Política

A economia é política, sempre Abel Pereira Costa
categoria-opinião Economia Política Estado Socialismo edicao-2026-10-01 (43)

A economia é política, sempre

Se a esquerda se mantiver resignada a distribuir com maior justiça os resultados de uma economia governada por outros, chegará sempre demasiado tarde. A sua verdadeira missão não passa por administrar a ordem existente com mais compaixão, mas por disputar as instituições que decidem, muito antes da distribuição, quem possui,

Abel Pereira Costa
O dia em que a Bélgica invadiu a Alemanha
categoria-ciência Educação IA generativa Política Verdade edicao-2026-07-02 (34)

O dia em que a Bélgica invadiu a Alemanha

Os vencedores agora podem reescrever a história através da IA generativa. Mas qual o sentido de recorrer a uma tecnologia que falseia e deturpa?

Sylvia Debossan Moretzsohn
A Geração Z em revolta: de Daca a Catmandu
Capitalismo Geração Z Política categoria-internacional edicao-2026-06-04 (30)

A Geração Z em revolta: de Daca a Catmandu

De Daca a Catmandu, os jovens estão a pôr em evidência a crise do capitalismo, mas têm dificuldade em transformar a indignação em organização.

Sushovan Dhar
categoria-opinião Economia Política Estado Socialismo edicao-2026-10-01 (43)

A economia é política, sempre

Se a esquerda se mantiver resignada a distribuir com maior justiça os resultados de uma economia governada por outros, chegará sempre demasiado tarde. A sua verdadeira missão não passa por administrar a ordem existente com mais compaixão, mas por disputar as instituições que decidem, muito antes da distribuição, quem possui, quem investe, quem trabalha e quem obedece.

Desde há muito tempo que nos têm vendido a ideia de que a economia opera no reino das ciências exatas, descrevendo-a como um território fatalista, governado por leis naturais e insuperáveis, onde sumos sacerdotes de fato e gravata leem o futuro nas entrelinhas das folhas de cálculo. Habituaram-nos a olhar para os humores do mercado com a mesma resignação com que olhamos para as previsões meteorológicas: fenómenos naturais contra os quais nada podemos fazer para além de aceitar o castigo.

Ao disfarçar o poder sob o manto do fatalismo, a armadilha torna-se fatal. Se a economia pertence à ordem da natureza, então contestá-la passa a ser tão absurdo como votar contra a chuva. Assim, o espaço para a escolha é eliminado, os responsáveis pelas crises tornam-se invisíveis e a política é reduzida à mera administração resignada daquilo que foi declarado impossível de mudar.

Muitas vezes, assumimos que esta ditadura da técnica resulta da ideologia dominante das últimas quatro décadas, o fruto amargo do vendaval neoliberal de Reagan e Thatcher. Porém, as suas raízes mergulham bem mais fundo.

A matriz económica contemporânea recupera uma arquitetura política desenhada no rescaldo da Primeira Guerra Mundial, quando a expansão do sufrágio, a força dos sindicatos e o espectro da revolução socialista assombravam as classes dominantes, que se deparavam com um problema novo. Manter a ordem social capitalista passou, assim, a exigir mais do que o silenciamento político ou o uso da força policial: a disciplina social teve de inventar a sua própria linguagem técnica.

A partir de então, o conflito estrutural entre capital e trabalho foi convertido numa narrativa de necessidade económica. As escolhas políticas passaram a ser apresentadas como exigências incontornáveis das contas públicas, da estabilidade monetária ou da confiança dos investidores. O que antes seria defendido abertamente como interesse de classe começou a ser imposto discretamente como recomendação de especialistas independentes.

Contudo, esta suposta neutralidade não passa de uma ilusão. Como argumenta a economista Clara E. Mattei na sua obra A Ordem do Capital, a austeridade não emergiu como uma técnica objetiva destinada a equilibrar os orçamentos públicos. Pelo contrário, constituiu-se sobretudo como um projeto político de disciplina social, operando através de três eixos complementares: fiscal, monetário e industrial.

