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#40 Raquel Varela conversa com a enfermeira Gorete Pimentel
categoria-o tempo contra o tempo edicao-2026-02-19 (16)

#40 Raquel Varela conversa com a enfermeira Gorete Pimentel

Gorete Pimentel, do SITEU, recorda a força dos trabalhadores. E critica, também, a cumplicidade de muitos trabalhadores com o poder. Fala sobre ser enfermeira obstetra, sente “vergonha” de ver mulheres a parir em ambulâncias, conversámos sobre a posição dos sindicatos dos enfermeiros nos EUA pela expulsão do ICE, sobre o

Jornal Maio
Moda do Entrudo
categoria-um poema edicao-2026-02-19 (16)

Moda do Entrudo

Ó entrudo ó entrudo Ó entrudo chocalheiro Que não deixas assentar As mocinhas ao solheiro Eu quero ir para o monte Eu quero ir para o monte Que no monte é qu’eu estou bem Que no monte é qu’eu estou bem Eu quero ir para o monte Eu

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Corporações, corporativo​
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-02-19 (16)

Corporações, corporativo​

Segundo o dicionário da Porto Editora, nome feminino que significa: 1) conjunto de pessoas sujeitas à mesma regra ou que dirigem assuntos de interesse público; 2) associação que reúne os membros de uma mesma profissão, organizados sob um regulamento comum; 3. [por extensão] empresa ou conjunto de empresas com grande

Jornal Maio
Tem mãe p’ra matar?
categoria-crónica Faxina Mãe edicao-2026-02-19 (16)

Tem mãe p’ra matar?

A sociedade atribuiu às mães um papel tão gigante que até uma ateia comunista, experiente na mesma tarefa e analisada por anos, não concebe pôr no lixo sem culpa uma velha foto de sua mãe.

Maria Augusta Tavares
Carta da cineasta indiana Arundhati Roy anunciando boicote ao festival de Berlim
categoria-cultura Cinema Genocídio Palestina edicao-2026-02-19 (16)

Carta da cineasta indiana Arundhati Roy anunciando boicote ao festival de Berlim

Se os maiores cineastas e artistas do nosso tempo não se conseguem levantar para dizer que o que tem acontecido em Gaza, o que está a acontecer em Gaza é um genocídio do povo palestiniano pelo Estado de Israel, saibam que a história os julgará.

Arundhati Roy
Defesa civil ou guerra militar
categoria-opinião Defesa Civil Forças Armadas edicao-2026-02-19 (16)

Defesa civil ou guerra militar

A Proteção Civil nunca estará apta a cumprir o que dela se exige enquanto não se tornar axial, um imperativo categórico, na sociedade portuguesa.

Mário Tomé
A UGT e a proposta “Trabalho com direitos XXI”
categoria-opinião Pacote Laboral Trabalho com direitos UGT edicao-2026-02-19 (16)

A UGT e a proposta “Trabalho com direitos XXI”

As propostas da UGT alteram dezenas de artigos do nosso Código do Trabalho. O documento, segundo a UGT, não pretende ser uma tomada de posição sobre o anteprojeto do Governo, mas uma alternativa.

João Leal Amado
Bairros problemáticos
categoria-opinião Cidade Habitação edicao-2026-02-19 (16)

Bairros problemáticos

O preço elevado da construção que verificamos atualmente não tem origem na qualidade da matéria, nos saberes de quem a transforma, ou em salários decentes para quem participa no ordenamento ou no seu processo construtivo.

Rui Pinto
Portugal a três tempos: a ideologia urbana e a resistência rural
categoria-opinião Rural Urbano edicao-2026-02-19 (16)

Portugal a três tempos: a ideologia urbana e a resistência rural

Numa mentalidade nacional onde o ser rural ainda é pacóvio e o urbano é cosmopolita, veremos ainda o coletivo rural a levantar-se do chão, revoltando-se contra a opressão que o quer curvar?

Duarte Figueiredo
Engels, pensador da guerra, pensador da revolução. Parte 1
categoria-história Engels Gilbert Achcar Guerra edicao-2026-02-19 (16)

Engels, pensador da guerra, pensador da revolução. Parte 1

Este estudo foi redigido para um colóquio organizado por Georges Labica na Universidade de Nanterre, em 1995, por ocasião do centenário da morte de Friedrich Engels.

Gilbert Achcar
Transformar o património da segurança social em capital
categoria-política Alemanha Estado Social Neoliberalismo edicao-2026-02-19 (16)

Transformar o património da segurança social em capital

O programa para abater os “pilares do declínio” é o programa que Estados e governos europeus aplicam sob a batuta da Comissão Europeia

Adriano Zilhão
ABC da dívida
Economia_DELETE Banca Dívida Pública edicao-2026-02-19 (16)

ABC da dívida

Eis algumas noções básicas sobre dívida, privada e pública, e suas possíveis consequências, no nosso bolso e no condicionamento das políticas do país.

Rui Viana Pereira
Depois da tempestade vem o quê?
categoria-editorial edicao-2026-02-19 (16)

Depois da tempestade vem o quê?

Depois do “comboio de tempestades” que espalhou destruição no país há uma imensa tarefa de reconstrução pela frente. Porém, houve e há outras questões com efeitos devastadores que têm de ser enfrentadas e resolvidas: anos de privatizações, com grandes empresas privatizadas, como a EDP, comunicações e transportes, a subcontratarem a

Jornal Maio
Transformar o património da segurança social em capital
categoria-política Alemanha Estado Social Neoliberalismo edicao-2026-02-19 (16)

Transformar o património da segurança social em capital

O programa para abater os “pilares do declínio” é o programa que Estados e governos europeus aplicam sob a batuta da Comissão Europeia

Adriano Zilhão
ABC da dívida
Economia_DELETE Banca Dívida Pública edicao-2026-02-19 (16)

ABC da dívida

Eis algumas noções básicas sobre dívida, privada e pública, e suas possíveis consequências, no nosso bolso e no condicionamento das políticas do país.

Rui Viana Pereira
Depois da tempestade vem o quê?
categoria-editorial edicao-2026-02-19 (16)

Depois da tempestade vem o quê?

Depois do “comboio de tempestades” que espalhou destruição no país há uma imensa tarefa de reconstrução pela frente. Porém, houve e há outras questões com efeitos devastadores que têm de ser enfrentadas e resolvidas: anos de privatizações, com grandes empresas privatizadas, como a EDP, comunicações e transportes, a subcontratarem a

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categoria-política Alemanha Estado Social Neoliberalismo edicao-2026-02-19 (16)

Transformar o património da segurança social em capital

O programa para abater os “pilares do declínio” é o programa que Estados e governos europeus aplicam sob a batuta da Comissão Europeia. Acabar com a segurança do emprego e os direitos dos funcionários; destruir a segurança social e as pensões, acabar com a indústria “obsoleta” e com um ensino público que forma cidadãos em vez de empresários — eis o molde comum de todos os programas em aplicação na UE de Von der Leyen.

ilustração:Ricardo Ferreira

Às vezes, a franqueza brutal acontece: assim em Novembro passado, numa publicação alemã (The Pioneer), detida por um conhecido jornalista liberal e pelo grande grupo alemão da comunicação social Springer.

O artigo1 referia-se ao caso da Alemanha. Descrevia as razões que, segundo ele, estavam por trás do declínio económico do país.

Mas é fácil ver que o diagnóstico “liberal” se aplica a todos os países em que ainda há conquistas incómodas dos trabalhadores, incluindo Portugal.

As cinco razões para a ineficiência do “modelo económico” alemão são assim descritas:

1. “O Estado de funcionários começou por ser uma conquista; hoje é um pesado fardo”

As características do Estado que, sob o domínio prussiano, foi a espinha dorsal da unificação alemã, mas hoje é um “pesado fardo” são: “carreiras vitalícias”; uma “lógica de departamentos em vez de gestão flexível de projectos”; “regulamentos complexos em vez de governação pelo resultado”; e “controle, em vez de inovação, como leitmotiv da acção administrativa.”

