Revolta

Os tempos estão a mudar?
categoria-internacional edicao-2026-10-29 (47) Guerra Austeridade Especulação imobiliária Revolta

Os tempos estão a mudar?

França, Alemanha, Espanha, Portugal, Itália, Bélgica, Albânia… Em todos os países, as mesmas causas: guerra, austeridade, especulação imobiliária; o futuro negado aos jovens. E o mesmo efeito: uma sublevação da juventude.

Adriano Zilhão
categoria-internacional edicao-2026-10-29 (47) Guerra Austeridade Especulação imobiliária Revolta

Os tempos estão a mudar?

Fotografia: Fred Murphy (CC BY-ND-NC 1.0

Em França, a proverbial gota de água foi… uma gota de água. Melhor: gotas de água aos fios e jorros a caírem pelas paredes e tectos de liceus degradados. Mais a falta de professores. E turmas de 36. E um anunciado serviço militar “voluntário” — a caminho, muito mal disfarçado, de virar obrigatório. E um orçamento de guerra. E cortes nos serviços públicos: a “austeridade” de Macron para quem trabalha e estuda.

Na Alemanha, o anunciado serviço militar “voluntário” — a caminho, muito mal disfarçado, de virar obrigatório. Mais o anúncio de fazer da Alemanha a maior potência militar da Europa. E a entrega do sistema de pensões aos “mercados”. E o anúncio de despedimentos em massa e cortes salariais na Volkswagen e na indústria em geral.

No Estado espanhol, o despejo de uma mulher de 87 anos da casa onde vivia há 71. Às mãos gélidas de anónimos fundos imobiliários. Mais a privação da juventude da perspectiva, horizonte ou direito a ter casa e trabalho com contratos e salários decentes.

Em Itália: orçamento de guerra e austeridade de Meloni. E a implacável destruição da escola pública. 

Na Bélgica, o governo que prepara um orçamento de austeridade com cortes drásticos nos serviços públicos. E a “reforma” do sistema de pensões.

Em Portugal, já se sabe: a furibunda repressão policial dos jovens a mando de um governo ao serviço da especulação imobiliária, que priva ostensivamente a juventude do direito constitucional a ter casa.

Em todos os países, as mesmas causas: guerra, austeridade, especulação imobiliária; o futuro negado aos jovens.

Porquê tal convergência, perguntar-se-á.

Tanto quiseram as classes dominantes dos imperialismos europeus eliminar a “ameaça” da rua, tanto quiseram desfazer-se da limitada, mas por vezes incómoda, democracia eleitoral, tanto quiseram centralizar todas as decisões importantes em Bruxelas e Frankfurt, nesse opaco exército de burocratas não eleitos e imunes a eleições e à “rua”, que agora se veem, todos eles, a braços com a sublevação quase simultânea, na rua, dos jovens e dos trabalhadores de todos os países.

Sob a pressão maciça do grande patrão de Washington, necessitado de passar os custos das suas guerras para cima dos vassalos menores, Bruxelas e Frankfurt espalharam ordens, as mesmas para todo o lado: guerra e austeridade. Diz-nos a física que as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias, produzem os mesmos efeitos.

França

Quem procurar, na televisão portuguesa, notícias de França, vê violência, pilhagens e confrontos. No entanto, a realidade, por duas vezes em poucos dias, foram 800 mil manifestantes a desfilar, combativa, mas pacificamente, por dezenas de cidades francesas: estudantes liceais e universitários, bombeiros, trabalhadores, funcionários, professores. Uma realidade que levou o respeitável presidente socialista da Câmara de Marselha a acusar o governo de permitir deliberadamente a explosão da violência. E um anódino jornal de programação de TV, Télérama, a interrogar-se se as cadeias estatais encenavam imagens de violência em cadeia para não mostrar as manifestações…

Violência? Sim. Um aluno do ensino secundário teve uma mão arrancada pela polícia, outro um olho perdido para uma bala de borracha, um terceiro, a mandíbula fracturada. 

A dimensão da repressão policial contra os movimentos da juventude é inédita”, denunciou a Liga dos Direitos do Homem no dia 15 de Outubro.

Os correspondentes estrangeiros notam que a juventude francesa se revolta — e que a violência policial atiça o conflito: “A França tem um problema de violência – que começa pela polícia” (Der Spiegel). O correspondente do britânico Guardian notava que, ao chegar à Praça da República, em Paris, no dia 17 de Outubro, “o ambiente era festivo, mas depois a polícia começou a lançar granadas de gás lacrimogéneo (...). Não vi o incidente que desencadeou tudo – se é que o houve (…). O método de gestão de multidões adoptado pelas autoridades desde que começou o dia deu o tom; rapidamente semeou o caos por toda a cidade de Paris”. La Repubblica nota que “os Black Blocs monopolizaram a atenção”, funcionando os provocadores como “idiotas úteis da direita”. Mesmo jornais de regimes autoritários, como o argelino, ironizaram: um governo “que se diverte a dar lições de liberdade ao resto do planeta e se esquece de varrer à porta de casa” (L’Expression).

“A dimensão da repressão policial contra os movimentos da juventude é inédita”, denunciou a Liga dos Direitos do Homem no dia 15 de Outubro. Nada menos que 7950 pessoas tinham sido detidas, segundo o Ministério da Justiça. Isto, antes das grandes manifestações de 17 de Outubro! 85% dos detidos eram menores de idade. 

