Cortés

“Cortez, the killer” – O imperialismo de ontem e de hoje  Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa
categoria-cultura Neil Young Cortés Conquistadores Incas Astecas edicao-2026-10-08 (44)

“Cortez, the killer” – O imperialismo de ontem e de hoje Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa

CANÇÕES DE LUTA Uma narrativa épica e trágica que até hoje tem muito apelo emocional no mundo inteiro. Envolve amor, inveja, traição, ganância, brutalidade e choque de civilizações, com personagens bem definidos num cenário de grande beleza e enormes proporções. Foi o que inspirou não apenas a imaginação de Neil

Rafael Rosa Hagemeyer
categoria-cultura Neil Young Cortés Conquistadores Incas Astecas edicao-2026-10-08 (44)

“Cortez, the killer” – O imperialismo de ontem e de hoje Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa

CANÇÕES DE LUTA

Uma narrativa épica e trágica que até hoje tem muito apelo emocional no mundo inteiro. Envolve amor, inveja, traição, ganância, brutalidade e choque de civilizações, com personagens bem definidos num cenário de grande beleza e enormes proporções. Foi o que inspirou não apenas a imaginação de Neil Young, mas também de pinturas, séries de televisão e até um teatro musical da Broadway.

Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa

Gravada nos Estados Unidos quando a Guerra do Vietname chegava ao fim, a canção “Cortez the killer” (Cortez, o assassino) estabelecia uma relação entre a guerra imperialista do passado com a do presente. Segundo o autor, a inspiração da letra veio quando ele era adolescente, depois de uma aula de História no ensino médio. Interessante que um jovem dedicado ao rock se inspire no que aprendeu na escola, já que na mitologia relacionada com o género roqueiro, a rebeldia juvenil costumava ser associada a uma aversão ao estudo e à disciplina escolar. 

Se o cantor utilizou o imperialismo espanhol como alegoria, não foi assim que foi compreendido em Espanha, onde a canção chegou a ser proibida nas rádios, pouco antes da morte do ditador Francisco Franco. A ditadura fascista fazia apologia do Império, dos heróis do passado, fossem os guerreiros medievais ou conquistadores da América. Em suma, tratava-se da defesa histórica da monarquia espanhola contra a propaganda de outras potências como a Inglaterra, que em geral exagerou bastante a chamada “lenda negra” da conquista, servindo para esconder as próprias atrocidades e dos seus descendentes na América. 

A canção de Neil Young sofre deste defeito, demonizando um lado e romantizando o outro. Mais tarde ele confessaria que “foi uma combinação de imaginação e conhecimento. O que Cortez representava para mim era o explorador com dois lados, um benevolente, o outro totalmente implacável”. O facto é que a letra do adolescente Neil Yong está repleta de incorreções. A começar pelo título, pois o apelido do conquistador espanhol era Cortés, com “s” e não com “z”. 

Bastante criticada pela imprecisão histórica, a canção de Neil Young comete equívocos até mesmo ao descrever os utensílios dos personagens, pois os espanhóis não chegaram à costa do México em “galeões”, e sim em caravelas. Pior foi dizer que o imperador dos mexicas usava “brincos de pérola”. No México as pérolas só seriam trazidas depois da conquista, através do oceano Pacífico, a partir de um comércio cada vez mais intenso com as ilhas Filipinas. E também não havia “folhas de coca”, pois essa planta é natural dos Andes, na América do Sul, onde se situava o Império Inca – mas essa é outra história.

Finalmente, há uma profunda romantização dos chamados “astecas”, para quem “a guerra nunca foi conhecida”, “as pessoas trabalhavam juntas” e “ofereciam a vida em sacrifício para que outros pudessem seguir em frente”, segundo a letra original. Ao contrário, os mexicas tinham uma sociedade rigidamente hierarquizada e desigual, e escravizaram os seus inimigos. Também faziam “guerras floridas”, onde os prisioneiros eram sacrificados no altar, sendo os seus corações arrancados vivos para serem oferecidos ao “deus beija-flor”, e assim manter o sol nascendo todos os dias, segundo diziam os seus sacerdotes. 

