Jornal Maio

Guerra é terrorismo

Hoje, estão esgotados todos os argumentos morais e legalistas: a guerra como arma genérica do imperialismo é somente terrorismo, ilegal e ilegítimo, e cobarde, de quem não arrisca, os democráticos fascistas donos das big techs, e equivalentes, integrados no 1% do grande crime terrorista, organizado estatalmente.

Mário Tomé

Mário Tomé

Capitão de Abril

“Bardamerda para tal gente e um hurra aos cadáveres de todos os soldados perdidos, afinal todos nós!”

João Viegas, ex-alferes miliciano e ex-presidente do CITAC, in Os Soldados Perdidos

 

Prolegómenos

Em 1871 o Figaro aplaudiu com entusiasmo o massacre dos communards, logo acompanhado por Théophile Gautier, George Sand, Alphonse Daudet, Flaubert, Zola! À excepção de Courbet, Verlaine, Rimbaud e, moderadamente, Vítor Hugo, todos eles aplaudiram “a cura de Paris da gangrena mortal que a corrói desde há vinte anos (…). Hoje a clemência seria demência (…) Vamos gente honesta! Ajudai a acabar com a praga democrática e social!”

O massacre dos communards, na derrota da Comuna de Paris, como sublinhou o escritor Prosper-Olivier Lissagaray (História da Comuna de 1871), “não foi um momento de loucura de um punhado de reacionários filhos da própria Revolução Francesa. Pelo contrário, foi uma daquelas “horas da verdade” da luta de classes, quando vem ao de cima o ódio latente dos que permanentemente vigiam, com um misto de desprezo e receio, aqueles sobre cuja desgraça constroem os seus privilégios”.

Tratou-se de puro e refinado terrorismo burguês, apoiado até por alguma gente ilustre das artes, que evoluiu consistentemente acompanhando o progresso técnico-científico.  

O terrorismo sempre foi uma forma de impor o domínio e, tecnicamente, uma arma utilizada nas confrontações armadas. Mas o epíteto ficou reservado pela civilização colonialista, imperialista e genocida, para as ações militares de defesa da dignidade dos povos e da sua autodeterminação no confronto com o poder do agressor.

Hoje, deixou de ser simplesmente uma arma para passar a ser o modus operandi. O que define o carácter moral ou imoral do terrorismo – sempre brutal – é a causa. O terrorismo nas lutas de libertação colonial foi e ainda é a única arma, para além da força do povo, mesmo que desarmado, de que dispõem e é uma arma moralmente legítima. O terrorismo do Hamas contra o ocupante, Israel, é moralmente legítimo, mais ainda quando se trata de combater colonos que praticam com entusiasmo todos os crimes terroristas contra a humanidade. O terrorismo da OLP, nomeadamente o atentado nos Jogos Olímpicos de Munique, em 5 de setembro de 1972, foi uma legítima ação armada em apoio da luta popular que se manifestou nas intifadas. A própria ONU não encontrou argumentos sólidos contra; pela mesma razão, as ações do Hamas e do Hezbollah são terrorismo integrado numa luta de libertação nacional, legítima.

O terrorismo dos EUA e de Israel é moralmente hediondo, só tolerado por equivalentes assassinos de voz meiga como os que mandam na UE. 

Hoje, estão esgotados todos os argumentos morais e legalistas: a guerra como arma genérica do imperialismo é somente terrorismo, ilegal e ilegítimo, e cobarde, de quem não arrisca, os democráticos fascistas donos das big techs, e equivalentes, integrados no 1% do grande crime terrorista, organizado estatalmente. 

APOIA O MAIO!

Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Indo à nossa história: no início da luta de libertação de Angola em 1961, o terrorismo da UPA sobrevem como resposta ao terrorismo institucional do colonialista português, durante anos e anos de dominação cruel e sem quartel. 

Aliás, é tempo de deixar de confinar o terror colonialista português ao fascismo, já que o terrorismo é arma própria do colonialismo em si. O grande Lobo Antunes, no seu romance O Esplendor de Portugal, mostra como o terrorismo sobre o povo colonizado era também uso do fazendeiro cheio de ternura: casava com a preta, lá no mato, e mandava enforcar o irmão.

Antes do levantamento armado dos povos das colónias, o colonizador, o ocupante, usava o massacre como arma terrorista: os massacres de Batepá em São Tomé, da Baixa do Cassanje em Angola, de Pidjiguiti na Guiné, de Mueda em Moçambique, estes os mais conhecidos. 

Durante a guerra, o massacre terrorista colonial, embora não sistemático, serviu as orientações gerais de combate aos guerrilheiros e populações sob sua influência. Inhaminga e Wiriyamu são dois exemplos extremos da bestialidade a que pôde chegar o poder colonialista: em Wiriyamu usando os soldados como instrumentos ignaros e politicamente “inocentes”; em Inhaminga como terrorismo organizado pela PIDE com a neutralidade ativa do Exército que tinha obrigação operacional e moral de se opor violentamente à chacina persistente de cerca de 3500 pessoas durante vários meses, só interrompida pelo 25 de Abril. Terrorismo às escâncaras, apoiado ou tolerado pela população dos colonos.

 

O terrorismo dos EUA e de Israel é moralmente hediondo, só tolerado por equivalentes assassinos de voz meiga como os que mandam na UE.

 

O terrorismo organizado e sistemático era obra da PIDE sobre as populações, em ações normalmente relacionadas com o arrebanhar de mão de obra forçada, na procura de informações, e sobre os prisioneiros de guerra que lhe eram entregues.

Na minha segunda comissão, no Niassa, em Moçambique, não me esqueço do Damião, feito prisioneiro de guerra numa ação comandada pelo alferes Carlos de Matos Gomes, que estagiava na minha companhia, o magnífico autor de Nó Cego, de muitos outros romances e finalmente de duas obras, ne variatur,  sobre a nossa revolução, Geração D e Otelo, o Herético

Damião era um quadro importante da Frelimo e fi-lo seguir para o comando de sector. Passado um tempo vim a saber, em conversa com oficiais do sector, que o prisioneiro de guerra Damião fora entregue à PIDE e nesse contexto fora assassinado pelo “método do avião”, ou porque resistiu heroicamente às torturas ou simplesmente porque deixou de interessar.

Os militares sabiam os métodos da PIDE, mas “longe da vista, longe do coração”. 

Claro que isto foi antes do 25 de Abril, em que o poder fascista combatia com terrorismo a luta pela liberdade: a liberdade do povo português e a dos povos das colónias.

Agora e por enquanto – cautela e caldos de galinha! – contentam-se as nossas instituições democráticas novembristas em apoiar ativamente – Base das Lages para atacar o Irão – ou, cumplicemente, os genocidas e terroristas amigos: EUA, com ou sem Trump, e Israel, com ou sem Netanyahu. 

 

Nota final

A recente publicação, pelo Estado de Israel, da fotografia de personalidades conhecidas pela sua luta contra o genocídio como sendo antissemitas deve alertar-nos para a possível perpetração de crimes abomináveis, como vai sendo sua prática. 

Quero saber mais sobre: