Jornal Maio

Nas cordas da lira de Joaquim Moreira da Silva, o poeta carpinteiro

Quando, em 1981, professora de alfabetização de adultos, cheguei à aldeia de Vilar (Vila do Conde), levava muitos sonhos e curiosidade de descobrir mais sobre Joaquim Moreira da Silva (JMS), um poeta (falecido 20 anos antes) que descobrira em Poetas Populares (II vol.), de Fernando Cardoso. A vida e obra de JMS foram um dos primeiros temas do curso, dada a entusiástica recetividade do meu grupo de adultos a essa ideia. A minha pesquisa foi, assim, iniciada com a sua colaboração.

Nascido em Vilar, onde viveu e morreu (15/03/1886-12/12/1960), JMS, filho de uma numerosa família pobre, viu-se obrigado a trabalhar nos campos desde os oito anos, sem poder frequentar a escola. Num acidente com uma foicinha, cegou de um olho.

A ida para o Porto aos 18 anos como aprendiz de carpinteiro foi transformadora na sua vida. Pôde frequentar uma escola noturna após o dia de trabalho, ganhando acesso a um poderoso instrumento de compreensão e intervenção sobre o mundo: a leitura e a escrita. A subsequente leitura de obras de “grandes sábios”1 e o contacto com o mundo operário e sindical levaram-no a tornar-se anarquista, anticlerical e um abnegado e coerente lutador pela justiça. Do seu ofício de carpinteiro nasceria o apodo de poeta carpinteiro.

A obra poética de JMS foi-se construindo desde muito cedo quando, ainda analfabeto, “cantava ao desafio” com “as alegres ceifeiras”2. Foi, no entanto, depois de alfabetizado que pôde passar a escrito os seus poemas e alargar o seu público, a quem fazia chegar os folhetos e folhas volantes em que os publicava. Foi assim que consegui recolher mais de 150 poemas, uma obra de notável valor literário. Com as formas da poesia tradicional popular portuguesa e temas ao gosto popular, frequentemente de inspiração rural, entrecruzam-se temáticas de carácter político e marcas de cultura urbana e erudita.

Os relatos que ouvi traçam a integridade do carácter de JMS, poeta talentoso e apreciado pelo povo, sempre ativo na denúncia de injustiças e dos poderosos, fosse através da sua poesia ou das lutas que liderava. Para evidenciar a coerência e a complexidade da sua personalidade, apresentarei algumas das suas facetas, ilustrando-as com histórias que recolhi e com excertos de poemas.

 

Lutador pela justiça

Quantas revindicações
Gozam hoje os proletários
À custa do meu suor
E de sacrifícios vários!
Pròs conquistar eu meti-me
Em perigos extraordinários.3

Quando no tempo da fome
Durante a guerra europeia,
Cheguei a assaltar as tulhas
Pra distribuir na aldeia,
Pelos pobres que não tinham
Almoço, jantar nem ceia!4

Das minhas ações e obras,
Pra mim a maior vantagem,
É ter sido um moralista,
Ter audácia e ter coragem;
Marcando bem sem desdouro
No mundo a minha passagem.5

 

O espírito justo, coerente, altruísta, destemido e revolucionário de JMS foi-me testemunhado por quem o havia conhecido. Dele se continuavam a contar histórias como a da luta contra a fome no final da I Guerra Mundial ou a dos pasquins (poemas de mordaz crítica social), em que dava voz aos mais desprotegidos, denunciando os poderosos. Quando me contavam de alguma injustiça ocorrida em Vilar, os meus alunos acrescentavam: “Ai se o Moreira fosse vivo! Deitava-lhe um pasquim!”

 

Ligação à comunidade

Em tempos de reação
E de pontapé na bola,
Com livros feitos por mim
Organizei uma escola,
Pra instruir e dar combate
À quadrilha de Loiola.6

 

A forte ligação à comunidade de JMS, patente nas lutas em que participou ou organizou no Porto e Vilar, nos muitos pasquins que escreveu e no hino que fez para a associação cultural da sua terra, evidenciou-se também na sua atividade de alfabetizador dos seus conterrâneos após as horas de trabalho.

 

Poeta proletário

Mas a todos os canalhas,
Pulhastras, pulhas, poltrões;
Eu com a minha caneta,
Afrontei perseguições
E fui-lhes rasgando a máscara
Diante das multidões.

Com minha lavoura preta
Feita nesta agra branca
Levaram coças tremendas…
Que isto franquezinha franca,
Sovas da minha caneta
Doem mais que as duma tranca!7

 

JMS tinha consciência do poder da poesia como instrumento de luta. E, não obstante a sua obra não se esgotar nesta dimensão e valer muito para além dela, era como “proletário e poeta”8 anarquista que se definia.

 

Nas cordas da minha lira
Que vibram de noite e de dia
Canta-se o amor e o ódio
Canta-se a dor e a alegria
Desde os horrores da opressão
Às belezas da anarquia.9

 

Nota final

Decorrem este ano as Comemorações do 140.º Aniversário do Nascimento de Joaquim Moreira da Silva, cujo programa pode ser consultado na Agenda de Vila do Conde.

A sua obra está disponível numa antologia editada em 2024 pela Opera Omnia, A Lira Dileta e A Lira da Rebeldia.

1 De A Minha Vida, in A Lira Dileta e A Lira da Rebeldia (p. 368).

2 Idem (p. 367).

3 Idem (p. 369).

4 Idem (p. 370).

5 Idem (p. 372).

6 In manuscrito do autor.

7 De A Minha Vida, in A Lira Dileta e A Lira da Rebeldia (p. 371).

8 Idem (p. 374)

9 De “Sempre em prol da anarquia”, in A Lira Dileta e A Lira da Rebeldia (p. 555)

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