Jornal Maio

E se fôssemos honestos?

A civilidade dispensa rodeios, floreios e o uso de meias palavras. Ser direto, agir com rigor, ser sério, ter espinha dorsal, não lamber botas, a meu ver, em nada significa rompimento com o pacto de não agressão.

Com muita propriedade, alguém disse que a internet se tornou o faroeste da ignorância. A menção à internet, no entanto, não implica exclusividade. A internet é tão somente o meio pelo qual a ignorância é mais rapidamente disseminada, o que não é pouca coisa, na medida em que a proliferação de redes sociais tem suscitado bolhas de informações equivocadas, muitas vezes, falsas e maldosas, as quais são multiplicadas pelo maior fofoqueiro mundialmente existente, um sujeito de nome algoritmo. Esta multiplicação, por sua vez, funciona como estímulo à exposição de pensamentos antes não declarados nem no confessionário. 

Seria a ignorância, nos termos aqui enfocados, apenas ausência de conhecimento? Neste sentido, ignorância seria o oposto direto à civilidade? E, sendo assim, a grosseria instalada dever-se-ia ao desconhecimento das normas sociais de convivência? Eu tenho me perguntado se esta discussão não é perpassada pela honestidade ou pela falta dela.

Conduzida pela dúvida, atrevi-me a partilhar o que ora me ocorre sobre civilidade. Percebi que, nas muitas definições encontradas a esse respeito, há em comum a centralidade de conhecidas normas de convívio, orientadas pelo respeito mútuo. Eu destacaria a menor delas: “civilidade é um pacto de não agressão”.

Simples assim. Pois bem, exceto uma colega na universidade que, às gargalhadas, dizia: “É a minha maldade do dia”, nunca conheci outra pessoa que desconsiderasse as regras de civilidade propositadamente, porque isso lhe causasse prazer. E eu que pensava que o saber tornava as pessoas mais evoluídas. Mas, bem, se dentre tantas pessoas com quem convivi tenho apenas este exemplo, não estamos tão mal.

Por que, então, tanta manifestação de incivilidade?

Por pautar-se em fundamentalismos religiosos, por ter tido uma educação conservadora, por não ser capaz de impessoalizar a torcida pelo seu time ou pela sua opção política, até pelo tom como se opina, o pacto de não agressão tem sido quebrado com frequência, o que tende a gerar sérios problemas de relacionamento. Em muitos casos, a convivência torna-se impossível.

Bem, não há dúvida que a civilidade reduz conflitos, no trabalho, na família, nas relações sociais em geral. Mas eu diria que dentre as conquistas civilizatórias a maior delas se expressa nos direitos humanos, no respeito pela dignidade de todos. Convenhamos, se nos restringíssemos apenas a essa dimensão das conquistas civilizatórias, já se justificava a defesa de sua preservação e da progressiva continuidade. 

Ser civilizado, a meu ver, é, sobretudo, conceber as diferenças alheias, sem jamais atribuir a si mesmo o mérito do padrão a ser seguido. Essa pequenez, não rara entre sujeitos “civilizados”, é responsável pela destruição de muitas relações, inclusive na família, onde se costuma afirmar o amor incondicional. 

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Eu penso que, majoritariamente, preferimos viver entre pessoas e grupos que orientam as suas ações por regras de civilidade, muito embora, quando um tema qualquer nos opõe as conquistas civilizatórias sejam escasseadas. Não preciso, aqui e agora, lembrar de ações humanas que, ainda hoje, remontam à idade da pedra. Ações de autoritarismo, ações preconceituosas, ações desrespeitosas que revelam o pior do ser humano. Em outras palavras, ações que são entendidas como ausência de civilidade.

Se não me engano, foi o dramaturgo romano Terêncio, na antiguidade, que disse “Nada do que é humano me é estranho”. Esta afirmação continua atual e não distingue nacionalidade, escolaridade, condição social, sexo, religião, etc. A civilidade não cancelou a nossa porção perversa, só poliu, amainou, corrigiu o encaminhamento. A exemplo, continuamos assassinos. Matamos pais, filhos, amigos, amantes, principalmente. Quem não? Se você nunca cometeu um assassinato merece o reconhecimento papal e inscrição no catálogo oficial de santos.

Mas, calma lá! Enquanto ser civilizado eu mato e, a depender dos comportamentos pós-morte, eu ressuscito a vítima. Tenho a meu favor, o fato de não ser cristã. Portanto, mato sem sofrer o que para os cristãos constitui um pecado. Com isso, não estou desrespeitando o pacto de não agressão. Apenas uso a porção instintiva e a capacidade imaginativa para organizar um ato mental que me permite reencontrar a minha alegria. Sim, confesso que os detalhes sórdidos do suposto funeral me devolvem o riso. E também o bom senso.

 

Enquanto ser civilizado eu mato e, a depender dos comportamentos pós-morte, eu ressuscito a vítima.

 

Com este preâmbulo, eu gostaria de fazer o advogado do diabo, para desmascarar outros comportamentos atuais, que não estão na esfera da ofensa, da difamação ou da agressão, mas são igualmente questionáveis. Também na internet, afloraram as declarações de amor, os elogios exagerados e a constante dissimulação. De repente, todos(as) são lindos(as), maravilhosos(as), excelentes no que fazem e no que deixam de fazer. Abusa-se dos adjetivos superlativos. O escritor Ariano Suassuna, ao criticar o uso banal do termo “genial”, disse: “Se eu gasto o adjetivo genial com o Chimbinha (guitarrista de uma antiga banda brasileira já extinta), o que é que sobra para eu dizer de Beethoven?” 

A civilidade requer desonestidade? 

Ser civilizado, a meu ver, não implica ausência de objetividade. A civilidade dispensa rodeios, floreios e o uso de meias palavras. Ser direto, agir com rigor, ser sério, ter espinha dorsal, não lamber botas, a meu ver, em nada significa rompimento com o pacto de não agressão. Contudo, há muita gente que não resiste à objetividade, preferindo a dissimulação, mesmo que esta seja eivada de mentiras.

Note-se, não estou reivindicando grosseria. Apenas insisto que ser civilizado não implica estar sempre de acordo com o outro. A discordância honesta pode ser fator de crescimento, lembrando que honestidade não é igual à incivilidade. Nessa perspectiva não se justifica a honestidade que nada constrói. Para ser breve, nem a civilidade pautada em mentiras, nem a verdade que agride e distancia.

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Maria Augusta Tavares​

Maria Augusta Tavares​

Investigadora do trabalho