Uma coisa é certa: no terreno da repressão, Montenegro decidiu dar luta a Macron. Acontece que a violência de Macron é a violência de um regime na agonia. A violência de Montenegro… mesmas causas, mesmas consequências.

Itália

No dia 16 de Outubro, às dezenas de milhar, jovens liceais e universitários manifestaram-se em toda a Itália contra a guerra e contra a degradação das escolas, pela escola pública e contra o racismo acirrado pelo governo. O diário La Stampa regista 400 mil participantes entre Turim, Bolonha, Roma, Milão, Cagliari, Nápoles. No dia anterior, haviam ocupado dezenas de estabelecimentos de ensino. Enquanto os estudantes saíam à rua, no Sul do país agricultores e camionistas mobilizavam-se contra a subida dos preços, cortando estradas e o trânsito durante cinco dias. E os operários das siderurgias de Génova e Taranto entraram em greve contra a redução da produção e o layoff.

No dia 17, uma manifestação convocada pela maior confederação sindical, a CGIL, juntou cem mil manifestantes em Roma. Anuncia-se uma greve geral para o dia 20 de Novembro.

Espanha

O anúncio da morte de Maricarmen Abascal, a mulher de 87 anos despejada de sua casa em Madrid por um fundo imobiliário, provocou raiva e dor por todo o Estado espanhol, sentimentos que logo se transformaram em mobilização. Uma multidão de manifestantes invadiu as ruas no dia 8 de Outubro para lhe prestar homenagem. Seguiram-se marchas por todo o Estado. “Não morreu, assassinaram-na!”, “Habitação pública, rendas acessíveis, não aos despejos!”, “Aumento dos salários!”, “Maricarmen abriu-nos o caminho, continuamos o combate!”, eram as palavras de ordem dos manifestantes, que clamaram também pela greve geral. Apesar do frio, multiplicaram-se acampamentos de resistência pela habitação. 

O governo Sánchez acabou por ir à gaveta buscar dois projectos de lei com medidas tímidas a favor dos inquilinos — sem tocar no essencial: a propriedade privada de 90% do parque habitacional, nas mãos dos bancos e das empresas de especulação imobiliária. 

A timidez dos projectos de lei de Sánchez não impediu a sua rejeição pela maioria do Congresso, com o partido burguês catalanista Junts a juntar-se, para o efeito, à direita e extrema-direita neo-franquistas. O governo convocou eleições antecipadas para 29 de Novembro. 

Os sindicatos de inquilinas e as associações de defesa da habitação apelaram aos sindicatos para que lançassem a greve geral. As centrais UGT e CCOO – assim como outras, como a ELA e a LAB no País Basco – convocaram-na efectivamente, para 11 de Novembro, dois dias antes do início da campanha eleitoral. 

Entre manifestantes e sindicalistas, muitos tinham o sentimento de que uma greve geral de um dia, daí a um mês, não respondia à situação. “Não basta votar de quatro em quatro anos; se não nos mobilizarmos, continuaremos a perder os nossos direitos”, diziam muitos. 

Alemanha

Depois de meses de mobilizações de jovens do ensino secundário contra a reintrodução disfarçada do serviço militar, novos e maiores protestos se anunciam para o dia 31 de Outubro, em muitas cidades alemãs, contra o serviço militar, a política de austeridade e o mau estado das escolas, apontando o exemplo da juventude francesa. Também na Suíça está prevista para Novembro uma greve da juventude.

*/Banner Maio*/

Aos protestos da juventude junta-se o anúncio de grandes conflitos de classe. A destruição de empregos industriais atingiu um ritmo de 15 mil por mês. Na Volkswagen, maior construtor mundial de automóveis, depois do anúncio de um corte de cem mil dos 660 mil postos de trabalho nos próximos anos, vazou para o domínio público, em meados de Outubro, um documento interno de estratégia que prevê o congelamento total dos salários no grupo, à escala mundial, até 2030 — na Alemanha, equivalente a uma redução do salário real de, pelo menos, 10%. A VW denunciou, entretanto, todos os contratos colectivos e acordos de empresa no país e anunciou uma “reorientação” da contratação. Novas negociações colectivas iniciam-se em finais de Novembro. A direcção do sindicato metalúrgico IG Metall manifestou a sua total oposição. Os acontecimentos mostram outra coisa: que cedências graves (o IG Metall aceitara um plano de redução de 50 mil empregos e de contenção salarial nos próximos anos) servem apenas para encorajar o patronato a ir mais longe.

Na Albânia, a juventude revolta-se contra o regime corrupto de Rama, que vende favores ao genro de Trump e é mera correia de transmissão das ordens de Bruxelas “com vista à adesão”. Na Sérvia, a revolta da juventude derrubou o presidente e primeiro-ministro Vučić. Na Bélgica, prepara-se uma greve geral contra o orçamento de austeridade…

Capitalismo e imperialismo, sinónimos de guerra e miséria, são a causa comum. A revolta e a revolução, o efeito comum.

Os tempos estão a mudar. 

Os tempos estão a mudar?
Os tempos estão a mudar?
categoria-internacional edicao-2026-10-29 (47) Guerra Austeridade Especulação imobiliária Revolta

Os tempos estão a mudar?

França, Alemanha, Espanha, Portugal, Itália, Bélgica, Albânia… Em todos os países, as mesmas causas: guerra, austeridade, especulação imobiliária; o futuro negado aos jovens. E o mesmo efeito: uma sublevação da juventude.

Adriano Zilhão

SUBSCREVE O MAIO

E recebe a nossa newsletter todas as semanas gratuitamente.