A austeridade fiscal limita o investimento público, restringe os serviços coletivos e subordina as necessidades sociais à confiança dos credores. A austeridade monetária encarece o crédito, protege o valor dos patrimónios financeiros e utiliza o desemprego como instrumento de contenção dos salários. A austeridade industrial enfraquece os sindicatos, flexibiliza as relações laborais e transfere o poder dos trabalhadores para os proprietários do capital.

Cada uma destas engrenagens possui a sua linguagem especializada e os seus modelos matemáticos. No entanto, por debaixo da aparente neutralidade dos instrumentos, esconde-se a mesma questão de sempre: quem deve suportar os custos de uma crise e quem conserva o poder de decidir?

Para conservar esse poder, a ortodoxia económica nunca precisou de nos convencer de que o sistema é justo; a brutalidade dessa mentira seria desmentida todos os dias no desespero das ruas, na exaustão dos locais de trabalho e nos preços das casas que já ninguém consegue pagar. A sua vitória teve um carácter ainda mais sombrio, elevando a consenso a ideia de que a injustiça é inevitável. A austeridade passou a chamar-se responsabilidade; a precariedade, flexibilização; o desemprego, ajustamento; a privatização, modernização. E até a pobreza ganhou o vocabulário higiénico dos sacrifícios necessários.

Ao amputarem a palavra “política” da expressão “economia política”, os zeladores desta ordem consumaram uma violenta expropriação democrática. Mais do que usurparem recursos, confiscaram-nos a capacidade vital de imaginar alternativas. O debate público foi reduzido a um exercício de contabilidade – mais uns trocos para aqui, menos uns trocos para ali – conduzido por tecnocratas cuja principal autoridade reside em fingirem que não têm ideologia.

No fundo, a neutralidade é a máscara que a hegemonia usa para não ter de prestar contas nem pedir desculpa.

Uma taxa de juro não é apenas uma variável num modelo, é o que pode separar uma família do teto onde dorme ou uma cooperativa do investimento de que necessita.

Não existe um Orçamento do Estado, uma meta de défice, uma regra fiscal ou uma alteração da taxa de juro que seja socialmente assética. Cada número distribui possibilidades, cada regra protege determinados interesses, transfere riscos e delimita futuros. Uma taxa de juro não é apenas uma variável num modelo, é o que pode separar uma família do teto onde dorme ou uma cooperativa do investimento de que necessita. Um corte orçamental materializa-se em listas de espera intermináveis, em corpos exaustos, em escolas degradadas e em cuidados vitais sonegados.

Os números do Excel suportam tudo. As pessoas, não.

Aceitar a separação entre economia e política é aceitar que a democracia tem limites intransponíveis, terminando abruptamente à porta da fábrica, do banco, do fundo de investimento e do conselho de administração. Somos livres para escolher governos, mas impotentes perante as decisões que orientam o crédito e a produção. Somos chamados a eleger parlamentos, mas continuamos reféns das estruturas de propriedade que, à margem do voto, distribuem diariamente poder, segurança e liberdade.

O cidadão formalmente soberano transforma-se, durante grande parte da sua vida, num trabalhador subordinado, num inquilino vulnerável, num consumidor manipulado ou num devedor disciplinado. É formalmente livre perante a solidão da urna, mas tragicamente frágil perante as instituições que determinam as condições do seu trabalho, o preço do seu teto e a dimensão do futuro que lhe é permitido ambicionar. Assim, a democracia política convive com uma espécie de absolutismo económico.

A resposta a este absolutismo não pode ser a simples expansão da autoridade do Estado, porque politizar a economia não significa entregar cada decisão a um ministério, substituir os mercados por decretos ou trocar a dominação do capital pela tutela de uma burocracia central. A prova é que uma empresa nacionalizada pode continuar a silenciar os trabalhadores, ou um banco público pode permanecer governado como uma instituição privada. Uma sociedade emancipada não se ergue convertendo cidadãos em tutelados.

