Jornal Maio

A Magnifica Humanidade de Leão XIV

Na encíclica Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), o Papa alerta para três campos concretos que os avanços digitais ameaçam, que não podem ser descurados, porque são fundamentais para assunção da dignidade e felicidade humanas: a verdade, o trabalho e a liberdade.

Padre José Luís Rodrigues

Padre José Luís Rodrigues

Padre da Diocese do Funchal

A encíclica Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), do Papa Leão XIV, é um texto muito assertivo e rico de conteúdo que obriga a pensar sobre a realidade do mundo atual e os destinos da humanidade. 

Os primeiros capítulos são uma lição aturada sobre a doutrina social da Igreja, sem que deixe de ser retomada nos capítulos seguintes. O Papa sempre recorre a ela para relacionar acontecimentos novos com os ensinamentos antigos, dados pelos seus predecessores. 

Esta é a primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas (MH). É um texto sem rodeios e sem pruridos linguísticos, claro e escorreito na exposição das ideias e intenções do Papa.

A encíclica foi dada a 15 de maio de 2026 e publicada a 25 de maio, para assinalar os 135 anos da Rerum Novarum, de Leão XIII. O tema da encíclica centra-se na ideia essencial que salta à vista de todos nós nestes tempos incertos que vivemos, quer pelas mudanças frenéticas da tecnologia (a inteligência artificial a desafiar a natural), quer pelos conflitos destrutivos que assolam o mundo com armas cada vez mais sofisticadas e mortíferas. 

Daí que se levante uma questão crucial: como manter a salvaguarda da dignidade humana e a aliciante aventura da inteligência natural na era da inteligência artificial (IA)?

Ao contrário daquilo que muita gente esperava, não encontramos uma palavra que seja no texto que sequer insinue uma diabolização da IA. Pelo contrário, reforça explicitamente ao que vem, nada de diabolizar a tecnologia e a IA. Diz que não é “um mal em si mesma”, mas alerta que não é neutral: “assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”, com o propósito desinteressado da dignidade humana e do bem comum.

Por um lado, propõe a metáforas bíblica: a torre de Babel, se a IA for usada para reforçar o uso do poder pela força, autossuficiência e o domínio de meia dúzia de poderosos sobre a maioria dos indefesos, que são encarados como meros dados para serem manipulados em função da cegueira do consumo.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Por outro, apresenta uma segunda parábola, a da reconstrução de Jerusalém. Neemias “diante da cidade destruída, medita, coloca o problema na sua oração a Deus, pede ajuda, parte, organiza o trabalho, enfrenta resistências internas e externas, mas tijolo a tijolo, reconstrói com o seu povo as muralhas de Jerusalém”. 

A IA deve ser posta ao serviço de todos, desafia à responsabilidade partilhada e não a uma maioria de “resignados espectadores”, mas homens e mulheres que “entram nos estaleiros da história”, para ser “protegido o que ruiu e proteger o que está exposto”.

Acho fenomenal que a encíclica tenha sido apresentada, além de na presença de cardeais, mas também na presença impactante de um especialista em IA, Christopher Olah, da empresa de IA Anthropic, que disse o seguinte: “A inteligência artificial deve ser desarmada”, e indo ainda mais longe que o Papa Leão XIV, comparou-a à energia nuclear.

Usou a expressão cara ao Papa Leão XIV e que ele reflete no n.º 110: “desarmar”, que significa: “deve ser desarmada e tornada acolhedora”, ao serviço de todos e do bem comum, da ecologia e da dignidade humana. Não devem as decisões ser tomadas fora da consciência e da responsabilidade humana.

Tudo o que se trata vem a partir do mote que é a beleza do progresso humano, mas que requer sempre atenção aos valores e princípios éticos que o libertem “das lógicas que transformam em instrumentos de domínio, exclusão social ou morte”; é preciso que esteja ao serviço do bem universal.

O Papa alerta para três campos concretos que os avanços digitais ameaçam, que não podem ser descurados, porque são fundamentais para assunção da dignidade e felicidade humanas: a verdade, o trabalho e a liberdade.

 

Se à Igreja é pedido que não diabolize a IA, muito mais deve ser exigido aos sistemas educativos, que devem olhar a IA como desafio e não como concorrente a ser abatido.

 

Manter a prioridade da verdade, neste ambiente que nos rodeia cada vez mais manipulado pelos conteúdos automáticos e a desinformação. Valorizar o trabalho, diante de uma cada vez mais acentuada redução da pessoa à eficiência e até à sua completa dispensa das atividades ou a trabalho não remunerado. Nada deve dispensar a liberdade individual. Mas devem ser enfrentados os vícios digitais, combater a recolha de dados de forma desregrada e a submissão a comportamentos invisíveis.

Face a estes alertas, impõe-se um reforço na educação, que deve por isso ser confrontada com o maior desafio da sua história. Todo o sistema educativo deverá reinventar-se totalmente. Se à Igreja é pedido que não diabolize a IA, muito mais deve ser exigido aos sistemas educativos, que devem olhar a IA como desafio e não como concorrente a ser abatido. Porque se assim for, adivinhamos com toda a ser certeza quem vai ser derrotado. 

Perante os conflitos que parecem não deixar a humanidade, alerta para a automatização impessoal perante decisões entre vida e morte, que dilui a responsabilidade humana, por isso, impõe “a cultura do cuidado”, da “justiça e da paz”. Todos empenhados construtores da “civilização do amor”.

A par da educação, Leão XIV, reforça também o papel da família e das comunidades, para que usem as tecnologias de forma crítica, sem dispensar a corresponsabilidade entre quem a propõe e quem lhe sofre as consequências, particularmente, os mais pobres.

O Papa Leão XIV reflete atentamente a partir da história, pede perdão pela responsabilidade da Igreja Católica perante os tempos negros da escravatura, lembrando que a dignidade humana não depende da tecnologia nem do social nem das contingências económicas, mas apenas e só da beleza magnífica de ser humanidade.

Em conclusão, a IA é uma ferramenta fabulosa e vai marcar o passo do futuro da humanidade inteira. Será útil escolhermos sempre “construir o bem” e nunca dispensar o que somos, “pessoas humanas”, caso contrário, não escolhemos a reconstrução dos muros de Jerusalém, mas a confusão destrutiva de outra Babel.