2. “O sistema de segurança social [com que] Bismarck quis comprar os operários”

A origem do sistema alemão de segurança social remonta ao chanceler Bismarck, “político realista” e “homem do imperador” no século XIX. Em 1878, Bismarck decretou “leis anti-socialistas” fortemente repressivas. Contudo, “rapidamente se deu conta de que, só por si, a repressão não barraria o caminho ao movimento operário. Tirou daí as devidas consequências, inventando, entre 1883 e 1889, aquilo que hoje conhecemos como o modelo alemão de segurança social: [o] seguro de doença (1883), [o] seguro de acidente (1884) [e o] seguro de invalidez e velhice (1889)”. Diagnostica, preocupado, The Pioneer, que “o sistema bismarckiano devia servir para afastar os operários da revolução. Ora, no ano de 2025, ele já só funciona graças a subvenções estatais maciças. Há muito que perdeu a capacidade de acomodar razoavelmente as convulsivas carreiras profissionais da era moderna, as baixas taxas de natalidade e a exposição a uma duríssima concorrência salarial internacional.”

3. A “reforma das pensões de 1957”

O então chanceler Konrad Adenauer “criou o actual seguro de pensões, introduzindo (…) o sistema distributivo. Transformou a pensão num “sucedâneo do salário” — com potente efeito político e arriscado efeito económico”. Segundo The Pioneer, o prognóstico de Adenauer de que “crianças há-de haver sempre” falhou, e a proporção entre pensionistas e contribuintes para o seguro de aposentação legal alterou-se de tal maneira, que o sistema se tornou inviável. Conclusão da publicação: “Procura-se agora fazer política contra a matemática, recorrendo ao financiamento público e a mini-reformas. Não vai dar. A matemática é mais forte.”

4. “O ADN industrial – o motor de combustão interna”

Problema: “A base da indústria alemã continua ainda hoje a ser dada pelas inovações da era dos fundadores. Cerca de metade dos pesos pesados do índice [bolsista] alemão, o Dax, teve a sua origem entre 1840 e 1900.”

Conclusão: a Alemanha foi o Silicon Valley do século XIX, mas, entretanto, passou a “parque jurássico” de indústrias velhas — há que desmantelá-las.

5. “O sistema educativo – o ideal de 1810 de Wilhelm von Humboldt”

Vale a pena citar na íntegra o “diagnóstico” dos liberais alemães sobre este “pilar”: “Em 1810, Wilhelm von Humboldt criou um sistema educativo cujos pilares eram a autonomia, a formação geral e o desenvolvimento da personalidade. Foi um modelo pioneiro – ainda hoje é a base do sistema educativo alemão. Só que não sofreu praticamente nenhum desenvolvimento desde essa altura. A ideia humboldtiana obedecia a uma ideia humanista, não a um princípio económico. Em primeiro plano estava não o fomento do núcleo produtivo do país, mas a promoção do indivíduo. Aprender não servia para desenvolver, digamos, o potencial económico, mas a personalidade. A educação bastava-se a si mesma. A aprendizagem educou os estudantes para serem eruditos, espíritos cultos, mas não empresários, e é isso que explica que não se veja surgir à volta de nenhuma universidade alemã uma cena de start-ups comparável à da Universidade de Stanford, na Califórnia.”

Respirar fundo… Diz Fernando Alexandre: Desculpem lá, o Estado não pode andar a gastar dinheiro numa educação que se baste a si mesma, que sirva para formar indivíduos autónomos, bem formados e com uma personalidade desenvolvida. Não, em vez de ideias humanistas, precisamos de “princípios económicos”. Gaste-se dinheiro não a desenvolver personalidades, mas “potenciais económicos”. Em vez de eruditos e espíritos cultos, são precisos empresários. Dizer isto, não diz. Mas é assim que age.

Com caracterizações tão claras dos “problemas”, não surpreende que a conclusão geral de The Pioneer seja cristalina: “Os cinco módulos fundacionais desenvolvidos entre 1800 e 1957 – o Estado de funcionários prussiano, o sistema de segurança social bismarckiano, o sistema redistributivo de Adenauer, o ideal educativo humboldtiano e a lógica industrial da era dos fundadores – deixaram de servir verdadeiramente o nosso país. Por causa deles, a Alemanha dá uma aparência de desaceleração e degradação no plano internacional. A nostalgia não é modelo de negócio.”