Um corte orçamental materializa-se em listas de espera intermináveis, em corpos exaustos, em escolas degradadas e em cuidados vitais sonegados.

Neste ponto, pulsa a intuição libertária do socialismo: não basta socializar a propriedade, é necessário democratizar o poder. Alterar a titularidade jurídica sem alterar a relação de forças entre quem decide e quem obedece apenas desloca a autoridade de um polo para outro. A emancipação material exige que o trabalhador e a comunidade tomem lugar à mesa das instituições que governam as suas vidas.

A alternativa reside para lá da dicotomia entre mercados soberanos e Estados omnipotentes. Cooperativas de trabalhadores, empresas cogeridas, mutualidades, fundos sociais de investimento, serviços públicos universais governados com participação dos seus profissionais e utentes, bem como formas de propriedade municipal ou comunitária permitem distribuir o poder económico sem renunciar à coordenação coletiva.

Nada obriga estas instituições a permanecerem pequenas ou isoladas, uma vez que podem federar-se, partilhar tecnologia, mobilizar investimento e coordenar setores inteiros através de regras comuns e planeamento democrático. O problema da escala não exige um centro que tudo controle, mas sim instituições autónomas capazes de cooperar.

Imaginar uma economia socialista não implica decretar a abolição da iniciativa individual ou de toda a troca mercantil. Implica, isso sim, a recusa do mercado como autoridade suprema da sociedade, subordinando-o a instituições democráticas e impedindo que a propriedade conceda a alguns o direito de governar a vida de muitos. A saúde, a educação, a habitação, a energia, a água e os cuidados não podem estar reféns de lógicas de rentabilidade, porque constituem os alicerces materiais da própria liberdade.

A liberdade de escolha abstrata é uma ficção se não for acompanhada pela capacidade material de recusar. O trabalhador preso a um emprego precário pela ameaça da pobreza, ou a família asfixiada pelo preço da renda, conhecem bem esta diferença. Onde a sobrevivência implica a obediência, a liberdade torna-se um privilégio.

O crédito revela esta dimensão com particular clareza, visto que não se trata apenas de dinheiro emprestado, mas sim de uma autorização para antecipar o futuro. Quando o sistema financeiro privilegia a especulação imobiliária e concentra recursos em atividades rentistas, está a decidir silenciosamente que futuros podem ou não nascer. Democratizá-lo não significa entregar cada empréstimo ao governo, mas distribuir o poder de decidir sobre o investimento: fortalecer instituições financeiras públicas, cooperativas e mutualistas; e orientar recursos para a habitação, a transição ecológica, a economia social e a transformação produtiva.

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O mesmo princípio deve estender-se à empresa. Quem cria a riqueza deve participar nas decisões sobre a sua utilização, retirando o investimento e o planeamento económico tanto da rentabilidade privada de curto prazo como do controlo exclusivo de burocracias centralizadas.

Devolver a economia à democracia significa levar a decisão coletiva aos lugares onde se organiza a vida comum: ao trabalho, ao crédito, à propriedade, ao investimento e aos serviços essenciais. Esta transformação exige a intervenção do Estado, mas não pode ficar confinada a ele. Cabe ao poder público garantir direitos universais, limitar a concentração económica e assegurar as condições para que os próprios trabalhadores e comunidades organizem a produção, o crédito e os bens comuns.

Se a esquerda se mantiver resignada a distribuir com maior justiça os resultados de uma economia governada por outros, chegará sempre demasiado tarde. A sua verdadeira missão não passa por administrar a ordem existente com mais compaixão, mas por disputar as instituições que decidem, muito antes da distribuição, quem possui, quem investe, quem trabalha e quem obedece.

O socialismo libertário ergue-se na recusa de escolher entre a tirania do capital e a tutela do Estado. O seu horizonte é uma sociedade em que o poder esteja suficientemente distribuído para que ninguém domine, e suficientemente articulado para que todos cooperem.

A economia é política, sempre. A tarefa do socialismo é resgatá-la do governo de poucos sobre a vida de muitos, transformando-a na construção democrática de um futuro comum.

