Cordialidade

A cordialidade para sanar a crueldade Pe. José Luís Rodrigues
categoria-opinião edicao-2026-10-22 (46) Cordialidade Crueldade Bondade

A cordialidade para sanar a crueldade

Nos tempos inquietos que vivemos, onde navegamos sob a incerteza em oceanos de saudosismos totalitários e repressivos, sempre podem ser férteis gestos amistosos de cordialidade.

Pe. José Luís Rodrigues
categoria-opinião edicao-2026-10-22 (46) Cordialidade Crueldade Bondade

A cordialidade para sanar a crueldade

O nosso tempo vai oferecendo contornos estranhos e contraditórios. Os gostos ou não gostos que vamos fazendo converteram-se numa banalidade deveras circunstancial. 

Várias vezes vejo-me a gostar ou a não gostar de radicais trivialidades. Não raras vezes sobre o mesmo assunto, que visto de uma perspetiva dá para gostar, mas o mesmo assunto tratado com outra visão dá para não gostar.

Por causa disto sou levado a pensar que vivemos tempos em que algumas trivialidades são mantidas como devoção sagrada para alimentar a anormalidade que vivemos.

Deve ser por causa desta inconstância temporal que vivemos que as novelas sobre assuntos triviais têm tanta concorrência e tantos aderentes a clicarem gosto ou não gosto. A reflexão, provavelmente, será nula para cada um do gosto ou do não gosto.

Mas esta volatilidade e não permanência em nada que sejam valores e princípios que fazem a diferença arrasta uma série de reciclagens graves no que diz respeito a valores que se consideravam inegociáveis.

Não estamos só a reciclar plásticos, garrafas de vidro e outros resíduos prejudiciais ao meio ambiente. 

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Não vejam nesta minha ressalva qualquer sinal de que não se deva cuidar de reciclar o que descartamos como inútil após utilização. Todos somos excelentes produtores a descartar resíduos; cuidar deles convenientemente e se possível reciclá-los é um grande serviço que se presta à saúde ecológica. 

A par desta necessidade ambiental tem vindo outra, que requer mais algum cuidado. Se uma reciclagem é boa, esta faz-nos despertar a atenção e requer séria reflexão.

Não seria de todo imaginável que após um século tão sangrento como foi o século XX, estivéssemos hoje a ser confrontados com tanta violência, morte e sofrimento em tantas partes do mundo.

Alguns governos atuais, resultantes da mestria no uso do populismo como método, da mentira e do engodo das promessas fáceis, ludibriaram descaradamente os eleitores. 

Não há nada melhor para vencer eleições que o medo do outro, a divisão da sociedade em bons e maus, fascistas e comunistas, fazendo esquecer tudo o que devia fazer dos cidadãos autênticos democratas sem distinção alguma.

Os governos atuais, logo após estarem acomodados nas fofas poltronas do poder, promovem guerras, negócios sórdidos com países dominados por ditadores, empresários e magnatas de índole pouco recomendável. Não admira que se conspurque o Direito internacional e os direitos humanos universais sejam convertidos em letra morta.

As banalidades sustentam a anormalidade. O horror em direto da repressão, da destruição e assassinatos nas televisões alimenta-se sem gestos de cordialidade.

Mas porque estamos nesta senda de reciclar, gostaria de ver retomado da história não apenas o que dela sabemos que resultou em violência e muitas vítimas, mas também gestos considerados triviais que fizeram a diferença e podem hoje também contribuir para práticas saudáveis de fraternidade humana.

O futuro não se alicerça em destroços amassados com sangue, mas com gestos de bondade e de beleza

Na Itália fascista da década de 1920 e na Alemanha nazi de 1930, na União Soviética do Grande Terror de 1937-1938 e nas grandes purgas na senda do comunismo do Leste europeu, foi certo que as pessoas viviam em constante medo da repressão, mas sempre se lembravam de como eram tratadas pelos seus próximos em tempos menos sombrios.

Nesse contexto, onde sobejava a crueldade, foi de extrema relevância um sorriso, um aperto de mão, uma palavra ou uma expressão como saudação. Foram vistos gestos banais, mas que contribuíram para identificar antigos vizinhos, colegas e amigos.

Ao contrário, resultava numa fatalidade quando amigos, colegas e pessoas claramente identificadas desviavam o olhar ou passavam de um passeio para o outro lado da rua para evitar contactos. Nesse contexto, o medo foi ganhando cada vez mais adeptos e com ele bem instalado estava aberto o caminho para a barbárie.

Nos tempos inquietos que vivemos, onde navegamos sob a incerteza em oceanos de saudosismos totalitários e repressivos, sempre podem ser férteis gestos amistosos de cordialidade, mesmo que se revistam de alguma banalidade e até desprezo.

O futuro não se alicerça em destroços amassados com sangue, mas com gestos de bondade e de beleza. O melhor que somos expressa-se com flores, não com armas. 

A cordialidade para sanar a crueldade
A cordialidade para sanar a crueldade Pe. José Luís Rodrigues
categoria-opinião edicao-2026-10-22 (46) Cordialidade Crueldade Bondade

A cordialidade para sanar a crueldade

Nos tempos inquietos que vivemos, onde navegamos sob a incerteza em oceanos de saudosismos totalitários e repressivos, sempre podem ser férteis gestos amistosos de cordialidade.

Pe. José Luís Rodrigues

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