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Mais vale falar novilíngua…

Admita-se: não é fácil o trabalho de um político burguês dos nossos dias, intitule-se ele “social-democrata” (o PSD só, precisamente, por “novilíngua” se chamou assim, para ver se ganhava uns votos de um povo que odiava a ditadura; historicamente social-democrata é o PS, não o PSD), “democrata-cristão” ou mesmo chegoso.

Não é fácil dizer na cara dos eleitores, por exemplo, que uma dada política serve para aumentar os lucros dos grandes grupos económicos e os dividendos dos accionistas e para reduzir o salário real de 90% da população trabalhadora; que a política do governo serve para acabar com a saúde pública gratuita, porque sai muito cara; e serve para acabar com o ensino público, de modo que a qualidade do ensino passe a depender das posses dos pais.

Logicamente, não é todos os dias que se ouvem defensores políticos dos nossos governos a descrever com esta clareza brutal os objectivos das políticas em curso.

É politicamente muito mais seguro dizer coisas deste género: “é fundamental atrair os investidores”; “é necessário criar riqueza para depois poder distribuí-la”; “visamos um aumento do salário médio para 1500 euros em 2030”; “há que combinar os pilares, público, privado e social do ‘sistema’ de saúde”; “é preciso regionalizar o país e descentralizar a contratação de professores” e por aí fora, segundo a inspiração das empresas de comunicação contratadas por bom dinheiro.

Não é todos os dias que se ouvem defensores políticos dos nossos governos a descrever com esta clareza brutal os objectivos das políticas em curso.

Bom, mas o que interessam os problemas da Alemanha ao trabalhador português?

Interessam muito. O programa para abater estes “pilares do declínio” é exactamente o programa que todos os Estados e governos europeus estão a aplicar sob a batuta centralizada da Comissão Europeia — embora usando, naturalmente, linguagem mais mendaz e sub-reptícia.

Acabar com a segurança do emprego e os direitos dos funcionários; destruir a segurança social e as “pensões-sucedâneo-do-salário”; acabar com a indústria “obsoleta” e com um ensino público que forma cidadãos em vez de empresários — tal é o molde comum de todos os programas em aplicação na era Von der Leyen.

Por exemplo, as pensões

Pouco tem transpirado, por exemplo, do que se prepara nos bastidores de Bruxelas em matéria de pensões.

Os ministros das Finanças em funções de França e da Alemanha convidaram o antigo ministro das Finanças alemão, Jörg Kukies, e o antigo governador do Banco de França, Christian Noyer, a proporem medidas concretas e viáveis para melhorar o acesso das “empresas [europeias] de elevado crescimento” aos capitais de que precisam. O pedido insere-se na agenda de promoção da União Europeia de Poupanças e investimentos (SIU), cujo chefe de fila é uma tal comissária Maria Luís Albuquerque, de troikana memória.

O relatório das eminências foi entregue no mês de Janeiro de 2026. Conclui que a principal causa de não ter surgido na Europa nenhuma das empresas de tecnologia com capitalização em bolsa de cem mil milhões de euros ou mais (surgiram todas nos EUA) nos últimos cinquenta anos “radica profundamente no sistema [europeu] de previdência na velhice. As pensões de financiamento distributivo da Europa não geram praticamente alfobres (pools) de capital para investimento: os activos de pensões representam meros 25% do PIB — contra 150% nos EUA. O efeito é decisivo: mais de 70% do capital de risco americano provém de investidores institucionais, um “ecossistema” de que a Europa carece”.

Ao noticiar a publicação deste relatório, no dia 22 de Janeiro, a mesma The Pioneer conclui que o “problema da Europa com a inovação não é um problema de ideias, é um problema de capital. Sem mercados de capitais mais profundos, sem capital de longo prazo movido pelas pensões e sem determinação política, enquanto outros continuam a dar saltos de escala, a Europa vai continuar a inventar”.

