Vinho de talha, património milenar
Com este texto de Eduardo M. Raposo, o Maio inaugura uma secção sobre Património.
(…) Toda a perspectiva progressista é compatível com aspectos conservadores da cultura que se pretende conservar. (…)
José Afonso
Pretendemos, através de algumas viagens ao Património, destacar aspectos patrimoniais especialmente no Sul mediterrânico e nomeadamente na região transtagana, traços identitários que possibilitam a autoestima das gentes e a coesão destas sociedades, em acelerado processo de desertificação. Estes territórios, que guardam a essência peculiar das terras e das gentes face à imposição imperialista da mercantilização anulando os valores identitários e impondo, por vezes através da turistificação, a mediania dos aspectos mais perversos da globalização, onde o entretenimento substitui a cultura. Este será o nosso modesto contributo para valorizar os nossos patrimónios, na defesa da liberdade e no aprofundamento da democracia – a forma mais eficaz de a defender.
Viagem às Talhas
A primeira viagem fazemo-la às Talhas, em busca do vinho de talha. Partimos de Almada, depois de um almoço apressado, pois era necessário aproveitar a tarde, e neste sábado invernoso escassas horas de sol restavam. O objetivo era Vila Alva, Cuba, e desta vez fizemos o percurso por Ferreira, onde nos esperava a Céu, que nos seguiu no seu velho jipe. À entrada de Peroguarda, recordámos Michel Giacometti, que escolheu a sua última morada no pequeno cemitério caiado de branco, onde há mais de uma década depositámos uma papoila na campa rasa – símbolo frágil e perene deste Alentejo milenar multicultural, deste fraterno corso. Depois da passarmos na Cuba (Cuba no Alentejo designa-se por na ou à Cuba) chegámos finalmente a Vila Alva, que divide com Vila de Frades a centralidade de capital do vinho de talha.
Ainda que o vinho no Alentejo remonte ao século VI a.C., foram os romanos que, no que concerne ao vinho, deixaram mais marcas na região.
Logo à chegada verificámos que a Adega do Cerejo estava encerrada. Depois de passarmos pelo lavadouro público, entrámos na Adega do Manuel Fernando, onde fomos recebidos pelo seu filho, o senhor José Francisco. Os comensais eram raros e sentámo-nos numa mesa junto à lareira. Seguindo o conselho do amigo José Roque, fomos preparados com uns petiscos e assámos logo uma linguiça com que nos “aconchegámos” numa degustação onde juntámos uns queijinhos de cabra, torresmos, com o imprescindível “panito” e umas alcagoitas, enquanto nos deliciávamos com um delicioso branco de talha – excepto a Zé Pinto, que provou um tinto, menos encorpado – e depois da segunda rodada fomos falar com o taberneiro.
José Francisco tem 64 anos e é filho de quem deu o nome à adega, Manuel Fernando, Recorda que tinha 16 anos, há cerca de meio século, portanto, quando o pai comprou a adega à família dos Abreu Abrantes, uma família rica da vila. Depois de um curto período, trabalhou como mecânico, mas aos 22 anos começou a dedicar-se a esta vida, como diz.
Manuel Fernando, que explora um café na vila, todos os anos deixa tudo e, entre Novembro e Março, passa os seus dias na adega que é conhecida pelo nome do seu pai.
“É uma forma de estar com os amigos”, diz, sorrindo, mas, agora com um ar mais sério, depois de referir que este período de quase meio ano é passado completamente dedicado ao vinho de talha, remata: “É mantermos a nossa cultura, a nossa identidade.”
Depois fala de outros tempos, há 60 ou 70 anos, em que todas as seis ou sete famílias ricas de Vila Alva produziam vinho de talha, tinham pelo menos quatro ou cinco talhas cada uma, sobretudo para autoconsumo. Termina referindo que actualmente existem dezenas de talhas que não estão a ser utilizadas, o que é corroborado por um seu amigo e cliente habitual, João Campeão, que se juntou à conversa.
O que é o vinho de talha
Ainda que o vinho no Alentejo remonte ao século VI a.C., foram os romanos que, no que concerne ao vinho, deixaram mais marcas na região, como refere o amigo Manuel Baiôa, nomeadamente “os dolias” (dolium ou talhas de grandes dimensões) para a fermentação e o armazenamento e as ânforas para o armazenamento e o transporte do vinho.”
O produtor e amigo João Canena, da Cuba, considerado o maior produtor de vinho de talha, é responsável por mais de 100 mil litros de vinho, onde a maior parte tem o certificado DOC Talha, e na actualidade reparte com a Adega Cooperativa de Vidigueira, Cuba e Alvito a visibilidade na divulgação de vinho de talha.
Todavia, é Vila Alva que parece manter a maior autenticidade na tradição do vinho de talha.
Está em curso uma candidatura do vinho de talha a Património da Humanidade, liderada pelo Município de Vidigueira, mas com a participação de outros 18 municípios alentejanos.
Eduardo M. Raposo é jornalista e dirigente associativo. Investigador integrado do CHAM-Centro de Humanidades – FCSH/UNL. O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.