Clima

Coletivo Climáximo, Quebrar em caso de emergência climática
Clima Desigualdade Guerra categoria-um livro edicao-2026-07-23 (37)

Coletivo Climáximo, Quebrar em caso de emergência climática

Entre o colapso climático, a inação política própria de um sistema económico que o sustenta e a ascensão da extrema-direita, Quebrar em caso de emergência climática, escrito a várias mãos pelo coletivo Climáximo

Alice Faro e Santos
Que modelo de desenvolvimento está a orientar a transição climática?
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Que modelo de desenvolvimento está a orientar a transição climática?

Cinco tempestades expõem as fragilidades do território português: transição climática ou modelo de desenvolvimento em contradição?

Teresa Calix
Fúria dos elementos, revolta da população
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Fúria dos elementos, revolta da população

Na última semana, Portugal foi atingido por uma sucessão de eventos climáticos extremos, com especial destaque para a tempestade Kristin. Na região de Leiria, os seus efeitos foram devastadores, comparáveis a um cenário de guerra

Jornal Maio
Kristin; A culpa é do vento?
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Kristin; A culpa é do vento?

Na última semana, Portugal foi atingido por uma sucessão de eventos climáticos extremos, com especial destaque para a tempestade Kristin. Na região de Leiria, os seus efeitos foram devastadores, comparáveis a um cenário de guerra

Jonas van Vossole
Clima Desigualdade Guerra categoria-um livro edicao-2026-07-23 (37)

Coletivo Climáximo, Quebrar em caso de emergência climática

Entre o colapso climático, a inação política própria de um sistema económico que o sustenta e a ascensão da extrema-direita, Quebrar em caso de emergência climática, escrito a várias mãos pelo coletivo Climáximo a convite da editora Tigre de Papel, desafia-nos a olhar de frente as catástrofes climáticas que têm acossado o planeta e a sonhar com o fim do capitalismo como a revolução que ainda pode devolver esperança ao futuro.

A emergência presente no título é um verdadeiro apelo à ação. A emergência em responder ao colapso é real: “A perspetiva de futuro sem uma revolução global resultará no fim do clima estável que permitiu o florescimento da atual civilização humana” (p. 23). 

Numa das suas obras1, Slavoj Žižek cita Orwell a propósito da questão das diferenças de classe (todos nós denunciamos as distinções de classe, mas são muito poucos os que querem seriamente aboli-las) para ilustrar que a possibilidade da transformação é evocada para garantir que a ação transformadora não terá lugar. Nesta linha de pensamento, e muito resumidamente, “a verdadeira coragem não é imaginarmos uma alternativa, mas aceitarmos as consequências do facto de não haver qualquer alternativa claramente discernível, o sonho de uma alternativa é um sintoma de cobardia teórica, funcionando com um fetiche que nos impede de pensarmos até ao fim o beco sem saída da nossa situação”. Este livro, Quebrar em caso de emergência climática, transporta-nos claramente até aqui, dá-nos essa imagem. E fá-lo quer no plano geral – “Não há mais tempo para a ilusão de que governos, instituições e empresas estão a fazer algo que não seja levar-nos para o fundo” (p. 9) –, quer no plano concreto: “Os Estados Unidos, o maior produtor mundial de petróleo e gás, o segundo produtor mundial de carvão e o maior emissor de gases com efeito de estufa da história, abandonam o acordo, em 2025, pela segunda vez” (p. 10). “Depois de invadir a Venezuela, Trump anunciou “o império fóssil vinha para tomar as reservas petrolíferas e determinar o rumo da sociedade da Venezuela” (p. 10).

Com este cenário, a verdadeira declaração subversiva de independência parte do pressuposto de que “pensar é aprender de novo a ver e a dirigir a atenção, a renomear a realidade”2, uma condição suficiente mas também necessária para ler este livro, que nos transmite uma sinceridade comovente ao reconhecer a responsabilidade individual e que, com toda a clareza e sem eufemismos, renomeia a realidade através de três pontos: o sistema capitalista provocou a crise climática; as elites estão a executar uma guerra sem precedentes; qualquer pessoa viva tem o dever moral, material e histórico de agir para parar esta guerra. Ou seja, o caos climático e a guerra não surgem só do ponto de vista interseccional, mas da própria essência e o nosso dever moral deve impelir-nos à ação. É, pois, esse convite que não só preenche as páginas deste livro, mas nos faz levantar da cadeira e sair a correr. Não para fugir, mas para agir. Aliás, ao introduzirem-se, habilmente, relatos de ação direta, a visualização mental da possibilidade de ação é inequívoca.