A solução deles é simples: transformar o património da segurança social em capital posto à disposição dos capitalistas, para estes com ele poderem especular, fazer fortunas — ou ir à falência, como aconteceu amiúde no Chile ou nos Estados Unidos, destruindo as pensões futuras dos trabalhadores.

O património da segurança social não é capital; é salário diferido dos trabalhadores. As pensões saem dos descontos aos nossos salários actuais, que esse património guarda para o futuro.

A alquimia liberal: transformar esse salário em capital, tirando-o aos trabalhadores e devolvendo-o aos patrões.

Contra o programa de demolição do capital, um programa dos trabalhadores

Tal é, a nu na sua promessa de miséria e barbárie, o programa de demolição de todas as conquistas dos movimentos operários europeus conseguidas no pós-II Guerra Mundial.

A ofensiva é, como se vê, concertada e séria, discutida entre os grandes banqueiros e políticos e arejada na imprensa que os serve.

Só será possível derrotar este programa com outro programa, igualmente claro, o programa do próprio movimento operário, que transforme o capital em património social, retirando-o aos capitalistas e entregando-o à democracia.

Esse programa: abertura dos livros de contas dos capitalistas e controle operário; expropriação sem indemnização da banca e das grandes empresas dos sectores básicos da economia, sob controle dos trabalhadores; restauração do ensino público universal, democraticamente gerido pelos próprios professores e estudantes; serviço nacional de saúde público, gratuito e universal; municipalização dos solos urbanos; rendas nunca superiores a um terço do rendimento das famílias; nem um tostão, nem um homem para a guerra, ruptura com a NATO/UE; programa de obras públicas em grande escala que crie habitação digna para todos, hospitais e centros de saúde, escolas e transportes públicos ao serviço dos trabalhadores; crédito barato aos pequenos agricultores e artesãos e à pequena empresa.


1 “Outdated: Das Betriebssystem der Bundesrepublik” (O sistema operativo da Alemanha está desatualizado), The Pioneer, 21/11/2025.

Economia_DELETE Banca Dívida Pública edicao-2026-02-19 (16)

ABC da dívida

Eis algumas noções básicas sobre dívida, privada e pública, e suas possíveis consequências, no nosso bolso e no condicionamento das políticas do país

  1. A dívida privada

Como muitos leitores sabem por experiência própria, qualquer empréstimo financeiro vem acompanhado do pagamento de juros e de uma série de condições, muitas vezes leoninas, impostas ao devedor. No caso dos devedores particulares, essas condições podem incluir a obrigação de pagar um seguro, de comprar uma caixa de vinhos milionários, etc. Além disso, o banco exige garantias, que incluem comprovativos de salário ou outros bens e meios de rendimento que, no caso de não reembolso da dívida, serão capturados pelo banco.

Veja-se o caso do empréstimo para compra de habitação. O devedor não contrai a dívida para obter um bem que lhe permita fazer operações especulativas no mercado imobiliário. Endivida-se por necessitar de um abrigo decente; por não ter capitais que lhe permitam comprar uma casa (o seu único capital, na maioria dos casos, é a sua própria força de trabalho); por não haver habitação social ou pública que lhe confiram o direito fundamental à habitação; porque os senhorios fizeram subir as rendas de tal maneira, que a população é empurrada para a aquisição de casa através de dívidas bancárias.

A instituição financeira que fornece o capital emprestado trata de garantir que o devedor tem meios para o reembolsar e não irá gastá-lo no casino. Este aspecto – o conhecimento que o credor tem dos fins a que se destina o empréstimo – é particularmente importante no caso da dívida pública, de que trataremos a seguir.

  1. A dívida pública

As dívidas contraídas por um governo, no fundamental, pouco diferem das dívidas contraídas pelos privados: são acompanhadas de condições (neste caso económicas e políticas) e garantias, e implicam o pagamento de uma renda. No mundo da finança esta renda chama-se “juro”, mas não deixa de ser uma renda, isto é, uma forma de espoliar o devedor de uma parte do valor que ele criou com a sua própria força de trabalho – seja ela paga em bens (colheita de trigo, gado, etc.) ou em dinheiro.

