa junta-se-lhe em massa: tem havido concentrações de solidariedade em Atenas, Berlim, Viena, Roma e Washington, estando outras anunciadas para Paris e Bruxelas.

Parece evidente que está em jogo muito mais do que uma nova fonte de lucros chorudos para os oligarcas locais e os multibilionários americanos ligados a Trump.