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Sorel e o direito à greve geral

Sorel rejeitava a concepção da revolução como mera conquista do poder estatal, entendendo que tal conduziria apenas à substituição de elites no comando político. Para ele, o socialismo implicava a abolição do Estado e a transformação radical da sociedade.

A partir de meados do século XIX, os movimentos populares europeus empreenderam um esforço de unificação e reorganização do proletariado, procurando ultrapassar fragmentações profissionais e sindicais para se constituírem como classe social com objectivos comuns. Este processo deu origem a intensos debates internos, sobretudo no que dizia respeito às formas de luta e aos modelos de organização considerados mais eficazes para a transformação social.

É neste contexto que surgem os primeiros partidos sociais-democratas europeus, profundamente marcados pela doutrina marxista, aos quais foi atribuída a tarefa de organizar politicamente as massas trabalhadoras e de lhes incutir uma consciência de classe. Nos debates da Segunda Internacional (Socialista), durante a década de 1890, reafirmou-se a centralidade do partido como instância dirigente do movimento operário, defendendo-se que a acção socialista deveria ser prioritariamente política e parlamentar. Esta posição levou à exclusão das correntes anarquistas e sindicalistas, tradicionalmente desconfiadas da política institucional e defensoras da acção directa das massas, em particular da greve geral.

Embora a greve geral tivesse sido experimentada desde a década de 1840 pelo proletariado parisiense e reconhecida pela Primeira Internacional no Congresso de Bruxelas de 1868, os líderes sociais-democratas consideravam-na um instrumento excepcional, aplicável apenas em circunstâncias extremas. Argumentavam que a sua eficácia exigia um proletariado altamente educado, organizado e disciplinado, o que levou à rejeição da sua institucionalização nos congressos de Dresden, Bremen e Amesterdão, entre 1903 e 1904. Ainda assim, a revolução russa de 1905 voltou a colocá-la no centro do debate, sobretudo através de Rosa Luxemburgo, que acreditava no potencial revolucionário da acção espontânea das massas, desde que acompanhada por um intenso trabalho de educação política.

Paralelamente, em França, desenvolveu-se uma corrente de sindicalismo revolucionário que rejeitava a primazia do partido político e defendia os sindicatos como forma autêntica de organização proletária. Georges Sorel tornou-se uma das figuras centrais deste movimento, ao lado de autores como Lagardelle e Berth. Para estes pensadores, os sindicatos não deveriam funcionar como simples intermediários entre o partido e as massas, mas como protagonistas de uma acção directa capaz de paralisar o Estado burguês através da greve geral, impondo a revolução sem esperar pelo colapso económico do capitalismo.

Sorel rejeitava a concepção da revolução como mera conquista do poder estatal, entendendo que tal conduziria apenas à substituição de elites no comando político. Para ele, o socialismo implicava a abolição do Estado e a transformação radical da sociedade. A actividade parlamentar e as reformas legislativas eram vistas como factores de conformismo e desmobilização, responsáveis pela atenuação da luta de classes. Por essa razão, Sorel recusava a greve geral política subordinada a objectivos eleitorais, como a ampliação do sufrágio, defendendo antes uma greve geral revolucionária, capaz de libertar uma intensa energia social e de funcionar como motor de transformação histórica da luta de classes.

 

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A originalidade do pensamento de Sorel está intimamente ligada à sua crítica do determinismo e do racionalismo do marxismo ortodoxo. Influenciado pela filosofia de Bergson, valorizou os elementos irracionais, emocionais e imprevisíveis do processo histórico. Para Sorel, o marxismo não deveria ser entendido como ciência rigorosa da história, mas como uma ideologia mobilizadora, capaz de exercer uma profunda influência sobre o proletariado na sua auto-identificação como classe. Neste ponto, aproxima-se das teorias da psicologia das massas e reconhece o papel central das crenças, imagens e afectos na dinâmica da acção colectiva.