Apesar das similitudes entre a dívida privada e dívida pública, existem diferenças importantes. Em primeiro lugar, os particulares, ao contraírem uma dívida, fazem-no em seu próprio nome, por sua conta e risco. No caso da dívida pública, porém, os governantes contraem a dívida em nome da população que irá pagá-la, por regra sem a consultarem.

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Os motivos para contrair o empréstimo podem ser justos – por exemplo, para construir hospitais públicos e garantir o direito universal à saúde. Mas nem sempre isto acontece. Por exemplo, em 2011 o Governo português contraiu empréstimos junto das instituições financeiras da União Europeia e do FMI para salvar da falência os bancos, sem qualquer benefício directo ou indirecto para a população pagante.

O reembolso da dívida implicará fatalmente o desmantelamento dos serviços públicos de saúde, educação, infraestruturas e tantos outros avanços civilizacionais

Em primeiro lugar, recordemos que os bancos se encontravam em situação de falência, ou na iminência de falirem, devido às suas actividades altamente especulativas e ao facto de as entidades responsáveis (o Estado, o Banco Central) terem dado rédea solta a esse tipo de actividade e terem permitido a promiscuidade entre bancos comerciais e bancos de investimento. Recordemos ainda que, a seguir à grande depressão bancária de 1929, que deixou na miséria vastas camadas da população e provocou um desemprego massivo, uma das medidas que a administração norte-americana adoptou foi a separação entre bancos comerciais e bancos de investimento. Esta separação visava, entre outros alvos, salvaguardar o dinheiro dos depósitos bancários (salários, poupanças, etc.) e impedir que as empresas financeiras jogassem na roleta da bolsa com o nosso dinheiro. Esta e outras salvaguardas, porém, viriam a ser anuladas pelas políticas neoliberais a partir do início da década de 1980. O resultado desta desregulação bancária ficou à vista na falência de numerosos bancos em todo o mundo, incluindo os bancos portugueses.

Em segundo lugar, recordemos que o contrato assinado pelo Governo português com o FMI diz, preto no branco: se o empréstimo for usado para outros efeitos, nomeadamente sociais, Portugal sofre penalizações e a entrega das tranches do empréstimo é suspensa. As instituições multilaterais credoras sabiam, portanto, qual o destino dos empréstimos (aliás, impuseram-no contratualmente) e não podem eximir-se às respectivas responsabilidades.

Este aspecto (o facto de o credor conhecer o destino do empréstimo) é particularmente importante: quando uma dívida não beneficia aqueles que a pagam, ela torna-se ilegítima, não só do ponto de vista ético, político e social (porque havemos nós de pagar uma conta astronómica que não é nossa?), mas também à face da jurisprudência internacional. Quando assim acontece, os governos posteriores têm o direito legal de suspender o reembolso ou até de declarar unilateralmente a nulidade da dívida. Resta saber se têm a vontade política de o fazer.

Resumindo, a dívida contraída nessa época está ferida de ilegitimidade, além de ser um autêntico saque da riqueza produzida pela população, em benefício de banqueiros e accionistas.

Mais recentemente, novas dívidas foram contraídas pelo Governo português. Primeiro, para pagar dívidas anteriores. Este é um processo “normal” de extorsão da riqueza produzida num país, o que leva as dívidas a tornarem-se eternas: contraímos empréstimos para pagar empréstimos anteriores, e assim sucessivamente. Depois, para participar no plano europeu de recuperação e resiliência, para adquirir armamento, etc. Seria aconselhável que a sociedade civil olhasse com atenção para estas novas dívidas e indagasse a sua legitimidade – essas dívidas serão pagas por nós, nossos filhos e nossos netos; o seu reembolso implicará fatalmente o desmantelamento dos serviços públicos de saúde, educação, infraestruturas e tantos outros avanços civilizacionais que nos distinguiam da barbárie ultraliberal do século XIX; e as condições de acesso ao crédito internacional implicam, por regra, o saque dos recursos colectivos e naturais de um país.


