Jornal Maio

A Geração Z em revolta: de Daca a Catmandu

De Daca a Catmandu, os jovens estão a pôr em evidência a crise do capitalismo, mas têm dificuldade em transformar a indignação em organização.

Sushovan Dhar1

ilustração: Ricardo Ferreira

Os protestos ocorridos em Daca (capital do Bangladeche) em julho de 2024 não começaram com slogans revolucionários. Inicialmente incidiam sobre uma luta política – as quotas de emprego. Mas ao fim de poucos dias as ruas encheram-se por algo mais explosivo. Os estudantes falaram de justiça, mas era à exclusão que se referiam de facto; falaram de reformas, mas de facto vêem-se confrontados com um sistema que parece não conseguir oferecer-lhes um futuro. A resposta oficial não se fez esperar. Operações policiais, detenções, encerramento de campi universitários. Por um breve momento, os protestos pareceram querer ascender mais além das reivindicações imediatas. E depois, com a mesma rapidez, recuaram. As queixas persistem, mas a energia dissipou-se.

No Nepal, em setembro de 2025, a indignação contra a corrupção já vinha de longe. Não se trata apenas de uma reacção contra os falhanços da governação; é sobretudo a resposta a uma revolução que tinha prometido transformações, mas acabou numa transição estagnada. O fim da monarquia e a transição para políticas republicanas parecia prometer uma mudança genuína. Contudo, para muitos jovens hoje em dia, esse momento parece ter falhado – senão mesmo ter sido traído. As instituições republicanas que emergiram depois da revolução tentaram oferecer estabilidade, juntamente com justiça. Vive-se um sistema político que afirma encarnar a transformação, mas que, na sua essência, reproduz as mesmas limitações.

Esta vivência afecta a maneira como os jovens reagem à política actualmente. A desilusão não se dirige apenas contra o Estado, abarca mesmo o horizonte mais amplo da própria mudança. Esta percepção ultrapassa a simples ineficácia das instituições. Os jovens acham que mesmo os momentos de grande agitação social acabam por ser absorvidos, sem alterar no fundamental as estruturas centrais. O discurso anticorrupção e tudo o que o envolve desvenda uma verdade mais funda: uma convicção generalizada de que a promessa que anunciava transformações foi adiada, talvez mesmo indefinidamente.

No Bangladeche passa-se algo semelhante, embora as circunstâncias difiram. As instituições políticas ainda estão de pé, mas parecem já não conseguir responder às pressões económicas do dia a dia; daí a desilusão da população, ao ver a ineficácia das instituições para enfrentar os desafios. Por um lado, há eleições e os governos umas vezes mudam, outras permanecem; por outro, perduram as questões de fundo, como a exclusão económica, o espaço político restritivo e a concentração de poder. Para muitos jovens, a política não parece um mar de possibilidades, mas um circuito fechado.

Isto não são episódios isolados. De Daca a Catmandu, e um pouco por todo o mundo, assistimos a um conjunto de atitudes políticas recorrentes: intensas, imediatas, moralmente lúcidas, mas estruturalmente frágeis. Foi neste ambiente que a Geração Z entrou na vida política. A Gen Z é muitas vezes descrita como a “consciência de um mundo fracturado” – com clareza moral, com fluência digital e instintivamente internacionalista. Alguma verdade haverá nessas descrições. Estes movimentos são lestos a reconhecer a injustiça e avessos a normalizá-la. Eles desmascaram as evasivas da política institucional com uma clareza incomum, mas muitas vezes não conseguem estabelecer um quadro sustentável para as suas reivindicações e objectivos, o que seria crucial para transformar o seu impacto imediato numa mudança duradoura.

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Quando o futuro colapsa

No Bangladeche, os protestos extravasaram a questão das quotas, reflectindo uma realidade mais ampla de estagnação económica mesclada de autoritarismo político. Para muitos jovens, a educação já não garante a mobilidade, o emprego é precário e o acesso a oportunidades é altamente controlado. Os protestos apontaram estas questões indirectamente. Embora nem sempre exprimissem uma crítica sistémica, eram por ela impulsionados. No Nepal, a indignação contra a corrupção desempenhou um papel semelhante. Não está em causa apenas a inépcia governativa, mas também uma profunda perda de fé em instituições que parecem incapazes de prover formas básicas de estabilidade e prestação de contas. As palavras podem mudar, mas a situação é semelhante: uma geração confrontada com um sistema incapaz de manter as promessas mais simples.

Isto não é uma anomalia regional. Reflecte uma transformação mais vasta do capitalismo. A Geração Z é a primeira que cresceu em condições onde as crises já não são cíclicas, mas permanentes – instabilidade económica, desastres ecológicos e precariedade no trabalho formam o substrato da vida social. Para uma grande parte desta geração, sobretudo no Sul Global, a estabilidade deixou de ser um projecto adiado: tornou-se crescentemente implausível, obrigando-os a enfrentar o desafio do desemprego, o impacto das alterações climáticas e a falta de acesso à educação e à saúde. Quando o futuro colapsa, regressa a política. Mas não regressa nos velhos moldes.

 

A lucidez moral pode deslegitimar o poder. Contudo, só por si não basta para reorganizar as estruturas de poder.