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Este livro possui, também, uma importante dimensão educativa. Se existe um campo em que a promessa de transformação é mais reiterada, é precisamente na educação, apresentada como motor de mobilidade social, como condição de emancipação, como resposta às desigualdades. E, no entanto, o que se observa é adestramento do seu papel. A Educação Ambiental é atirada para o desenvolvimento de competências utilitárias, para a adaptabilidade, no fundo, para a autorresponsabilização. O coletivo Climáximo, com esta escrita de vertente pedagógica, alia rigor conceptual e inteligibilidade, binómio próprio de quem domina o tema. O livro fornece toda a lexicologia fundamental para pensarmos no sentido de renomear a realidade: gases com efeito de estufa (GEE) , aquecimento global, o que é o clima, orçamento de carbono, neutralidade carbónica, ou a importância do fim dos combustíveis fósseis até 2030, a emergência! Cimenta as definições em dados concretos e ilustrados: “A Terra já aqueceu e arrefeceu antes, assim como variaram também os níveis de GEE na atmosfera, mas é precisamente pelo facto de as alterações no clima terrestre nunca terem sofrido alterações tão grandes em tão pouco tempo que estamos perante um evento histórico dramático” (p. 28). Faz conexões com a nossa vida atual: “Há ainda importantes impactos sociais e económicos, com consequências diretas e indiretas nos meios de subsistência e condições de povos inteiros, e exprimindo‑se frequentemente através de um aumento do custo de vida diretamente relacionado com a escassez (a ‘mão invisível’ do mercado a funcionar: menos comida implica comida mais cara). Pois sim, a crise climática já está a ter impacto na tua vida, mesmo que ainda não tenhas parado um pouco para pensar nela” (p. 35). Dá-nos uma visão utilitarista3 da ação em termos de ativismo, visível na forma como comparam o ganho da ação individual com a luta ativista. Num dos momentos do livro sustentam que um “monge franciscano climático” (p. 113), mesmo adotando um estilo de vida extremamente sóbrio, reduziria cerca de duas toneladas de emissões relativamente à média portuguesa, enquanto uma pessoa envolvida na luta antipetróleo poderia contribuir para evitar emissões significativamente superiores. 

Tudo isto pode parecer uma distopia – exemplo que dão no livro, com o filme Don’t look up (Não Olhem para Cima) –, mas não é. “Foi por isso mesmo que estas elites apostaram na extrema-direita como a camada violenta que garantirá a continuação da exploração, cada vez mais exacerbada, até chegarmos a pontos de colapso” (p. 41). Na mesma linha de Žižek, o Climáximo adverte para o aceleracionismo que convém à extrema-direita “Eles vieram para manter a exploração, para a acelerar até ao último momento” (p. 10). Esta leitura encontra eco nas reflexões de Naomi Klein, que alerta para a existência de um “sobrevivencialismo monstruoso e supremacista” por parte dos magnatas da tecnologia. Por sua vez, Leonor Canadas, do coletivo Climáximo, relembra, numa sessão de apresentação, que “estamos mais próximas de ser refugiadas climáticas do que ser bilionárias”. A célebre frase “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo” introduz uma secção preciosa de desconstrução da inevitabilidade da vida no seio do sistema capitalista e deste éter invisível, bem como a responsabilidade sobre a perpetuação da crise climática, não esquecendo que “o modelo energético fóssil tornou‑se a espinha dorsal da dominação colonial” (p. 78).

A formulação da frase “a guerra mata e é por isso que o debate sobre a guerra é tão intenso”4 pode ajudar a compreender a força com que Quebrar em caso de emergência climática evoca as vítimas do inferno climático e descreve a crise atual em termos de guerra. Define-se urgência suprema como o momento em que os valores mais profundos de uma comunidade e a sua própria sobrevivência coletiva se encontram sob ameaça iminente, exigindo decisões extraordinárias. É precisamente nesse estado de exceção que o coletivo Climáximo situa a emergência climática, e a sua conexão com Gaza. Gaza interpela-nos porque ali se revela, em toda a sua nudez, uma forma de poder que ameaça reorganizar o mundo inteiro, uma política de desenraizamento5 da própria condição humana, ou seja, uma espécie de vida pós-humana. É esta dissociação de nós mesmos que surge no livro e da qual emerge a referência à crise dos cuidados, conceito de Nancy Fraser, “como uma crescente dificuldade de dar resposta às necessidades de cuidados e de reprodução das comunidades” (p. 90). Pensar a interrupção seria, então, perguntar-nos que laços, que memórias e que formas de enraizamento continuam a ser capazes de impor um limite à força. No documentário, Com a Alma na Mão, Caminha, Fatem diz-nos que “antes da guerra só tirava fotografias a coisas belas, agora é só destruição. Mas é uma forma de ainda procurar vida no meio da morte”.

Há esperança? Quebrar em caso de emergência climática responde sem hesitação: a revolução. “É impossível descrever o que acontecerá sem usar a palavra revolução. As petrolíferas sabem‑no, os governos sabem‑no, os ultrarricos sabem‑no, e já é mais que tempo de nós, classe trabalhadora, o sabermos” (p. 98). David Harvey afirma que o capital nunca cairá por si mesmo. Haverá que empurrá-lo. É nesta convicção que o coletivo Climáximo apresenta um Plano de Desarmamento e um Plano de Paz. De que precisamos mais?