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O dia em que a Bélgica invadiu a Alemanha

Os vencedores agora podem reescrever a história através da IA generativa. Mas qual o sentido de recorrer a uma tecnologia que falseia e deturpa?

Os múltiplos exemplos de erros, imprecisões, invenções e falsidades produzidos pelas respostas dos mecanismos de IA generativa já insinuavam um problema que agora ficou evidente: a possibilidade, e o risco, de se alterar o passado e reescrever a história. 

Este é o principal alerta dos investigadores Nuno Moniz, da Universidade de Notre Dame, e Miguel Cardina, da Universidade de Coimbra, ao apresentarem, no início de maio, um relatório sobre o estudo, desenvolvido em conjunto com colegas de outros países, que buscava saber como o ChatGPT respondia a perguntas sobre quatro conflitos internacionais, entre eles a guerra colonial e os movimentos de libertação das antigas colónias portuguesas em África. 

Os resultados confirmaram aquilo que estudiosos e utilizadores críticos da IA generativa já vinham constatando, independentemente da área de conhecimento: as respostas produzidas pelos robôs estão cheias de invenções, distorções, imprecisões, falsidades, omissões. A investigação escolheu lidar com o ChatGPT por ser o mais popular entre os chatbots e comprovou problemas recorrentes, como informações fabricadas – isto é, inventadas –, erros factuais básicos como a data de ocorrência de determinados eventos, narrativas históricas falsas ou distorcidas, influência da língua prevalecente no treino da máquina para a produção de resultados ideologicamente direcionados e narrativas diferentes ou mesmo contraditórias sobre os mesmos eventos, em função da língua.

As consequências são evidentes e muito graves: crianças e jovens deformados a partir de sistemas que estabelecem padrões de autoridade falsos e embaralham informações verdadeiras e fictícias, que se vão normalizando com o tempo. 

 

Os vencedores agora podem reescrever a história através da IA generativa. Mas qual o sentido de recorrer a uma tecnologia que falseia e deturpa?

 

Diante desse quadro que, segundo os próprios investigadores, exige intervenção “urgente”, não se percebe muito bem porquê as recomendações ainda insistem na formação de grupos de estudo para avaliar as potencialidades e os riscos do uso da IA. Por que não a frontal rejeição do uso dessa tecnologia no sistema de ensino? Por que não o desenvolvimento de campanhas que alertem para as distorções que as interações com chatbots podem promover na formação das futuras gerações? Em janeiro, um grupo de professores lançou um manifesto exatamente nesses termos. Por que não investir na ampliação do alcance dessa crítica?

Não bastassem todos os argumentos bem sustentados sobre o desvirtuamento do processo educativo, que afeta a própria capacidade de pensar, valeria a pena considerar o contrassenso de se consultar uma fonte inconfiável. Qual o sentido de recorrer a esses robôs, se não podemos ter certeza das informações que nos fornecem e ainda precisamos ter o trabalho acrescido de confirmá-las? 

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Num trecho do seu relatório, os autores fazem graça com o famoso adágio segundo o qual a história é escrita pelos vencedores: agora, passaria a ser escrita “por quem produz mais dados sobre ela”. Mas bastaria perguntar quem tem capacidade de produzir mais dados para concluir que, do ponto de vista ideológico, a situação não se altera tanto assim. Por sinal, reforça a notável observação de Walter Benjamin: nem os mortos estarão a salvo se os vencedores continuarem a vencer.

Importaria ainda avançar com mais perguntas: quem produz, desenvolve e controla esses modelos de linguagem? A quem interessaria promover incerteza e finalmente concretizar a distopia orwelliana de um mundo em que a história é permanentemente reescrita, de modo que a Eurásia e a Lestásia são aliadas na guerra contra a Oceania e logo a seguir a situação se inverte e as informações anteriores são descartadas porque se vive num presente contínuo e continuamente atualizado, sem memória do passado e, por isso, sem qualquer perspectiva de futuro?

