Jornal Maio

Fritz Platten, o homem que salvou Lenine

Sem Fritz Platten (1883-1942), a história mundial teria seguido um curso diferente. Este comunista suíço é hoje principalmente recordado como o organizador do “vagão blindado” em que Lenine e os seus camaradas atravessaram a Alemanha, permitindo-lhes participar na Revolução Russa. É provável que Platten tenha, pouco depois, salvado Lenine de uma tentativa de assassinato. Tal como muitos outros comunistas, Platten foi assassinado pelo estalinismo.

Nascido numa família da classe trabalhadora, Platten tornou-se politicamente activo ainda jovem. Aprendiz na empresa industrial Escher Wyss & Cie, organizou a que se diz ter sido a primeira greve de aprendizes. No Clube dos Socialistas Internacionais de Zurique, Platten conheceu camaradas da Letónia. Quando a revolução eclodiu no império czarista, em 1905, eles pediram-lhe que passasse de contrabando pistolas e material de propaganda para Riga. Platten ficou em Riga e, em Maio de 1907, foi detido durante uma rusga policial. Acusado de filiação no Partido Social-Democrata, ilegal, impendeu sobre ele uma pena de prisão de entre oito e vinte anos de trabalhos forçados. Após oito meses na prisão, adoeceu gravemente e foi libertado sob fiança. A fiança foi paga por Lina Hait, filha de uma família abastada. Os dois casaram-se algum tempo depois. Platten acabou por conseguir fugir da Letónia com a ajuda de marinheiros que o esconderam num barco com destino a Hamburgo. Em 1908, Platten, “o único socialista suíço que participou na primeira Revolução Russa”, regressou à Suíça1.

Regressado à Suíça, Platten assumiu várias funções dirigentes no movimento socialista e operário. Em 1912, os operários convocaram uma greve geral de 24 horas em Zurique em resposta a uma tentativa de proibição de piquetes. Alguém que participou na greve descreveu Platten, mais tarde, como “o nosso general”, que se deslocava de piquete em piquete no único táxi que ainda operava. Platten desempenhou, ainda, papel significativo na greve geral nacional de Novembro de 1918. O Partido Social-Democrata suíço tinha decidido comemorar o primeiro aniversário da Revolução de Outubro com comícios públicos e um manifesto. O manifesto, que se diz ter sido redigido por Platten, exortava a classe operária suíça a ocupar o seu lugar na nova Internacional, vir em socorro da Revolução de Outubro em perigo e livrar-se do seu próprio jugo.

A declaração fez que o município de Zurique solicitasse ao Exército que estacionasse tropas na cidade. Vários trabalhadores foram baleados quando o Exército dispersou uma manifestação. Uma publicação soviética de 1978 descrevia efusivamente como se dizia que Platten, “o dirigente operário que toda a gente em Zurique conhecia”, caminhara na direcção dos soldados, “desarmado, com a cabeça orgulhosamente erguida, enfrentando corajosamente o perigo” para convencê-los a cessar fogo. Ao fim de cinco dias, a greve geral foi suspensa. No I Congresso da Internacional Comunista, Platten atribuiu o fracasso do movimento à atitude vacilante da direcção da greve e à sua relutância em apelar à constituição da milícia operária. Platten foi condenado a oito meses de prisão pelo papel que desempenhara na greve. O último grande contributo de Platten para o movimento operário suíço foi participar na fundação do Partido Comunista Suíço.

Encontrando-se na Rússia na altura do julgamento, Platten apenas cumpriu a sua pena de prisão em 1920. Ao que parece, Lenine tentou ajudar Platten, pedindo a A. M. Lejava, o comissário do povo para o Comércio Externo, que o nomeasse representante comercial soviético, assim lhe concedendo imunidade, mas não foi bem-sucedido. Platten conhecia Lenine desde 1915 e das conferências de Zimmerwald e Kienthal. Embora não participassem oficialmente na reunião de Zimmerwald, os social-democratas suíços permitiram que membros seus participassem a título pessoal. Platten participou, assim, na conferência de Kienthal de 1916 como representante do partido suíço. Em ambos os casos, apoiou a esquerda revolucionária.

 

Platten puxou instintivamente a cabeça de Lenine para baixo, tendo uma bala roçado a sua mão, que estava nesse momento pousada na cabeça de Lenine.

 

Após a Revolução de Fevereiro, os exilados do Império Russo na Suíça organizaram o Comité Central para o Retorno dos Refugiados Políticos da Rússia na Suíça. Este comité representava 560 exilados de mais de 10 organizações diferentes, desde anarquistas ao grupo Nache Slovo, de Trotsky, passando por mencheviques, bolcheviques e o Poale Zion*. O Comité pediu a outro socialista suíço, Robert Grimm, que os ajudasse a organizar o retorno. Grimm, que era simpatizante da ala esquerda dos mencheviques, tentou obter autorização legal do Governo Provisório para o retorno dos exilados. Com o passar do tempo, Lenine e outros radicais começaram a ficar impacientes e a suspeitar que Grimm e os mencheviques estavam a atrasar deliberadamente o regresso. Os radicais pediram por isso a Platten que os ajudasse a organizar a travessia da Alemanha a “título pessoal”. Com a ajuda dos contactos de Karl Radek, que foi na viagem, ficou acordado com as autoridades alemãs que os exilados seriam autorizados a passar sem lhes serem pedidos os nomes e que “os que fizessem a travessia gozariam da protecção de extra-territorialidade, ninguém tendo o direito de entabular qualquer tipo de negociação com eles durante a viagem”2. Platten viajou com os exilados para garantir pessoalmente que estes cumpriam as condições impostas.

