Conversa

Não há bagar
categoria-crónica Cidade Porto Conversa edicao-2026-09-24 (42)

Não há bagar

Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte.

Gi Ribeiro dos Santos
categoria-crónica Cidade Porto Conversa edicao-2026-09-24 (42)

Não há bagar

No Porto e arredores há expressões e palavrões que dizem exatamente o que nos vai na alma.

Aconselho sempre a quem não conhece a cidade a ir a um mercado ou a fazer uma viagem de metro ou autocarro, sem preconceitos.

Já somos gozados pelo sotaque, apontados por dizermos palavrões, mas depois há uma franqueza que não se encontra em muito lado.

Não somos muito “meu querido”, somos mais “bai ber se chove”.

A cidade está a ser transformada numa Disney, o Bolhão passou a ser “não me toques”, sem aqueles repentes das peixeiras, perante um nariz torcido de arrogância: “Que foi madame, o chicharro cagou-se?” A Ribeira do Manitas, do Palavrinhas, do Caganeta, está poliglota. “Tesos do carago, só bebem... Ó bife, I love you ,buy something!"

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Faltam os genuínos dealers com sacos de plástico a dizerem ao pessoal do Meia Cave ou do Aniki Bobó: “Quereis para dormir ou para acordar?" Tudo se sofisticou, até na arte em que instalações do caneco são endeusadas, mas que de vez em quando dão origem a uma crítica demolidora: “Não tenho estudos para isto!” A Casa da Música tem concertos magníficos, é um oásis de cristal, porque o Palácio passou para Super Bock Arena, ao menos que tivesse o nome da nossa Rosinha Mota, que dá aos vitorinos todos os dias na marginal e mantém o ar de fome dos que não beberam leite na primeira infância. Mulher do pobo, sem peneiras, como o “agora que fazer?” do Pedro Abrunhosa, um anel de rubi do Beloso e o nosso sublime Carlos Tê, o grande poeta improvável, que trabalhou num banco e teve de se escapar pela imaginação.

Voltemos ao título do texto.

Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte. Duas senhoras começam a falar, mas uma delas só faz o refrão.

“Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada? Perguntei ao meu Victor e ele disse que era qualquer porra, que não sabia.”

Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada?

A do refrão:

“Ph@€a-se!”

“Olha, eu já lhe disse que não sei cozinhar sementes, bagas, tofus e outras coisas. Seitão?"

“Ph@€a-se!”

“Não tenho bagar, deita-se num colchão no chão, pela minha saúde, estica-se, tem umas bolas pilatos, sabes o que é?"

“Ph@€a-se!”

Toma uns sumos, fala com o rapaz que a treina e eu a querer saber se o senhor vem almoçar, não consigo.”

“Ph@€a-se!”

“Não há bagar! Só te digo que chego a casa cansada e o meu Victor ainda quer festa.”

Saí na Boavista porque tinha mesmo de ir ao Orfeuzinho, mas aquela conversa era de uma riqueza brutal.

Não há bagar!

Não há bagar
Não há bagar
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Não há bagar

Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte.

Gi Ribeiro dos Santos

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