
Quando, por fim, as luzes da sala se acendem, o que estranha é a imobilidade e o silêncio. Ninguém esboça o gesto de se levantar para sair. Ninguém sussurra para o lado. Ninguém nada. A projeção de Naza, o documentário sobre o extermínio do povo palestiniano em Gaza, acabou. E é como se um peso se abatesse sobre as consciências de quantos assistiram. Mesmo se aqueles que se deslocaram ao cinema para ver Naza estivessem de antemão conscientes do que iriam ver, mesmo se grande parte deles, se não todos, tivessem participado em ações de protesto contra os massacres israelitas na Faixa de Gaza, perpetrados sob o pretexto da sua autodefesa. Apensa silêncio e imobilidade. Longamente.
É assim, uma após outra, das sessões de projeção do filme. Lá do fundo, alguém grita: “Palestina Vencerá!” O slogan é entoado por algumas outras vozes, mas o silêncio regressa à sala que, só aos poucos, começa a agitar-se com as pessoas a levantarem-se para sair.
“Naza” é a designação que, na linguagem burocrático-militar das forças armadas israelitas, nomeia os civis “colateralmente” atingidos ou atingíveis por uma ação militar. Cada ordem de abrir fogo é planificada e, nesse planeamento, está incorporada a estimativa de “nazas” a atingir. “Nazas” são os familiares, as crianças, os anciãos, os bebés e as suas mães que estão no interior de um prédio onde, por exemplo, é suspeito encontrar-se um militar do Hamas.
São militares israelitas dos departamentos de informações, planeamento, artilharia, do departamento político conhecido por “Departamento Bibi” e operacionais no terreno quem explica tudo isto aos realizadores de Naza, os cineastas israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor. Conta um deles que, numa das ordens que recebeu, foram autorizados até “500 nazas”.
A nova “Amtssprache”
Quando, no início dos anos 1960, escreveu sobre o julgamento por Israel do criminoso de guerra nazi Adolf Eichmann, condenado à morte por enforcamento, Hannah Arendt notou que, apesar de se terem passado quase vinte anos desde o tempo em que o antigo coronel dirigira o tráfego dos “comboios da morte” para os campos de extermínio, a sua linguagem não mudara. Eichmann continuava a usar a terminologia burocrática, a “Amtssprache” — linguagem administrativa —, o burocratês que afasta do crime o criminoso. “Eliminação” e não “assassinato”. “Realojamento” e não “deportação”. “Mão-de-obra” e não “escravatura” são palavras com que a consciência humana se protege da realidade cuja precisão lha tornaria insuportável.
Isso ocorre com o crime “legal” de Estado, perpetrado a grande escala por maquinarias político-administrativas que, ao mesmo tempo que criam a verdade da barbárie, geram a mentira das palavras que a eufemizam e que, no limite, a tornam possível.
Isto ocorre nos casos extremos de liquidação de populações inteiras, massacres de crueldade inominável, mas também acontece com a “política normal”. O burocratês envolve as políticas antissociais de governos após governos que sabem estar a legislar não para defender as populações cuja vida era suposto melhorarem com o seu poder, mas sim para beneficiar as elites que, mesmo que não lhes pertençam, são pagos para servir.
A expressão geral que Arendt utilizou para falar disto foi “a banalidade do mal”. Um termo que grande parte da maldade e dos seus autores desde então tem banalizado para diluir a sua ação, seja em nome de que poder for, seja em que parte for do mundo.
Ouvir os soldados israelitas que, com vozes tratadas digitalmente e filmados de forma a salvaguardar o seu anonimato, sem que isso possa, todavia, ser confundido com uma filmagem artificial, é regressar às atas de Nuremberga ou Tóquio, no final dos anos 1940. A “razão maquínica” apresentada pelos dirigentes e operacionais nazifascistas de então é a mesma que, mais criticamente ou menos, expõem os militares israelitas que aceitaram falar.
Une-os aos realizadores de Naza a coragem e a consciência do que foi feito e continua a sê-lo em Gaza, agora com silenciador, como em Cuba. A morte por doença, sede, fome, abandono, privação; a existência a ser extinta até ao seu último suspiro.
Tudo isto é apresentado em registo de conversa, calmamente, sem falsos moralismos, no documentário que explica a destruição de Gaza e dos Palestinianos, casa por casa, ser humano por ser humano, tendo em fundo os terraços de Telavive e as imagens da vida doméstica das famílias israelitas através das janelas dos seus apartamentos nas torres da cidade iluminada. Só por uma vez as imagens nos trazem atroadoramente a brutal violência de Gaza, no final do documentário. Depois, as luzes acendem-se e o som lancinante das vítimas em Gaza dá lugar ao silencio imóvel na sala de cinema.