É neste quadro que surge o conceito de mito revolucionário, desenvolvido em Réflexions sur la Violence (1908). O mito não descreve uma sociedade futura ideal, nem corresponde a uma utopia racionalmente construída; trata-se antes de uma imagem mobilizadora que actua sobre o presente, orientando a prática colectiva e reforçando a coesão do grupo. A greve geral constitui, para Sorel, o mito, por excelência, do proletariado: uma representação capaz de condensar sentimentos de solidariedade, heroísmo e auto-sacrifício, mantendo viva a consciência militante e preparando a ruptura com a ordem existente.

A violência associada a este mito não se confunde com a violência jacobina nem com uma apologia da barbárie. A violência proletária defendida por Sorel possui uma função moral e educativa, sendo concebida como um acto de guerra que demarca claramente a divisão de classes. Dirigida contra o Estado e os capitalistas, procura preservar a autonomia do movimento operário e promover uma transformação ética da sociedade, fundada em valores como a dignidade, a grandeza e a autenticidade do trabalho.

É precisamente neste ponto que se pode estabelecer um diálogo fértil com Walter Benjamin. No ensaio Para uma Crítica da Violência, Benjamin reconhece na violência revolucionária uma dimensão não instrumental, distinta tanto da violência jurídica quanto da violência mítica associada ao poder estatal. Embora não adopte integralmente o vocabulário soreliano, Benjamin aproxima-se da ideia de uma violência que interrompe a continuidade da ordem histórica vigente e abre a possibilidade de um novo tempo, libertando a acção revolucionária da lógica dos meios e dos fins. Ao contrário de leituras que associam Sorel ao autoritarismo, Benjamin identifica na sua concepção de greve geral proletária uma forma de violência “pura”, capaz de suspender o direito e de desactivar os mecanismos de dominação do Estado moderno.

 

Toda a emancipação exige não apenas organização e estratégia, mas também imaginação, risco e coragem histórica.

 

Também em Gramsci se encontram ressonâncias importantes do pensamento soreliano, ainda que mediadas por uma reelaboração crítica. Gramsci reconhece em Sorel a importância do elemento simbólico, da vontade colectiva e da mobilização moral das massas. A noção de mito revolucionário contribui, indirectamente, para a sua reflexão sobre a hegemonia, entendida como articulação entre coerção e consenso, razão e afecto, estrutura e superestrutura. Contudo, Gramsci distancia-se da espontaneidade soreliana, atribuindo ao partido um papel central na organização da vontade colectiva e na construção de uma direcção política duradoura. Se Sorel confia sobretudo na energia ética da acção directa, Gramsci procura integrá-la num projecto político mais amplo, capaz de disputar o poder cultural e institucional.

Apesar das controvérsias que envolveram o pensamento de Sorel — nomeadamente a sua posterior associação ao autoritarismo e ao fascismo, em parte decorrente da apropriação selectiva das suas ideias por correntes nacional-sindicalistas, a sua obra exerceu influência decisiva em vertentes heterodoxas do marxismo europeu. As tentativas de reduzi-lo a um precursor do totalitarismo ignoram a complexidade do seu projecto teórico, que permanece centrado na emancipação moral das massas, na crítica do reformismo e na confiança na capacidade autónoma da acção proletária para transformar a história.

Em última instância, a reflexão de Sorel sobre a greve geral desloca o problema da revolução do plano estritamente institucional para o domínio da ética, da imaginação política e da experiência histórica vivida. Ao conceber a greve geral como mito mobilizador, Sorel afirma que nenhuma transformação radical pode ocorrer sem a emergência de uma vontade colectiva capaz de romper com o tempo homogéneo do progresso. É nesse ponto que o seu pensamento permanece central: ao insistir na força criadora das massas, na dimensão moral da acção e na centralidade do conflito, Sorel antecipa questões que atravessam o marxismo do século XX — de Benjamin a Gramsci — e continua a interpelar criticamente as formas contemporâneas de política, lembrando que toda a emancipação exige não apenas organização e estratégia, mas também imaginação, risco e coragem histórica.

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Maria João Cantinho

Maria João Cantinho

Professora e ensaísta. Membro do Grupo Praxis, do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa.