Da distopia à utopia
A distopia pode ser uma chamada de atenção para futuros cenários sombrios, alheados e profundamente desumanizados. Porém, pode ter um lado positivo, isto é, pode traduzir-se num sinal de alerta ou transformar-se numa potencial crítica sociopolítica de tudo aquilo que não queremos viver.
João Areosa
Sociólogo do trabalho, professor e investigador
Apesar de sabermos que qualquer universo distópico se traduz num cenário imaginado de uma região, país ou sociedade, sabemos igualmente que ele representa o caos, a injustiça, a desigualdade, a opressão, o sofrimento, a tirania ou o totalitarismo. Nesse ambiente indesejável prevalecem o desamparo, a amargura, a angústia, o desespero, o autoritarismo, ou seja, é um sistema que restringe a liberdade, a autonomia e anula a subjetividade. A distopia pode funcionar como uma chamada de atenção para futuros cenários sombrios, alheados e profundamente desumanizados. As pessoas sentir-se-iam isoladas e sem capacidade para resistir, sem força para se opor. A distopia caracteriza-se, ainda, por possuir múltiplas formas de poder, dominação e controlo, as quais se manifestam, por vezes, de formas visíveis, outras vezes, por meios subtis. Em resumo, um universo distópico idealiza um mundo profundamente desigual, maléfico, doente, alienado e castrador. Porém, uma conjuntura distópica pode ter um lado positivo, isto é, pode traduzir-se num sinal de alerta ou transformar-se numa potencial crítica sociopolítica para tudo aquilo que não queremos vivenciar ou experienciar.
Por oposição, a utopia representa o inverso, isto é, traduz-se naquilo que seria uma sociedade ideal, perfeita, harmoniosa, justa e desejável. É um lugar em que predomina o bem-estar, a igualdade, a ausência de pobreza ou de miséria social, e materializa-se num sistema de governo benevolente (ou até mesmo na ausência dele, embora mantendo o funcionamento da sociedade de forma organizada, equitativa e pacífica). As sociedades utópicas caracterizam-se por promover: 1) a cooperação e o coletivismo (entre todos os membros da sociedade); 2) a elevação de valores éticos e morais (em que o respeito, o bem-estar social e a liberdade de expressão são, efetivamente, valorizados); 3) a educação, a ciência, as técnicas e a tecnologia (as quais são totalmente direcionadas para o bem-comum, isto é, são unicamente utilizadas para benefício de toda a humanidade e representam um património que intrinsecamente lhe pertence, fruto do conhecimento passado de geração em geração); 4) a harmonia social e ambiental (é obrigatório manter uma relação equilibrada do Homem com a natureza). Resumidamente, uma sociedade utópica é uma sociedade progressista, emancipatória e humanista. O termo original foi criado por Thomas More, no seu livro Utopia (1516), cujo significado é, literalmente, "lugar nenhum" (originário do grego ou = não, e topos = lugar), que nos remete para um ideal inalcançável. Metaforicamente, é como se caminhássemos para tentar alcançar o lugar mais distante na linha do horizonte (mas, simultaneamente, quando mais caminhamos, novos lugares vão surgindo no nosso campo de visão).
Na realidade, os dois conceitos, distopia e utopia, tal como já referido, remetem-nos para sociedades imaginárias. Porém, atualmente, estamos submersos em sociedades que parecem mais próximas de poderem ser consideradas distópicas do que utópicas. Um elemento-chave que ajuda a compreender este fenómeno é o facto de vivermos em sociedades-do-lucro-omnipresente-e-omnipotente. Nesta conjuntura, o Homem deixou de ser um fim em si mesmo (Kant teria rejeitado essa visão utilitarista e instrumental do ser humano) e esse lugar passou a ser ocupado pelo “deus lucro”. Porém, isso representa uma extraordinária (e inaceitável) inversão de valores sociais e morais.
Os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza.
É verdade que os problemas sociais, económicos, políticos e ambientais do mundo hodierno são complexos e estão profundamente interligados. Não raras vezes, estes tópicos são exacerbados pelo processo de globalização, incluindo todas as suas contradições. Um dos paradoxos mais evidentes na atualidade é pautado pela relação (desestruturante) entre capital e trabalho, embora vá muito além dela. A título ilustrativo, enumeramos alguns exemplos de problemas marcantes vividos no mundo contemporâneo, nomeadamente ao nível das desigualdades económicas e sociais: os dados atuais demonstram que os 10% mais ricos do mundo possuem cerca de 85% da riqueza global e o 1% mais rico possui quase 50% dessa mesma riqueza. As três maiores fortunas do mundo possuem um montante superior ao PIB de quase 60 países mais pobres. Isto significa que vivemos num mundo em que reina a injustiça social e se reproduz uma atroz assimetria na distribuição dos recursos produzidos, por via do trabalho, através da classe trabalhadora. Paralelamente, as últimas estimativas revelam que mais de 200 milhões de trabalhadores vivem na condição de pobreza extrema, ganhando o equivalente a, aproximadamente, 2 euros por dia. Sublinho que estamos a falar de trabalhadores, ou seja, alguém que trabalha, mas, ainda assim, não consegue sair da pobreza extrema. Apresento, como exemplo, um episódio real relatado por Vincent Gaulejac, na obra La société malade de la gestion, o qual indica que um empresário de uma multinacional recebeu 16,2 milhões de euros por ter tomado a decisão de encerrar 38 lojas dessa empresa e, consequentemente, enviado para o desemprego centenas de trabalhadores. Este montante, auferido devido a um único ato de gestão, representa o equivalente a mil anos de salário médio dos trabalhadores que foram demitidos. Surpreendentemente, o mesmo empresário, referiu que não se sentia bem pago para exercer aquela “tão dura profissão”. Vale a pena interrogarmo-nos: qual o valor que atribuímos ao trabalho para sustentar uma tão grande discrepância de rendimentos? Como podemos explicar e justificar esta insanidade, sem a apelidar como algo profundamente distópico?