Numa conhecida passagem do seu famoso ensaio sobre verdade e política, Hannah Arendt cita a resposta de Georges Clemenceau a um representante da República de Weimar a respeito das futuras interpretações sobre a Grande Guerra (a Primeira Guerra Mundial): tudo poderia ser dito, menos que a Bélgica invadiu a Alemanha.

Mais de um século depois, a depender do ChatGPT, já não se poderá ter tanta certeza.

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A Geração Z em revolta: de Daca a Catmandu

De Daca a Catmandu, os jovens estão a pôr em evidência a crise do capitalismo, mas têm dificuldade em transformar a indignação em organização.

ilustração: Ricardo Ferreira

Os protestos ocorridos em Daca (capital do Bangladeche) em julho de 2024 não começaram com slogans revolucionários. Inicialmente incidiam sobre uma luta política – as quotas de emprego. Mas ao fim de poucos dias as ruas encheram-se por algo mais explosivo. Os estudantes falaram de justiça, mas era à exclusão que se referiam de facto; falaram de reformas, mas de facto vêem-se confrontados com um sistema que parece não conseguir oferecer-lhes um futuro. A resposta oficial não se fez esperar. Operações policiais, detenções, encerramento de campi universitários. Por um breve momento, os protestos pareceram querer ascender mais além das reivindicações imediatas. E depois, com a mesma rapidez, recuaram. As queixas persistem, mas a energia dissipou-se.

No Nepal, em setembro de 2025, a indignação contra a corrupção já vinha de longe. Não se trata apenas de uma reacção contra os falhanços da governação; é sobretudo a resposta a uma revolução que tinha prometido transformações, mas acabou numa transição estagnada. O fim da monarquia e a transição para políticas republicanas parecia prometer uma mudança genuína. Contudo, para muitos jovens hoje em dia, esse momento parece ter falhado – senão mesmo ter sido traído. As instituições republicanas que emergiram depois da revolução tentaram oferecer estabilidade, juntamente com justiça. Vive-se um sistema político que afirma encarnar a transformação, mas que, na sua essência, reproduz as mesmas limitações.

Esta vivência afecta a maneira como os jovens reagem à política actualmente. A desilusão não se dirige apenas contra o Estado, abarca mesmo o horizonte mais amplo da própria mudança. Esta percepção ultrapassa a simples ineficácia das instituições. Os jovens acham que mesmo os momentos de grande agitação social acabam por ser absorvidos, sem alterar no fundamental as estruturas centrais. O discurso anticorrupção e tudo o que o envolve desvenda uma verdade mais funda: uma convicção generalizada de que a promessa que anunciava transformações foi adiada, talvez mesmo indefinidamente.

No Bangladeche passa-se algo semelhante, embora as circunstâncias difiram. As instituições políticas ainda estão de pé, mas parecem já não conseguir responder às pressões económicas do dia a dia; daí a desilusão da população, ao ver a ineficácia das instituições para enfrentar os desafios. Por um lado, há eleições e os governos umas vezes mudam, outras permanecem; por outro, perduram as questões de fundo, como a exclusão económica, o espaço político restritivo e a concentração de poder. Para muitos jovens, a política não parece um mar de possibilidades, mas um circuito fechado.

Isto não são episódios isolados. De Daca a Catmandu, e um pouco por todo o mundo, assistimos a um conjunto de atitudes políticas recorrentes: intensas, imediatas, moralmente lúcidas, mas estruturalmente frágeis. Foi neste ambiente que a Geração Z entrou na vida política. A Gen Z é muitas vezes descrita como a “consciência de um mundo fracturado” – com clareza moral, com fluência digital e instintivamente internacionalista. Alguma verdade haverá nessas descrições. Estes movimentos são lestos a reconhecer a injustiça e avessos a normalizá-la. Eles desmascaram as evasivas da política institucional com uma clareza incomum, mas muitas vezes não conseguem estabelecer um quadro sustentável para as suas reivindicações e objectivos, o que seria crucial para transformar o seu impacto imediato numa mudança duradoura.