Após esta viagem, Platten regressaria várias vezes à Rússia. Em 1918, Platten e Lenine assistiram a um desfile do Exército Vermelho em Petrogrado. O carro em que ambos seguiam depois do desfile foi alvejado, numa tentativa de assassinato. O relatório da investigação refere que “Platten puxou instintivamente a cabeça de Lenine para baixo, tendo uma bala roçado a sua mão, que estava nesse momento pousada na cabeça de Lenine”.

Em 1923, Platten começou a trabalhar para a organização de ajuda humanitária de Willi Münzenberg, a Internationale Arbeiterhilfe (IAH, Socorro Operário Internacional). A IAH apoiou, designadamente, a modernização da agricultura soviética, tendo-se Platten tornado presidente de uma cooperativa agrícola em Nova Lava, composta por comunistas suíços que se tinham mudado para a União Soviética. Custou, no entanto, à cooperativa, destinada a demonstrar o potencial das técnicas modernas, mostrar-se produtiva nas condições adversas da região do Volga. No ano seguinte, o relato de Platten sobre a famosa viagem de comboio foi publicado na editora de Münzenberg, Neuer Deutscher Verlag, refutando as acusações de que Lenine e os outros bolcheviques tinham agido como “agentes” da Alemanha.

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No início dos anos 30, Platten viveu em Moscovo, onde trabalhou como tradutor, professor de línguas e investigador especializado do Instituto Agrário. Platten regressou brevemente à Suíça em 1931, naquela que viria a ser a sua última visita. Fez campanha pelos comunistas suíços, enaltecendo as alegadas conquistas da União Soviética em matéria de condições de vida, cuidados de saúde e educação. Era nessa altura sua companheira a comunista suíça Berthe Zimmermann (1902–1937), que trabalhava em Moscovo para o Departamento de Ligação Internacional da Internacional Comunista. Durante o terror estalinista, Zimmermann foi acusada de espionagem e morta. Platten recusou-se a denunciar a esposa e foi ele próprio detido, em Março de 1938. Foi condenado a quatro anos de trabalhos forçados.

Não é claro o pretexto exacto para a sua detenção. Um antigo aluno de Platten no Instituto de Línguas Estrangeiras escreveu mais tarde que o director do Instituto anunciou que Platten fora “desmascarado” como espião da Gestapo. Segundo outro relato, a acusação de espionagem foi afastada, tendo Platten sido condenado por “posse não autorizada de arma de fogo”: uma pistola do tempo da guerra civil que ele guardava como lembrança. Baseando-se no relato de outro prisioneiro, Roy Medvedev escreveu, em Let History Judge, que, de facto, Platten fora inicialmente acusado de ter sido espião alemão, e logo desde 1917. “Apesar da brutal tortura, ele recusou-se a assinar o depoimento, porque tal lançaria uma sombra sobre Lenine. Ele e o investigador chegaram ao seguinte acordo: ele confessaria ter feito espionagem para um país, mas não a Alemanha — os Estados Unidos ou a Argentina, a minha fonte não se recorda exactamente de qual”3.

Como estrangeiro e alguém com papel dirigente no movimento pré-revolucionário, Platten pertencia a diferentes grupos atingidos pelo terror estalinista com especial dureza. Independentemente disso, o seu destino estaria provavelmente selado porque, como presidente do Clube dos Comunistas Alemães de Moscovo, em 1928 Platten tinha manifestado apoio à Oposição de Esquerda, antes de o obrigarem a renunciar ao cargo.

Platten morreu em 22 de Abril de 1942 num campo de prisioneiros estalinista, em Nyandoma, no Noroeste da Rússia. A causa oficial do óbito foi “insuficiência cardíaca”, uma desculpa frequentemente usada. Anos mais tarde, disseram ao filho que o homem que tinha salvado a vida de Lenine, Fritz Platten, tinha sido fuzilado. Platten foi reabilitado em 1956, tendo uma rua de Nyandoma recebido o seu nome. A placa comemorativa descrevia-o como “amigo e companheiro de luta de Lenine”, mas sem mencionar como morrera.

 

Tradução: Adriano Zilhão

* NT: Grupo socialista sionista formado no império czarista depois de o Bund, principal organização operária judaica, ter rompido com o sionismo.

1 J.F. Anders, “Zur Biographie von Fritz Platten”, p. 135 em: Fritz Platten, Die Reise Lenins durch Deutschland im plombierten Wagen, Frankfurt am Main: ISP-Verlag, 1985. A narrativa que se segue baseia-se principalmente no esboço biográfico de Anders.

2 Karl Radek, “Through Germany in the Sealed Coach” (1924), online: marxists.org/archive/radek/1924/xx/train.htm.

3 Roy Medvedev, Let History Judge. The Origins and Consequences of Stalinism, Oxford: Oxford University Press, 1989, p. 514.

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