Manifestações

O espectro da juventude assola a Europa
categoria-opinião edicao-2026-10-08 (44) Juventude França Manifestações

O espectro da juventude assola a Europa

Primeiro foram os estudantes a manifestar-se como há muito se não via. A extrema-direita disse que eram os islâmicos a tomar a França. Depois vieram milhares de pais e avós para as ruas, a classe trabalhadora francesa “média”, muita dela loura e de olho azul, ao lado dos jovens liceais.

Raquel Varela
Albânia: a mobilização popular sobe de tom
Albânia Manifestações Trump categoria-internacional edicao-2026-07-02 (34)

Albânia: a mobilização popular sobe de tom

Um projecto político-imobiliário na ilha de Sazan, na Albânia, no valor de 1400 milhões de dólares, cujo testa-de-ferro é o genro de Trump, Jared Kushner, tem vindo a enfrentar enorme rejeição popular. Têm sido diárias as manifestações de indignação popular em Tirana, a capital.

Adriano Zilhão
categoria-opinião edicao-2026-10-08 (44) Juventude França Manifestações

O espectro da juventude assola a Europa

Liguei à minha amiga Anne, delicada e elegante, chegada ao topo da carreira de professora numa escola secundária de Paris. Respondeu-me: “Estou feliz, finalmente faz-se algo, os jovens estão a lutar contra a degradação do ensino, e a classe média está ao lado deles.” 

Tudo começou na semana passada, com bloqueios nos liceus contra os cortes na educação, por bons professores, não professores exaustos, e por mais tempo livre, não horários tão pesados. 

Nem programa digital, nem funis de acesso à universidade. 

Macron, o presidente que é banqueiro de profissão, mandou-lhes o corpo de intervenção e deteve seis mil. Enquanto prepara um orçamento com a maior despesa militar da história e cortes de 57 mil milhões de euros no ensino, nos salários, na saúde.

A extrema-direita propagou desinformação: que eram os islâmicos a tomar a França. 

A reação não foi, talvez, a esperada.

Milhares de pais e avós nas ruas, a classe trabalhadora francesa “média”, muita dela loura e de olho azul, ao lado dos jovens liceais. 

Desesperado, Macron decretou ensino online para dia 5, tentando parar o bloqueio de mil liceus. Mas eles resistiram. Mesmo com ensino online, mais de 600 liceus estiveram em luta. 

No dia seguinte, chegaram os sindicatos. 

Estou feliz, finalmente faz-se algo, os jovens estão a lutar contra a degradação do ensino, e a classe média está ao lado deles.

Um sindicalista ferroviário, maquinista, declara-se (CNN) ao lado dos estudantes: “Não é só contra o colapso do sistema educativo público, mas contra o colapso geral dos serviços públicos (…) a perda de poder de compra, a exploração e o aumento do dinheiro para o sector militar e a polícia (…) agora, em cada fábrica, cada empresa, cada trabalhador pergunta se não é tempo de uma greve, uma frente única para lutarmos juntos, todos juntos.”

Os avós que fizeram o Maio de 68 aplaudiram da varanda, os professores, com os ferroviários, fizeram cordões a proteger os estudantes da polícia. Os sindicatos juntaram-se a apoiar. No dia 6, uma jornada histórica juntou lado a lado estudantes, professores e outros trabalhadores. 

Macron, que mandara a polícia, libertou uma verba histórica para as escolas. Aceitou acabar com as barreiras de acesso à universidade e até uma hora e meia de almoço, em vez de uma hora. Uma primeira vitória dos estudantes. As escolas não são fábricas! 

Ontem diziam-nos jovens manipulados pela extrema-direita nas redes sociais  — não que muitos assim não se sentissem —, sem relações reais, deprimidos. Hoje estes jovens vivem o que para sempre ficará como uma das maiores experiências de transformação e de crescimento das suas vidas. 

Largadas as vestes de meninos mal-educados a pedir coisas aos papás, passam a sujeitos da história. Perceberam que ninguém vai a lado nenhum sozinho. Lutam juntos, discutem cara a cara em plenário, reúnem-se e responsabilizam-se pelas suas ações.

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Percebem, na forma da força brutal da polícia, o que é o Estado. Chegam, assim, à vida política. Para trás fica o show de manipulação televisiva, uma “modernidade” em que uma classe parasitária que acumula as maiores riquezas da história distribui mais e mais sacrifícios a todos os outros. 

A juventude mais jovem respondeu que “não queremos brioches, não queremos guerra, não queremos degradação”.

A França de 15 e 16 anos dá o mote. Começaram nos bairros mais pobres, chegaram à classe trabalhadora “média”, que os apoia em massa, tal como os sindicatos e os professores. 

Os crápulas que acumulam milhões, destroem os serviços públicos e querem levar a juventude para a guerra veem-se agora a braços com a resistência, que — tudo o indica — apenas começa. 

A extrema-direita, que tentou pôr todos contra todos, vê-se agora não a preparar uma eleição desenhada para tudo ficar na mesma, mas contra jovens e trabalhadores, a lutar, organizados, com jornais, partidos, associações. 

Dos estudantes em luta à greve geral, não vai, em França, mais do que o percurso de um boulevard. 

É isso que eles, Macron, Lecornu, Le Pen, sabem. É isso que eles, todos, temem.