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Quando o futuro colapsa

No Bangladeche, os protestos extravasaram a questão das quotas, reflectindo uma realidade mais ampla de estagnação económica mesclada de autoritarismo político. Para muitos jovens, a educação já não garante a mobilidade, o emprego é precário e o acesso a oportunidades é altamente controlado. Os protestos apontaram estas questões indirectamente. Embora nem sempre exprimissem uma crítica sistémica, eram por ela impulsionados. No Nepal, a indignação contra a corrupção desempenhou um papel semelhante. Não está em causa apenas a inépcia governativa, mas também uma profunda perda de fé em instituições que parecem incapazes de prover formas básicas de estabilidade e prestação de contas. As palavras podem mudar, mas a situação é semelhante: uma geração confrontada com um sistema incapaz de manter as promessas mais simples.

Isto não é uma anomalia regional. Reflecte uma transformação mais vasta do capitalismo. A Geração Z é a primeira que cresceu em condições onde as crises já não são cíclicas, mas permanentes – instabilidade económica, desastres ecológicos e precariedade no trabalho formam o substrato da vida social. Para uma grande parte desta geração, sobretudo no Sul Global, a estabilidade deixou de ser um projecto adiado: tornou-se crescentemente implausível, obrigando-os a enfrentar o desafio do desemprego, o impacto das alterações climáticas e a falta de acesso à educação e à saúde. Quando o futuro colapsa, regressa a política. Mas não regressa nos velhos moldes.

 A lucidez moral pode deslegitimar o poder. Contudo, só por si não basta para reorganizar as estruturas de poder

 Os limites da política

Uma das características distintivas dos movimentos da Geração Z é o recurso a uma linguagem ética. Os protestos falam de justiça, equidade, dignidade e responsabilização. Não se trata apenas de uma questão de estilo – reflectem uma urgência quanto à ausência de instituições fiáveis, denunciam uma frustração profunda quanto à paisagem política actual e à procura de uma mudança sistémica. A lucidez moral emerge como o recurso político mais à mão, enquanto os partidos políticos perdem credibilidade e as organizações enfraquecem. Essa lucidez é fonte de força. Facilita a mobilização rápida dos movimentos e expõe as contradições de sistemas que apresentam a desigualdade e a exclusão como inevitáveis. Os movimentos da Geração Z têm frequentemente a capacidade de apontar ao âmago moral da sociedade. Contudo, ignoram com frequência os centros nervosos socioeconómicos.

A lucidez moral pode deslegitimar o poder. Contudo, só por si não basta para reorganizar as estruturas de poder. É aí que se tornam patentes os limites destes movimentos. Tanto no Bangladeche como no Nepal, mobilizaram-se rapidamente vastos números de pessoas, mas é difícil manter essa mobilização quando a repressão se intensifica ou sobe de tom. Existem poucas estruturas organizativas capazes de levar a luta por diante. Isto não resulta apenas de um problema de liderança ou de confusão ideológica. Reflecte problemas estruturais mais profundos.


Vidas fragmentadas, políticas fragmentárias

Os jovens que protestam em Daca ou Catmandu não estão inseridos em relações de trabalho estáveis, nas quais a solidariedade a longo prazo possa desenvolver-se. Dispersam-se entre a educação, o trabalho informal, o desemprego e, com frequência, a migração. Nestas condições, a acção política tende a surgir como uma série de erupções, não tanto como um processo contínuo. Os meios de comunicação social amplificam esta dinâmica, ao proporcionarem um rápido alastramento e a ligação além-fronteiras. Ao mesmo tempo, porém, dispersam a atenção e quebram a continuidade. Resulta daí que os movimentos emergem com rapidez, mas sem a profundidade orgânica de que carece a perseverança.

