Racismo

O racismo é incompatível com os valores cristãos Pe. José Luís Rodrigues
categoria-opinião Igreja Racismo Valores cristãos edicao-2026-03-05 (18)

O racismo é incompatível com os valores cristãos

Todos os seres humanos devem humanizar-se cada vez mais, mas o cristão está desafiado pela fonte onde bebe o seu crer a ainda mais se humanizar e lutar pela dignificação de qualquer pessoa, em qualquer lado.

Pe. José Luís Rodrigues
A lógica da guerra infinita como estratégia de governo
categoria-internacional Acumulação Primitiva Guerra Imperialismo Palestina Racismo Reprodução Social edicao-2025-11-06 (03)

A lógica da guerra infinita como estratégia de governo

Entender as dinâmicas de opressão e trabalho reprodutivo que se conjugam em Gaza é compreender as estruturas que naturalizam a utilização de artifícios imperialistas de governo...

Marcela Uchôa
categoria-opinião Igreja Racismo Valores cristãos edicao-2026-03-05 (18)

O racismo é incompatível com os valores cristãos

Todos os seres humanos devem humanizar-se cada vez mais, mas o cristão está desafiado pela fonte onde bebe o seu crer a ainda mais se humanizar e lutar pela dignificação de qualquer pessoa, em qualquer lado.

Não será de todo inverosímil que uma parte da hierarquia da Igreja Católica não goste de imigrantes. Só por medo e vergonha não anda nas paragonas dos meios de comunicação social a apregoar essa má vontade contra estes mais frágeis, que se abeiram do nosso país para sobreviver, fugir da miséria e da violência, e aqui se ocupam das tarefas que os nossos estão a deixar vagas, porque muitos se qualificaram – e bem! –, não estando disponíveis para exercer funções que não correspondam ao grau das suas qualificações. Por isso, emigram para se colocarem em postos de trabalho por esse mundo fora onde se sentem valorizados, pagos à medida da sua formação e competências.

Nada disto é condenável, e a meu ver, até soa a um certo orgulho do país que somos e da capacidade que temos para preparar homens e mulheres para estarem em postos cimeiros em qualquer instituição e empresa deste mundo.

O preenchimento da lacuna que este bem faz emergir tem suscitado muita polémica, alguma repulsa pelo que é diferente, muita mentira sobre segurança, sobre subsídios da Segurança Social, sobre o fim dos valores cristãos para dar lugar a uma outra religião dominadora, que supomos ser sempre o islamismo. Tudo isto soa a delírio e vem pôr em causa todas as tentativas de aproximação e diálogo entre povos e religiões levadas a cabo pelos últimos papas, Francisco, Bento XVI e João Paulo II.

Não é de estranhar que alguma hierarquia católica ande sobressaltada e animada com ideias que roçam o racismo, a intolerância e o ódio contra gente trabalhadora e empenhada apenas em sobreviver, isto é, que almeja viver condignamente como qualquer ser humano deseja.

Não nego que uma ou outra figura isolada se tem manifestado publicamente contra todas as formas de recusa dos imigrantes, alguns até invocam o Evangelho e a hospitalidade cristã para sustentar o seu pensamento. Notamos que tais posições são isoladas e, muitas vezes, perdem-se no emaranhado de informação que nos chega em catadupa a todo o momento.

Pouco se nota de posições mais vincadas e determinadas das estruturas do poder religioso em Portugal, que ofereceriam à opinião pública uma clareza geral da Igreja Católica empenhada em repudiar tudo o que tem vindo a lume de alguns crentes que semeiam o ódio e o desprezo por outros seres humanos.

Tudo isto se vai percebendo porque salta-nos à vista uma série de gente dita católica e outros que assumem a sua prática religiosa regular, defendendo que é possível assumir uma ação dualista. Para eles a fé pode ir por um lado e a política por outro, de forma totalmente oposta.

Mas consideremos o seguinte: acreditar ou não acreditar são, constitutivamente, ações políticas. Se o não crente não cede nas suas convicções, o cristão crente especialmente não pode compartimentar as suas ações. É 24 horas cristão e político. Aquele que se reconhece cristão católico, e ainda mais se confessa e assume publicamente a sua prática religiosa, se for honesto, a sua crença deve iluminar tudo. O mesmo se deve dizer ao não crente que seja 24 horas político e por nada tenha que renunciar às suas convicções não religiosas. É injustificável que alguma vez abdique delas porque essa ação lhe oferece benefícios eleitorais ou pessoais.

É lamentável que muito do clero católico se posicione ao lado desta dualidade e que sejam pregadores que incentivam tal dicotomia de ações.

Tudo isto resulta porque na Igreja Católica cabem todas as diferenças e a pluralidade é um bem inegociável. No entanto, não deveria esta diversidade esconder quais são os valores fundamentais que servem de iluminação a todo aquele que se assume como cristão.