Para saber mais sobre as dívidas ilegítimas e os motivos legais da sua suspensão ou anulação, recomenda, por exemplo, os artigos Dívida Odiosa, Força Maior ou Estado de Necessidade, que podem ser consultados online.

categoria-editorial edicao-2026-02-19 (16)

Depois da tempestade vem o quê?

Depois do “comboio de tempestades” que espalhou destruição no país há uma imensa tarefa de reconstrução pela frente. Porém, houve e há outras questões com efeitos devastadores que têm de ser enfrentadas e resolvidas: anos de privatizações, com grandes empresas privatizadas, como a EDP, comunicações e transportes, a subcontratarem a manutenção das redes a pequenas empresas, ficando com cada vez menos trabalhadores qualificados. Com as barragens a serem geridas por privados, focados na obtenção de lucro, que acontecerá na bacia do Mondego, por exemplo?

As cheias do Mondego são agora utilizadas para voltar com o projeto da barragem de Girabolhos como solução, mas o problema não é a falta de barragens, mas sim as opções da sua gestão privada, onde a proprietária está interessada em manter o máximo de água possível (para poder produzir energia cara mais tarde quando o preço aumentar) em vez de manter o nível suficientemente baixo para ter volume de encaixe suficiente para responder às cheias.

Houve e há também a evidência de que a Nova Gestão Pública, com o seu SIADAP e os seus tiranetes nas chefias, corroeu o entusiasmo e capacidade de decisão dos trabalhadores sobre decisões como informação e prevenção sobre eventos extremos, ordenamento do território, infraestruturas, fiscalização de construções, emergência e apoio às populações.

Houve e há a dívida pública que remunera a ociosidade dos banqueiros que vivem do juro e é paga com cada vez piores salários na função pública e a pobreza dos trabalhadores e do país.

Houve e regressa o regime de “lay-off simplificado” inventado durante a crise do Covid para “manter os empregos”, que pôs os fundos da segurança social, portanto os nossos salários indiretos, a pagar os salários dos trabalhadores afetados, salvando os patrões, mas nem sequer impedindo o desemprego, com milhares de trabalhadores despedidos depois de as empresas receberem apoios.

Houve e há tudo isto e muito mais. E agora Montenegro parece que tem um plano: expropriar com indemnização a fixar depois, abater árvores sem parecer de especialistas – um tal “PTRR”, que ainda mal se conhece, mas que, tal como o PRR em vigor, implica mais aumento da dívida, pública e privada.

O que não entra no plano é o que era obviamente necessário.

Fora das opções do Governo ficou a requisição imediata das grandes empresas de construção civil — que a troika ajudou com o confisco de salários em 2011 e andam agora muito ocupadas a construir imóveis de luxo para a especulação. Ficou de fora a evidente necessidade de ter as comunicações, energia e transportes públicos sob administração pública e controlo das contas em acesso aberto ao público.

Uma coisa é certa: até mudarmos de rumo económico e voltarmos a ter serviços públicos robustos, ao serviço do bem comum e com trabalhadores bem pagos, cada catástrofe natural deixará o país “abandonado”, como em Pedrógão, no Elevador da Glória, na Kristin.

Transformar o património da segurança social em capital
ABC da dívida
Transformar o património da segurança social em capital
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Transformar o património da segurança social em capital

O programa para abater os “pilares do declínio” é o programa que Estados e governos europeus aplicam sob a batuta da Comissão Europeia

Adriano Zilhão
ABC da dívida
Economia_DELETE Banca Dívida Pública edicao-2026-02-19 (16)

ABC da dívida

Eis algumas noções básicas sobre dívida, privada e pública, e suas possíveis consequências, no nosso bolso e no condicionamento das políticas do país.

Rui Viana Pereira
Depois da tempestade vem o quê?
categoria-editorial edicao-2026-02-19 (16)

Depois da tempestade vem o quê?

Depois do “comboio de tempestades” que espalhou destruição no país há uma imensa tarefa de reconstrução pela frente. Porém, houve e há outras questões com efeitos devastadores que têm de ser enfrentadas e resolvidas: anos de privatizações, com grandes empresas privatizadas, como a EDP, comunicações e transportes, a subcontratarem a

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