A questão de classe reside no âmago desta fragmentação. A Geração Z foi profundamente enformada pela insegurança material – desemprego, trabalho precário, instabilidade da habitação. No entanto, a ideia de classe raramente surge no centro da linguagem organizacional. No Bangladeche, as queixas económicas são apresentadas como questões de justiça. No Nepal, as desigualdades estruturais são muitas vezes abordadas através de um discurso anticorrupção, que sublinha as injustiças sociais na distribuição e gestão de recursos, as quais afectam de forma desproporcionada as comunidades marginalizadas.

Isto não é tanto uma rejeição da política de classes, mas antes um reflexo da forma como a própria classe se transformou. A imagem tradicional da classe trabalhadora – estável, concentrada e organizada – encontra pouca correspondência nas condições fragmentárias do trabalho que enformam a vivência da Geração Z. Na falta de lugares de organização partilhados, torna-se mais difícil traduzir as queixas comuns em termos de identidade política.

Os jovens que protestam em Daca ou Catmandu não estão inseridos em relações de trabalho estáveis, nas quais a solidariedade a longo prazo possa desenvolver-se

 Dissidência controlada

Estes movimentos não se desenvolvem livremente. São contidos de forma activa. No Bangladeche a repressão tem sido directa: policiamento, detenções, intimidação. No Nepal, é frequentemente conjugada com concessões selectivas que aliviam a pressão de forma imediata, mas não mudam grande coisa – ajustamentos políticos temporários ou um diálogo político limitado que não aborda as causas profundas do desagrado popular. Ao mesmo tempo, decorre discretamente um processo de cooptação em que os elementos da dissidência juvenil são absorvidos pelos canais institucionais – ONG, enquadramento político e manobras eleitoralistas –, nos quais o seu potencial disruptivo é neutralizado. Tudo isto resulta num ciclo já bem conhecido: mobilização, contenção, dissipação.

Nada disto é acidental. Reflecte um sistema que se adaptou às crises. Em vez de resolver os problemas de onde nasce o descontentamento, favorece a sua gestão – permite que os protestos venham à luz do dia, mas previne a sua consolidação, o que denuncia uma estratégia de controlo, e não de reforma genuína.


Revolta sem poder

Sendo assim, o que nos revelam estes movimentos? Revelam que a ordem existente está a perder a sua capacidade de garantir o consentimento. Mostram que a desigualdade e a precariedade já não podem ser silenciosamente dissolvidas na vida privada. Assinalam o regresso da política, num ambiente concebido para a suprimir, trazem à luz do dia a crescente exigência pública de responsabilização e mudança, em resposta aos problemas sistémicos. Mas também revelam uma verdade mais dura: a revolta, só por si, não basta. Os movimentos da Geração Z conseguem produzir centelhas políticas. Têm o poder de reacender questões que já estavam dormentes. Mas sem formas de organização capazes de sustentar a luta, permanecem vulneráveis à repressão, à cooptação e à exaustão.

Isto não representa uma falha geracional. É um impasse estrutural. A questão não consiste em saber se a Gen Z é suficientemente radical. Tudo depende da capacidade de engendrar novas formas políticas capazes de conglomerar num poder colectivo os aspectos fragmentários das vidas pessoais – formas capazes de perdurar para além dos momentos de erupção e confrontar os alicerces da organização do poder. Enquanto assim não suceder, o mais certo é o padrão continuar: movimentos que aparecem de súbito, que ardem intensamente e se extinguem sem ter resolvido nada. O simples facto de aparecerem já é significativo. O problema é que não conseguem perdurar.

1 Este texto corresponde à apresentação de Sushovan Dhar no seminário organizado pelo CADTM Internacional em 28 de março de 2026, no âmbito da I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que decorreu em Porto Alegre (Brasil) de 26 a 29 de março de 2026.


Tradução de Rui Viana Pereira.

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Se a esquerda se mantiver resignada a distribuir com maior justiça os resultados de uma economia governada por outros, chegará sempre demasiado tarde. A sua verdadeira missão não passa por administrar a ordem existente com mais compaixão, mas por disputar as instituições que decidem, muito antes da distribuição, quem possui,

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Sushovan Dhar

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