Segundo os dados de um relatório recente da OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho. Também dados recentes indicam que o desemprego global se cifra em cerca de 210 milhões de trabalhadores desempregados. Isto representa uma verdadeira hecatombe social, política e económica. É igualmente pertinente referir que, ao nível global, as disparidades no acesso à educação, aos serviços de saúde, à habitação, à quantidade e qualidade da alimentação (fome e/ou má nutrição) e a empregos decentes são gritantes e evidentes. Por vezes, muitos destes aspetos têm como pano de fundo as diferentes formas de violência, cujo expoente máximo está normalmente associado aos conflitos armados, ou ainda a situações oriundas de crises ambientais e alterações climáticas.
Em relação a este último ponto, vale a pena ler o relatório da Oxfam International, publicado em outubro de 2025, cujo título é expressivo: “Saque Climático: como poucos poderosos estão a levar o planeta ao colapso.” Neste documento, é afirmado que o grupo dos 0,1% mais ricos do planeta polui, em apenas um dia, mais do que uma pessoa dos 50% mais pobres durante um ano inteiro. É também defendido que a crise climática é uma crise de desigualdade. Estes são alguns traços que nos levam a sugerir que o mundo atual está mais próximo da distopia do que da utopia.
Segundo a OIT, morrem, em cada ano, perto de 3 milhões de trabalhadores devido a acidentes de trabalho ou a doenças relacionados com o trabalho.
Agora, imaginem que num futuro próximo seria criado um parlamento global. Esse órgão político transnacional estava a discutir uma legislação que iria proibir todas as formas de exploração entre seres humanos. Anteriormente, já tinham sido dados passos significativos nesta direção, considerando que há uns anos os lucros das empresas (que maioritariamente iam para os bolsos dos acionistas ou proprietários) não poderiam agora ultrapassar a margem de 5% do lucro total. Uma parte dos restantes 95% dos lucros era distribuída, equitativamente, por todos os trabalhadores da empresa e, a outra parte, era alocada para o Estado Providência do respetivo país. Naturalmente que neste novo modelo não existia a possibilidade de rutura ou de falência da segurança social. O desemprego era igualmente proibido, visto que o trabalho que cada um executa representa aquilo que cada trabalhador pode oferecer ao bem comum. Ninguém é tido como “inútil”, porque a existência e a dignidade não estão associadas à capacidade de produzir. Uma sociedade de pleno emprego, deste ponto de vista, traduz-se no limite máximo da qualidade de vida dessa mesma sociedade. Porque a divisão social do trabalho é justa e equitativa. Claro que haveria pessoas que não trabalhavam (no sentido estrito do termo), não porque não quisessem, mas porque, efetivamente, não podiam! Imaginem também que o mesmo parlamento global fazia a promoção plena da paz mundial e proibia todo e qualquer tipo de guerra armada. A fome, a pobreza e a exclusão social eram igualmente proibidas.
Estes tópicos direcionam-nos para aquilo que hoje designaríamos como uma sociedade utópica. A eliminação das desigualdades tinha sido possível porque as populações tinham compreendido, verdadeiramente, o que tinha estado na base da sua génese (para isso evocamos as sábias palavras de Jean-Jaques Rousseau sobre a origem das desigualdades humanas): “O primeiro [Homem] que tendo cercado um terreno se lembrou de dizer “Isto é meu”, e encontrou pessoas bastante simples para acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado o género humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: “Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém!”
Para terminar, peço-lhe que recorra uma última vez à imaginação e faça a seguinte experiência mental: pense que está no cenário idealizado por John Rawls, desiganado por “véu da ignorância”, ou seja, não sabe antecipadamente qual será a posição social que lhe irá caber, quais serão as suas capacidades e aptidões naturais, qual será a sua identidade (em termos de género, etnia ou orientação sexual), nem quais serão as suas crenças religiosas, filosóficas ou até as metas de vida. Perante este contexto idealizado e ignorando totalmente as características em que seria colocado no mundo, caso tivesse de fazer uma escolha, escolheria viver numa sociedade distópica ou utópica?