Todos os seres humanos devem humanizar-se cada vez mais, mas o cristão está desafiado pela fonte onde bebe o seu crer, a ainda mais se humanizar e lutar pela dignificação de qualquer pessoa em qualquer lado.

O cristão crente assenta a sua fé em Deus, segue Jesus crucificado e Cristo ressuscitado, que lhe oferece valores fundamentais confirmados pelo Evangelho cristão, pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, pela educação harmoniosa da família e pela formação intelectual do humanismo ocidental, que todos nós aceitamos como avanço civilizacional essencial para a paz e a convivência universal.

O cristão não pode (…) ser conivente com estruturas e práticas de exploração económica, de opressão política, de dominação ideológica, de marginalização e discriminação.

Os valores essenciais cristãos/humanos de que se fala, que não se divorciam da racionalidade científica e do contexto sociopolítico, são os seguintes:

  1. O da caridade e solidariedade para com os pobres, os oprimidos e os mais frágeis e indefesos que a lógica cruel deste mundo impõe todos os dias, fazendo tantas vítimas inocentes.
  2. O amor sem condições por toda a pessoa humana, seja lá quem for e venha de onde vier, com religião ou sem ela. É o bem de toda a pessoa (incluindo até os inimigos) que deve guiar o crente.
  3. Outro domínio de orientação do crente é o da luta pela justiça, sem descurar o olhar profético, de onde toma a coragem para denunciar as injustiças, tendo em conta a libertação de qualquer pessoa, porque se rege pelo amor incondicional.
  4. O cristão não pode, de forma nenhuma, esquecer-se da luta pela liberdade e pela felicidade das pessoas. Não pode ser conivente com estruturas e práticas de exploração económica, de opressão política, de dominação ideológica, de marginalização e discriminação.
  5. Por fim, sobressai nestes valores e preocupações fundamentais do crente a luta por uma convivência humana baseada na solidariedade, na fraternidade e na igualdade de oportunidades, respeito e dignidade para todas as pessoas.

Estes valores aqui elencados demonstram como tal dualidade é incompatível com o Reino de Deus, emanado do Evangelho de Jesus de Nazaré, orientação e guia da Igreja Católica e dos seus autoproclamados “mais conscientes” crentes. Embora não se negue o quanto ainda é imperfectível esta assunção do Reino de Deus neste mundo, mas, quer queiram quer não, fica óbvio que racismo e xenofobia se incompatibilizam com os critérios aqui designados.

categoria-internacional Acumulação Primitiva Guerra Imperialismo Palestina Racismo Reprodução Social edicao-2025-11-06 (03)

A lógica da guerra infinita como estratégia de governo

Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias

A Acumulação do Capital: Uma Contribuição à Teoria Econômica do Imperialismo, de Rosa Luxemburgo, foi publicado em 1913 às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Suas avaliações críticas ao colonialismo e ao imperialismo não estavam apartadas da sua própria experiência como uma judia crescendo na Polónia ocupada pela Rússia, ela estava pessoalmente consciente dos impactos da dominação colonial.

Já nos seus primeiros trabalhos, esteve comprometida com a denúncia de como o extermínio dos povos indígenas e a interferência do capitalismo euro-americano nas formações sociais do mundo não ocidental não eram um acidente ocasional da acumulação de capital, mas sua própria base. Faz parte do capitalismo eliminar as economias pré-capitalistas, autossuficientes e não monetárias, transformando-as em ferramentas para acumulação de capital. Para tanto, faz uso de métodos como violência, fraude e até mesmo de genocídios.

Nesse sentido, embora motivações ideológicas facilitem o processo, o imperialismo é impulsionado pelas engrenagens do próprio capital, e por isso é viabilizado tanto em formas autoritárias de governo, quanto em “democracias” capitalistas.


“Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.”

Maria Mies, uma das primeiras feministas a analisar sistematicamente o papel das mulheres no capitalismo com base na estrutura de Rosa Luxemburgo, em seu livro Patriarcado e acumulação em escala mundial, aplica a teoria do imperialismo de Rosa Luxemburgo às mulheres, ao seu trabalho e à família.

A abordagem de Mies traça paralelos entre o trabalho feminino e o trabalho não remunerado de camponeses, colónias e outros “meios não capitalistas”, que Luxemburgo descreveu como sendo explorados “gratuitamente”, de forma semelhante à natureza. Maria Mies não vê o patriarcado e o capitalismo como sistemas separados, antes compreende que eles formam uma única entidade: o patriarcado capitalista. Por isso, para ela a subjugação das mulheres não se deve à misoginia masculina inerente, mas sim a uma necessidade estrutural para a acumulação de capital. Assim como Rosa Luxemburgo via a acumulação primitiva como intrínseca ao capitalismo, Mies afirma que o capitalismo não pode funcionar sem o patriarcado, visto que a acumulação contínua de capital requer a manutenção ou a criação de relações de género patriarcais e/ou coloniais.