Albânia Manifestações Trump categoria-internacional edicao-2026-07-02 (34)

Albânia: a mobilização popular sobe de tom

Um projecto político-imobiliário na ilha de Sazan, na Albânia, no valor de 1400 milhões de dólares, cujo testa-de-ferro é o genro de Trump, Jared Kushner, tem vindo a enfrentar enorme rejeição popular. Têm sido diárias as manifestações de indignação popular em Tirana, a capital. A 11 de Junho, uma mobilização de dimensão histórica reuniu dezenas de milhares de pessoas nas ruas durante mais de cinco horas.

ilustração: Ricardo Ferreira

Intensifica-se a rejeição popular do projecto político-imobiliário na ilha de Sazan, na Albânia, no valor de 1400 milhões de dólares.

Têm sido diárias as manifestações de indignação popular em Tirana, a capital. 

A 11 de Junho, uma mobilização de dimensão histórica reuniu dezenas de milhares de pessoas nas ruas durante mais de cinco horas.

O testa-de-ferro do projecto é o genro de Trump, Jared Kushner, um promotor imobiliário e político com conhecidas ligações financeiras a países do Golfo Pérsico e ao Estado de Israel.

A holding da empresa de Kushner, Affinity Global Development, gere activos da ordem de 5 mil milhões de dólares provenientes de fundos soberanos de países do Médio Oriente.

Para o negócio na Albânia, Kushner usou como corretor político Richard Grenell, ex-enviado especial de Trump para a Sérvia e o Kosovo, ex-chefe interino dos serviços de informações dos EUA e ex-embaixador de Trump na Alemanha. 

O negócio (estava também previsto um na Sérvia, entretanto congelado, de transformação do antigo Ministério da Defesa da Sérvia num hotel de luxo) incide na compra da ilha de Sazan, situada no estreito de Otranto, ponto de passagem fundamental entre o Adriático e o mar Mediterrâneo, com grande importância estratégica e militar ao longo da história. 

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Após a Primeira Guerra Mundial, a Itália criou uma base militar para assegurar a sua hegemonia regional. Após a derrota de Mussolini, no final da Segunda Guerra Mundial, o regime estalinista de Enver Hoxha retomou o controlo da ilha, construindo uma rede de 15 km de túneis, milhares de bunkers anti-nucleares e uma base de submarinos. A ilha é controlada pelas forças armadas da Albânia.

A posição estratégica da ilha sugere que Trump, com a sua dolorosa recente experiência de estreitamento de estreitos estratégicos, quererá dela tirar partido para reforçar o domínio do imperialismo americano na Europa. Note-se que percorre o leito do estreito de Otranto um gasoduto de grande importância, que transporta gás natural do Azerbaijão para a Europa. O mar em torno da ilha goza de um estatuto de protecção especial da natureza.

O primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, alega que o projecto de Kushner, que teve o seu aval pessoal, permitirá ao país entrar na “Liga dos Campeões do Turismo Mundial”. Entretanto, os americanos beneficiarão de isenção de impostos durante a fase de construção, e o Estado albanês encarregar-se-á de toda a infra-estrutura, incluindo água, electricidade e esgotos.

 

Os jovens e os trabalhadores albaneses exigem a demissão do governo, cantando palavras de ordem sem apelo nem agravo: “Edi Rama, rua!”, “Rama para a prisão!”, “Revolução!”, “Nova Albânia!

 

A mobilização popular concentra toda a indignação que vai pelo país. O primeiro-ministro afunda-se, denunciando a “desinformação”, acusando “forças externas”, “bots” e até “narrativas anti-semitas”, segundo ele responsáveis por alimentar a contestação. Num país caracterizado pela carência de salários decentes e pelo desmantelamento dos serviços públicos, o governo tenta fazer valer a promessa de criação de empregos ligados ao turismo. 

Contudo, a juventude está na linha da frente das mobilizações. Os jovens e os trabalhadores albaneses não são parvos. Exigem a demissão do governo, cantando palavras de ordem sem apelo nem agravo: “Edi Rama, rua!”, “Rama para a prisão!”, “Revolução!”, “Nova Albânia!”.

E o movimento de contestação ultrapassa as fronteiras da Albânia. A diáspora albanesa junta-se-lhe em massa: tem havido concentrações de solidariedade em Atenas, Berlim, Viena, Roma e Washington, estando outras anunciadas para Paris e Bruxelas.

Parece evidente que está em jogo muito mais do que uma nova fonte de lucros chorudos para os oligarcas locais e os multibilionários americanos ligados a Trump. 

O espectro da juventude assola a Europa
Albânia: a mobilização popular sobe de tom
O espectro da juventude assola a Europa
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Primeiro foram os estudantes a manifestar-se como há muito se não via. A extrema-direita disse que eram os islâmicos a tomar a França. Depois vieram milhares de pais e avós para as ruas, a classe trabalhadora francesa “média”, muita dela loura e de olho azul, ao lado dos jovens liceais.

Raquel Varela
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Albânia: a mobilização popular sobe de tom

Um projecto político-imobiliário na ilha de Sazan, na Albânia, no valor de 1400 milhões de dólares, cujo testa-de-ferro é o genro de Trump, Jared Kushner, tem vindo a enfrentar enorme rejeição popular. Têm sido diárias as manifestações de indignação popular em Tirana, a capital.

Adriano Zilhão

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