 

Os limites da política

Uma das características distintivas dos movimentos da Geração Z é o recurso a uma linguagem ética. Os protestos falam de justiça, equidade, dignidade e responsabilização. Não se trata apenas de uma questão de estilo – reflectem uma urgência quanto à ausência de instituições fiáveis, denunciam uma frustração profunda quanto à paisagem política actual e à procura de uma mudança sistémica. A lucidez moral emerge como o recurso político mais à mão, enquanto os partidos políticos perdem credibilidade e as organizações enfraquecem. Essa lucidez é fonte de força. Facilita a mobilização rápida dos movimentos e expõe as contradições de sistemas que apresentam a desigualdade e a exclusão como inevitáveis. Os movimentos da Geração Z têm frequentemente a capacidade de apontar ao âmago moral da sociedade. Contudo, ignoram com frequência os centros nervosos socioeconómicos.

A lucidez moral pode deslegitimar o poder. Contudo, só por si não basta para reorganizar as estruturas de poder. É aí que se tornam patentes os limites destes movimentos. Tanto no Bangladeche como no Nepal, mobilizaram-se rapidamente vastos números de pessoas, mas é difícil manter essa mobilização quando a repressão se intensifica ou sobe de tom. Existem poucas estruturas organizativas capazes de levar a luta por diante. Isto não resulta apenas de um problema de liderança ou de confusão ideológica. Reflecte problemas estruturais mais profundos.


Vidas fragmentadas, políticas fragmentárias

Os jovens que protestam em Daca ou Catmandu não estão inseridos em relações de trabalho estáveis, nas quais a solidariedade a longo prazo possa desenvolver-se. Dispersam-se entre a educação, o trabalho informal, o desemprego e, com frequência, a migração. Nestas condições, a acção política tende a surgir como uma série de erupções, não tanto como um processo contínuo. Os meios de comunicação social amplificam esta dinâmica, ao proporcionarem um rápido alastramento e a ligação além-fronteiras. Ao mesmo tempo, porém, dispersam a atenção e quebram a continuidade. Resulta daí que os movimentos emergem com rapidez, mas sem a profundidade orgânica de que carece a perseverança.

A questão de classe reside no âmago desta fragmentação. A Geração Z foi profundamente enformada pela insegurança material – desemprego, trabalho precário, instabilidade da habitação. No entanto, a ideia de classe raramente surge no centro da linguagem organizacional. No Bangladeche, as queixas económicas são apresentadas como questões de justiça. No Nepal, as desigualdades estruturais são muitas vezes abordadas através de um discurso anticorrupção, que sublinha as injustiças sociais na distribuição e gestão de recursos, as quais afectam de forma desproporcionada as comunidades marginalizadas.

Isto não é tanto uma rejeição da política de classes, mas antes um reflexo da forma como a própria classe se transformou. A imagem tradicional da classe trabalhadora – estável, concentrada e organizada – encontra pouca correspondência nas condições fragmentárias do trabalho que enformam a vivência da Geração Z. Na falta de lugares de organização partilhados, torna-se mais difícil traduzir as queixas comuns em termos de identidade política.

 

Os jovens que protestam em Daca ou Catmandu não estão inseridos em relações de trabalho estáveis, nas quais a solidariedade a longo prazo possa desenvolver-se.

 


Dissidência controlada

Estes movimentos não se desenvolvem livremente. São contidos de forma activa. No Bangladeche a repressão tem sido directa: policiamento, detenções, intimidação. No Nepal, é frequentemente conjugada com concessões selectivas que aliviam a pressão de forma imediata, mas não mudam grande coisa – ajustamentos políticos temporários ou um diálogo político limitado que não aborda as causas profundas do desagrado popular. Ao mesmo tempo, decorre discretamente um processo de cooptação em que os elementos da dissidência juvenil são absorvidos pelos canais institucionais – ONG, enquadramento político e manobras eleitoralistas –, nos quais o seu potencial disruptivo é neutralizado. Tudo isto resulta num ciclo já bem conhecido: mobilização, contenção, dissipação.

Nada disto é acidental. Reflecte um sistema que se adaptou às crises. Em vez de resolver os problemas de onde nasce o descontentamento, favorece a sua gestão – permite que os protestos venham à luz do dia, mas previne a sua consolidação, o que denuncia uma estratégia de controlo, e não de reforma genuína.


Revolta sem poder

Sendo assim, o que nos revelam estes movimentos? Revelam que a ordem existente está a perder a sua capacidade de garantir o consentimento. Mostram que a desigualdade e a precariedade já não podem ser silenciosamente dissolvidas na vida privada. Assinalam o regresso da política, num ambiente concebido para a suprimir, trazem à luz do dia a crescente exigência pública de responsabilização e mudança, em resposta aos problemas sistémicos. Mas também revelam uma verdade mais dura: a revolta, só por si, não basta. Os movimentos da Geração Z conseguem produzir centelhas políticas. Têm o poder de reacender questões que já estavam dormentes. Mas sem formas de organização capazes de sustentar a luta, permanecem vulneráveis à repressão, à cooptação e à exaustão.

Isto não representa uma falha geracional. É um impasse estrutural. A questão não consiste em saber se a Gen Z é suficientemente radical. Tudo depende da capacidade de engendrar novas formas políticas capazes de conglomerar num poder colectivo os aspectos fragmentários das vidas pessoais – formas capazes de perdurar para além dos momentos de erupção e confrontar os alicerces da organização do poder. Enquanto assim não suceder, o mais certo é o padrão continuar: movimentos que aparecem de súbito, que ardem intensamente e se extinguem sem ter resolvido nada. O simples facto de aparecerem já é significativo. O problema é que não conseguem perdurar.

1 Este texto corresponde à apresentação de Sushovan Dhar no seminário organizado pelo CADTM Internacional em 28 de março de 2026, no âmbito da I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que decorreu em Porto Alegre (Brasil) de 26 a 29 de março de 2026.

Tradução de Rui Viana Pereira.