Se Mies vê o patriarcado como expressão intrínseca da acumulação primitiva, também é verdade que os sujeitos dentro de um estado de exceção estão a mercê da mesma lógica da acumulação primitiva. Nesse sentido, os corpos racializados e colonizados de Gaza encontram-se em posição equiparada de exploração. Se em certo contexto histórico de superexploração, trabalhavam para empresas israelitas como forças de reservas para baixarem os salários, agora são expulsos do próprio território para aumentarem o valor de exploração.

No livro Pele Negra, máscaras brancas Frantz Fanon argumentou que a crescente conscientização dos trabalhadores em países colonizadores e racistas – levou a uma evolução no conceito de raça. Se o racismo vulgar e biológico correspondia ao período de exploração bruta do trabalho físico, onde a subjugação e a desumanização dos escravizados eram justificadas por hierarquias raciais pseudocientíficas, à medida que os meios de produção se tornaram mais avançados, as técnicas de exploração — e as formas de racismo — tornaram-se mais dissimuladas. A distinção colonial/racial entre civilização e barbárie evoluiu para uma divisão entre aqueles percebidos como capazes de dominar a natureza e aqueles vistos como subjugados por ela ou inerentemente parte dela.

Já Tithi Bhattacharya defende que todo esse processo sempre aconteceu sobre uma base de racialização intensa, o que não só fomentou a manutenção dos salários baixos, como fez subempregos parecerem um presente do capital a determinadas comunidades racializadas. Reconhecer as principais vítimas desse caminho também nos faz compreender porque sindicatos formados em sua maioria por trabalhadores do Sul global compostos por uma classe trabalhadora diversa, demonstram maior solidariedade e identificação com Gaza do que tantos outros da Europa.

Contudo, é importante reconhecer que o que tem sido feito ainda é muito pouco. O que estamos a assistir nada mais é do que a lógica da guerra infinita como dispositivo de governo, onde a desordem contínua é a única condição para a preservação de uma ordem que não tem mais como garantir horizontes normativos estáveis. Antes, o que temos visto é a consolidação daquilo que Giorgio Agamben chamou de paradigma da exceção. Simplesmente, porque militarizar as mentes é também acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo. É a banalização das piores violências, como um soberano que tem direito sobre a vida do outro.

Segundo Carl Schmitt, trata-se da construção no imaginário social de um inimigo eterno, onde a militarização das mentes emerge como uma técnica eficaz para acabar com todos os vínculos possíveis de solidariedade em nome de um suposto inimigo.

Fenómenos que podem ser observados desde os discursos de ódio e dessensibilização em face à violência estatal nas periferias do mundo, quanto na execução da política colonialista do Estado israelita que se estrutura desde a Guerra Fria através da emergência de um Estado que se estabeleceu enquanto superpotência na ordem bipolar. A política baseada no proveito político e económico feito pelo movimento sionista que fez que este se aliasse a uma potência capitalista imperialista, capaz de assegurar a expulsão sistemática dos Palestinos, é a prova da instrumentalização desse processo. Características que podem ser observadas na tentativa de confinar o máximo de palestinianos, mas também no roubo de recursos estratégicos (água e terra cultivável), utilização da mão de obra barata, trabalho análogo ao escravo.

Entender as dinâmicas de opressão e trabalho reprodutivo que se conjugam em Gaza há décadas é compreender as estruturas que autorizam e naturalizam a utilização de artifícios imperialistas de governo a serem aplicados em escala indefinida contra populações colocadas em extrema vulnerabilidade. Essa dinâmica de normalização das crises aponta para uma forma de governabilidade que naturaliza o uso de medidas excecionais e autoritárias.

O racismo é incompatível com os valores cristãos
A lógica da guerra infinita como estratégia de governo
O racismo é incompatível com os valores cristãos Pe. José Luís Rodrigues
categoria-opinião Igreja Racismo Valores cristãos edicao-2026-03-05 (18)

O racismo é incompatível com os valores cristãos

Todos os seres humanos devem humanizar-se cada vez mais, mas o cristão está desafiado pela fonte onde bebe o seu crer a ainda mais se humanizar e lutar pela dignificação de qualquer pessoa, em qualquer lado.

Pe. José Luís Rodrigues
A lógica da guerra infinita como estratégia de governo
categoria-internacional Acumulação Primitiva Guerra Imperialismo Palestina Racismo Reprodução Social edicao-2025-11-06 (03)

A lógica da guerra infinita como estratégia de governo

Entender as dinâmicas de opressão e trabalho reprodutivo que se conjugam em Gaza é compreender as estruturas que naturalizam a utilização de artifícios imperialistas de governo...

Marcela Uchôa

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