Nada disso impediu a popularidade da canção, que foi um grande sucesso e possui um dos mais longos solos de guitarra de todos os tempos. Além de Neil Young, há mais de dez regravações por diversos artistas, como Jim Jarmusch e David Rawlings entre outros.

Contudo, Hernan Cortés não era apenas um assassino, mas um homem letrado que chegou a estudar humanidades na Universidade de Salamanca e deixou o seu próprio relato da conquista. Segundo historiadores, ele não apenas sabia manejar armas e comandar exércitos, mas também interpretar a mentalidade dos mexicas. Isso foi parte essencial da sua estratégia, exibindo cavalos e disparando canhões não apenas nas batalhas, mas para impressionar os indígenas e atraí-los para alianças. E soube tirar proveito de ser confundido com o deus Quetzalcoatl, que teria atravessado o mar jurando um dia voltar, segundo a mitologia local.

Sem dúvida, a conquista do México tornou-se uma narrativa épica e trágica que até hoje tem muito apelo emocional no mundo inteiro. Envolve amor, intrigas, traição, ganância, brutalidade e choque de civilizações, com personagens bem definidos num cenário de grande beleza e enormes proporções. Foi o que inspirou não apenas a imaginação de Neil Young, mas também pinturas históricas, séries de televisão produzidas pela BBC e pela TVE, e até um teatro musical da Broadway sobre Malinche, a indígena que serviu de intérprete e amante de Hernán Cortés, com quem teve um filho mestiço.

Utilizamos no vídeo apenas antigas imagens produzidas na época colonial. De um lado, os “esconchados” produzidos no México pelos irmãos Juan e Miguel González, que celebram em estilo barroco os factos e personagens desta “epopeia” quase duzentos anos depois do ocorrido. Em contraposição, usamos cenas do “lienzo [tela] de Tlaxcala”, pinturas indígenas que retratam os episódios da conquista a partir da visão dos “tlaxcaltecas”, aliados indígenas dos espanhóis. 

A nossa versão em português da canção de Neil Young procura corrigir os erros históricos e incluir referências aos horrendos sacrifícios humanos através de metáforas como “dar o sangue” e “entregar o coração”... Mas também é importante lembrar que esses espetáculos macabros não eram piores que os Autos de Inquisição promovidos pela Igreja Católica nas praças da Espanha e Portugal, queimando pessoas vivas para que as suas almas fossem purificadas dos seus pecados.

O facto é que, a curto prazo, a chegada dos europeus ao continente americano provocou uma catástrofe ambiental, com a introdução de animais predatórios e doenças desconhecidas, bem como o uso de tecnologias de guerra e de comunicação que provocaram a desordem e o desmantelamento de um mundo que, mesmo não sendo justo, era familiar e compreensível. Por isso, a destruição de modos de vida e a sua subordinação à lógica do capitalismo mercantil significou o apocalipse não só para milhares, mas para milhões de indígenas de todo o continente que morreram neste processo. E isso a despeito de ter havido indígenas e europeus que quiseram impor limites a isso ou organizar outros projetos de sociedade.

Cabe refletir, depois da universalização do sistema capitalista, nas ameaças ambientais e tecnológicas que a humanidade está enfrentando hoje, ou aquilo que o cineasta brasileiro Glauber Rocha certa vez declarou no final da ditadura militar no seu programa de televisão, referindo-se à situação da classe trabalhadora diante dos magnatas do capitalismo: “os índios de hoje somos nós...”. Essa talvez tenha sido a razão do sucesso da canção de Neil Young no final da Guerra do Vietname.

“Cortez, the killer” – O imperialismo de ontem e de hoje  Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa
“Cortez, the killer” – O imperialismo de ontem e de hoje  Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa
categoria-cultura Neil Young Cortés Conquistadores Incas Astecas edicao-2026-10-08 (44)

“Cortez, the killer” – O imperialismo de ontem e de hoje Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa

CANÇÕES DE LUTA Uma narrativa épica e trágica que até hoje tem muito apelo emocional no mundo inteiro. Envolve amor, inveja, traição, ganância, brutalidade e choque de civilizações, com personagens bem definidos num cenário de grande beleza e enormes proporções. Foi o que inspirou não apenas a imaginação de Neil

Rafael Rosa Hagemeyer

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