Os Estados Unidos acordaram em 4 de novembro sob um radiante céu azul, a cor do Partido Democrático, que arrebatou com larga vantagem a maioria nas duas câmaras do Congresso (Parlamento) do país, o Senado e a Câmara de Representantes. Trump e o trumpismo sofreram uma pesada derrota.
O descontentamento dos norte-americanos com a inflação e a subida constante do custo de vida, as tarifas alfandegárias e a guerra contra o Irão atingiram duramente os candidatos republicanos e o presidente Trump, levando-o aos níveis de popularidade mais baixos da história para um presidente na véspera das eleições intercalares.
Somando-se à derrota de Flávio Bolsonaro no Brasil em 25 de outubro, que assentou numa reviravolta assente na reentrada da juventude na política, em grandes manifestações combativas, e ao que está a acontecer na Europa, e também em Portugal, com lutas contra a subida do custo de vida, a degradação da saúde e da educação e a falta de casas a preços acessíveis, podemos concluir que os sectores mais reacionários da sociedade abordam o final deste ano com alguns hematomas na cara.
Ainda nos Estados Unidos, a esquerda no interior do Partido Democrático também registou importantes avanços. Os candidatos dos Socialistas Democráticos da América (DSA) venceram as eleições gerais em Nova Iorque, no Colorado e no Michigan. Além disso, segundo anuncia a revista Jacobin, “os candidatos do DSA venceram as eleições para a Câmara estadual em disputas renhidas no Kentucky e na Florida. Candidatos como Troy Jackson e Abdul El-Sayed, que são frequentemente associados ao DSA apesar de não serem membros, também venceram disputas vistas por muitos como testes para a ala progressista do Partido Democrata. Angie Nixon, membro do DSA que obteve uma vitória surpreendente nas primárias para o lugar no Senado da Florida, ficou a poucos pontos de vencer num estado que a maioria considerava irremediavelmente republicano. Entretanto, as sondagens à saída dos locais de voto mostraram que três vezes mais eleitores jovens se intitulavam socialistas democráticos do que adeptos do MAGA”.
A esquerda norte-americana tem-se mantido dentro do Partido Democrático, assustada com o facto de todas as tentativas de criar um grande partido socialista nos EUA terem sido frustradas ao longo de mais de um século. Isso levou a que candidaturas como a de Bernie Sanders, que conseguiram mobilizar grandes multidões, acabassem sempre por capitular a figuras como Hillary Clinton. Porém, os Clinton e os Obama não representam a classe trabalhadora nem as suas necessidades. Eles são a outra face da mesma moeda, a de Wall Street. Para romper com a prisão do bipartidismo, é necessária a coragem de surgir uma força independente, que arranque a parcela da classe trabalhadora que se deixou arrastar pelo canto da sereia do MAGA (Make America Great Again) às mãos do trumpismo.
Na Roma Antiga, o senador Catão, o Velho, terminava todos os seus discursos com uma frase: “Delenda est Carthago!” (Cartago deve ser destruída). Para a esquerda norte-americana e de todo o mundo, é preciso atacar o mal na sua origem. Delenda est MAGA!
* Anunciou que vetaria todas as leis que uma eventual maioria democrata no Congresso aprovasse.