Porto

Não há bagar
categoria-crónica Cidade Porto Conversa edicao-2026-09-24 (42)

Não há bagar

Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte.

Gi Ribeiro dos Santos
Transportes públicos gratuitos em Lisboa e Porto: solução social ou risco estrutural?
categoria-voz dos sindicatos Lisboa Porto Transportes edicao-2026-04-23 (24)

Transportes públicos gratuitos em Lisboa e Porto: solução social ou risco estrutural?

Apresentada como uma medida de justiça social e de incentivo à mobilidade sustentável, a proposta de gratuitidade dos transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto levanta, no entanto, um conjunto de questões relevantes.

Luís Bravo
categoria-crónica Cidade Porto Conversa edicao-2026-09-24 (42)

Não há bagar

No Porto e arredores há expressões e palavrões que dizem exatamente o que nos vai na alma.

Aconselho sempre a quem não conhece a cidade a ir a um mercado ou a fazer uma viagem de metro ou autocarro, sem preconceitos.

Já somos gozados pelo sotaque, apontados por dizermos palavrões, mas depois há uma franqueza que não se encontra em muito lado.

Não somos muito “meu querido”, somos mais “bai ber se chove”.

A cidade está a ser transformada numa Disney, o Bolhão passou a ser “não me toques”, sem aqueles repentes das peixeiras, perante um nariz torcido de arrogância: “Que foi madame, o chicharro cagou-se?” A Ribeira do Manitas, do Palavrinhas, do Caganeta, está poliglota. “Tesos do carago, só bebem... Ó bife, I love you ,buy something!"

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Faltam os genuínos dealers com sacos de plástico a dizerem ao pessoal do Meia Cave ou do Aniki Bobó: “Quereis para dormir ou para acordar?" Tudo se sofisticou, até na arte em que instalações do caneco são endeusadas, mas que de vez em quando dão origem a uma crítica demolidora: “Não tenho estudos para isto!” A Casa da Música tem concertos magníficos, é um oásis de cristal, porque o Palácio passou para Super Bock Arena, ao menos que tivesse o nome da nossa Rosinha Mota, que dá aos vitorinos todos os dias na marginal e mantém o ar de fome dos que não beberam leite na primeira infância. Mulher do pobo, sem peneiras, como o “agora que fazer?” do Pedro Abrunhosa, um anel de rubi do Beloso e o nosso sublime Carlos Tê, o grande poeta improvável, que trabalhou num banco e teve de se escapar pela imaginação.

Voltemos ao título do texto.

Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte. Duas senhoras começam a falar, mas uma delas só faz o refrão.

“Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada? Perguntei ao meu Victor e ele disse que era qualquer porra, que não sabia.”

Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada?

A do refrão:

“Ph@€a-se!”

“Olha, eu já lhe disse que não sei cozinhar sementes, bagas, tofus e outras coisas. Seitão?"

“Ph@€a-se!”

“Não tenho bagar, deita-se num colchão no chão, pela minha saúde, estica-se, tem umas bolas pilatos, sabes o que é?"

“Ph@€a-se!”

Toma uns sumos, fala com o rapaz que a treina e eu a querer saber se o senhor vem almoçar, não consigo.”

“Ph@€a-se!”

“Não há bagar! Só te digo que chego a casa cansada e o meu Victor ainda quer festa.”

Saí na Boavista porque tinha mesmo de ir ao Orfeuzinho, mas aquela conversa era de uma riqueza brutal.

Não há bagar!

categoria-voz dos sindicatos Lisboa Porto Transportes edicao-2026-04-23 (24)

Transportes públicos gratuitos em Lisboa e Porto: solução social ou risco estrutural?

Apresentada como uma medida de justiça social e de incentivo à mobilidade sustentável, a proposta de gratuitidade dos transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto levanta, no entanto, um conjunto de questões relevantes.

ilustração: Ricardo Ferreira

A proposta de gratuitidade dos transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto tem vindo a ganhar força no debate político e social. Apresentada como uma medida de justiça social e de incentivo à mobilidade sustentável, levanta, no entanto, um conjunto de questões relevantes quanto à sua viabilidade económica, à qualidade do serviço e aos impactos territoriais no país.

Por um lado, os defensores da medida argumentam que eliminar o custo direto para o utilizador promove a equidade no acesso à mobilidade, reduz a dependência do automóvel e contribui para a diminuição das emissões de dióxido de carbono. Num contexto de transição climática e de aumento do custo de vida, a gratuitidade pode representar um alívio significativo para as famílias, sobretudo nas áreas urbanas onde o transporte público é amplamente utilizado.

Contudo, importa analisar de forma crítica os potenciais efeitos colaterais desta política. Um dos principais riscos prende-se com a sustentabilidade financeira das empresas de transporte. A eliminação das receitas provenientes dos bilhetes implica uma maior dependência de financiamento público, ou seja, dos contribuintes. Isto levanta a questão do princípio do utilizador-pagador: será justo que toda a população, incluindo quem não beneficia diretamente destes serviços — nomeadamente os residentes em zonas rurais — suporte o custo total da operação?

Além disso, a pressão acrescida sobre a procura pode ter consequências na qualidade do serviço. Sem um reforço proporcional da oferta — mais veículos, maior frequência e investimento em manutenção —, existe o risco de sobrelotação, atrasos e degradação geral da experiência do utilizador. A gratuitidade, por si só, não resolve problemas estruturais como a falta de capacidade ou a insuficiência de investimento.

Ao concentrar benefícios significativos nas áreas metropolitanas, esta política pode acentuar desigualdades regionais.

Outro ponto crítico diz respeito à coesão territorial. Ao concentrar benefícios significativos nas áreas metropolitanas, esta política pode acentuar desigualdades regionais. A atratividade acrescida de Lisboa e Porto poderá intensificar a deslocação de população do interior para o litoral, agravando fenómenos já existentes de desertificação. Neste sentido, a medida, ainda que bem-intencionada, pode ter efeitos contrários aos objetivos de equilíbrio territorial e desenvolvimento regional.

Uma alternativa poderá passar por soluções intermédias, como a redução tarifária progressiva, a gratuitidade para grupos específicos (jovens, idosos ou famílias de baixos rendimentos) ou a implementação de passes mais acessíveis. Estas opções permitem mitigar custos e testar impactos, sem comprometer de imediato a sustentabilidade do sistema.

Em suma, a gratuitidade dos transportes públicos em Lisboa e Porto é uma proposta com mérito social e ambiental, mas que exige uma análise cuidadosa e integrada. A sua implementação deverá ser acompanhada de garantias de financiamento estável, reforço da oferta e políticas complementares que assegurem a coesão territorial. Caso contrário, o que se apresenta como uma solução poderá transformar-se num problema estrutural de difícil reversão.

Não há bagar
Transportes públicos gratuitos em Lisboa e Porto: solução social ou risco estrutural?
Não há bagar
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Não há bagar

Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte.

Gi Ribeiro dos Santos
Transportes públicos gratuitos em Lisboa e Porto: solução social ou risco estrutural?
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Transportes públicos gratuitos em Lisboa e Porto: solução social ou risco estrutural?

Apresentada como uma medida de justiça social e de incentivo à mobilidade sustentável, a proposta de gratuitidade dos transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto levanta, no entanto, um conjunto de questões relevantes.

Luís Bravo

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