Luís Neves

Com Neves e bolos se enganam os tolos
categoria-opinião Governo Montenegro(político) Chega Luís Neves edicao-2026-09-24 (42)

Com Neves e bolos se enganam os tolos

Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde

Tiago Franco
categoria-opinião Governo Montenegro(político) Chega Luís Neves edicao-2026-09-24 (42)

Com Neves e bolos se enganam os tolos

Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas. De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?

Não sei se tiveram hipótese de perder quatro preciosas horas da vossa vida a troco da penosa comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao ministro da Administração Interna, Luís Neves, o “hit” deste verão.

Imagino que não. Vocês parecem ser pessoas bem mais sensatas do que eu.

Todo aquele espectáculo, sim, mesmo deprimente não deixou de ser um espectáculo, é um resumo perfeito do estado do País, em particular da governação de Montenegro.

Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando.

Não vou discutir tanques, atrelados ou sobras da CP. Nada disso me interessa e, já agora, nem ao Chega. O “crime” do actual ministro da Administração Interna, aquilo que realmente Ventura nunca conseguiu perdoar, foi a clareza com que Neves, ainda na posição de director da PJ, dizimou as teorias da extrema-direita de associar a insegurança ao aumento da imigração. Luís Neves muniu-se de factos e dados do INE, o Chega tinha as “verdades” das sensações e os estudos do tik-tok. Não é difícil adivinhar quem saiu por cima nesse despique.

Há meses que o Chega persegue Luís Neves e, depois de toda a gritaria nas redes sociais e nas 15 entrevistas “exclusivas” do Ventura (quando é que lhe arranjam uma caravana para acampar entre os estúdios da CNN e do NOW?), chegaram à CPI sem uma pergunta relevante para fazer.

O nível de incompetência, a falta de preparação e até as dificuldades de articular frases em português correcto dos deputados do Chega são tão gritantes, que acabo por ser forçado a concluir duas coisas. A primeira, e que já todos sabíamos, é que o Chega não está minimamente interessado na queda de Luís Neves. Precisam de um alvo para fingir que fazem oposição e que lhes alimente o barulho. É tudo o que sobra a quem não tem programa. A outra conclusão, mais popular, mas também simples de compreender, é que de facto, quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.

Quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.

Montenegro também deve estar contentíssimo com todo este forró. Quanto mais a vara de marmeleiro aponta ao MAI, mais folgam as costas do CEO da Spinumviva. Se não quiséssemos pensar muito, bastar-nos-ia isto. Um país que elege, duas vezes, um empresário que tudo o que tinha para vender era a sua lista telefónica, quer assim tanto saber de tanques em Odemira ou carros apreendidos e legalmente utilizados? Vá lá, temos de começar a olhar para os movimentos da extrema-direita com os olhos abertos.

A dada altura, Pedro Pinto, esse Churchill do aposento da Moita, quis que Luís Neves falasse dos percevejos nas esquadras não sei de onde. O Chega deve ter extraído daquelas quatro horas uns bons três ou quatro vídeos de 30 segundos para alimentar aquela legião de fãs acrítica e adormecida que ainda acha que dali chegam as verdades.

Cá fora, no mundo real, o BCE aumentava pela segunda vez, no espaço de dois meses, as taxas de juro. A gasolina chegava a 2,2 euros por litro, os níveis de leitura e matemática da escola pública regrediam 20 anos.

Os Portugueses, cada vez mais pobres e endividados, sem conseguirem chegar ao fim do mês e sem perceberem como é que o trabalho, o estudo ou o esforço lhes podem trazer novos patamares no elevador social.

Perante este quadro de miséria, a AR discute o carro do Xuxas e todo o nosso debate político gira à volta de um tanque em Odemira. Nada, absolutamente nada, do que é relevante para a vida dos Portugueses é debatido pelos deputados da nação. 

É uma mediocridade que agrada a Luís Montenegro porque lhe permite continuar a viver de propaganda e tentativas de reforma. É óptima para o Chega porque perpetua a pobreza que lhes dá votos e alimenta a gritaria de que vivem. E é também excelente para os liberais porque, perante a inoperância do Governo ou as limitações da extrema-direita, os discípulos de Milei, que até sabem usar talheres, quase que passam por gente que se preocupa com a populaça.

Não tenho grandes dúvidas sobre o abandono a que este Governo e os partidos de direita, da mais tradicional até aos extremistas, sujeitaram os Portugueses. Em especial aqueles que vivem do seu trabalho. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas.

De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer? 

Com Neves e bolos se enganam os tolos
Com Neves e bolos se enganam os tolos
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Com Neves e bolos se enganam os tolos

Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde

Tiago Franco

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