1Žižek, A Coragem do Desespero, Relógio d’Água, 2017.
2Amador Fernández-Savater, La batalla del pensamiento, NED Ediciones, abril de 2026.
3Na perspetiva utilitarista de justiça a deliberação de uma ação a realizar tem em vista o maior alcance de resultados.
4Michael Walzer no livro A Guerra em Debate, Cotovia 2004.
5Amador Fernández-Savater.

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Que modelo de desenvolvimento está a orientar a transição climática?

Cinco tempestades expõem as fragilidades do território português: transição climática ou modelo de desenvolvimento em contradição?

ilustração: www.instagram.com/ricardomiguelferreira/

As tempestades que atingiram Portugal em janeiro e fevereiro evidenciaram fragilidades acumuladas no território, expondo vulnerabilidades infraestruturais, ambientais e sociais perante fenómenos climáticos extremos. Estes episódios e a crescente instabilidade climática reforçam a urgência de repensar os modelos de planeamento e de gestão territorial, colocando no centro do debate adaptação e resiliência. Obrigam, também, a questionar decisões que continuam a promover a artificialização do solo, a fragmentação ecológica e a fragilização de sistemas naturais, produzindo cenários de risco e de desastre, em vez de fortalecer a capacidade coletiva de resposta.

Nos últimos meses, decisões governamentais relacionadas com expropriações para grandes infraestruturas, expansão de projetos energéticos e autorização de abate de milhares de árvores protegidas reacenderam uma questão essencial: que modelo de desenvolvimento está a orientar a transição climática? A transição energética é indispensável – parques solares e eólicos são fundamentais para reduzir emissões e dependência de combustíveis fósseis –, mas quando implica a artificialização extensiva de solos agrícolas férteis, a destruição de árvores adultas ou a fragmentação de habitats, instala-se um paradoxo inquietante: descarbonização à custa da degradação ambiental.

Quando a transição energética implica a artificialização extensiva de solos agrícolas férteis, a destruição de árvores adultas ou a fragmentação de habitats, instala-se um paradoxo inquietante: descarbonização à custa da degradação ambiental.

O abate de milhares de sobreiros e azinheiras dificilmente é compensado por plantações jovens noutro local. Árvores com décadas de crescimento desempenham funções ecológicas – sombra, evapotranspiração, fixação de carbono, habitat – que não são replicáveis no curto prazo. A lógica de compensação quantitativa ignora a dimensão temporal e a complexidade dos ecossistemas.

Importa, por isso, questionar a forma como é invocado o ‘interesse público’. A sustentabilidade não pode ser entendida de modo setorial, mas, sim, sistémico e intergeracional, reconhecendo que cada contexto, processo ou decisão contribui para o equilíbrio do sistema global de correlações em que se inscreve. O debate não opõe progresso a conservação, mas questiona se o modelo de desenvolvimento atual é coerente com os objetivos climáticos que proclama ou, antes, se perpetua lógicas de crescimento e fragmentação do passado sob novas justificações?

Num cenário de crise climática e de crescente exposição a fenómenos extremos, o progresso territorial deve assentar na preservação de ecossistemas autóctones, na renaturalização e na restauração ecológica (rewilding), condições decisivas para a mitigação (captura e armazenamento de carbono), a adaptação (conservação de solos e resiliência de ecossistemas) e a biodiversidade. Simplificar procedimentos administrativos, sob o argumento da urgência económica, não pode significar fragilizar avaliações ambientais ou limitar a participação pública, instrumentos criados precisamente para garantir que decisões de curto prazo não comprometam o equilíbrio territorial de longo prazo.

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Naturalizar os territórios implica reconhecer o valor intrínseco dos ecossistemas, não apenas o seu valor instrumental, e pressupõe, também, planear cidades onde a natureza seja infraestrutura essencial. A impermeabilização excessiva do solo urbano e a persistência de modelos de intervenção ultrapassados comprometem a drenagem natural e aumentam o risco de cheias e ilhas de calor. Cidades com mais árvores, solos permeáveis e linhas de água integradas em sistemas naturais são mais resilientes, saudáveis e qualificadas. A integração de soluções baseadas na natureza contribui para a estratégia estruturante de adaptação climática, representando, simultaneamente, uma oportunidade de qualificação.

Portugal assumiu compromissos de neutralidade carbónica, restauração ecológica e proteção da biodiversidade. Cumpri-los exige coerência política entre discurso e prática, entre metas e decisões concretas de ordenamento.

As políticas públicas devem garantir a integração de uso do solo, biodiversidade e adaptação climática. Em vez de as tratar separadamente, definindo soluções rápidas que sacrificam património natural, as medidas a implementar devem privilegiar a reabilitação urbana, a ocupação de solos já artificializados e a densificação inteligente das cidades, promovendo modelos energéticos distribuídos.

A transição climática exige legitimidade social: transparência, participação efetiva e equilíbrio entre interesses. Existem alternativas técnicas capazes de conciliar desenvolvimento e preservação ecológica. A questão central permanece: a transição climática será o motor de uma visão estratégica sistémica e integradora que se traduza num novo modelo territorial mais resiliente ou continuará a ser conduzida por lógicas que reproduzem as fragilidades que as tempestades tornaram impossíveis de ignorar?

categoria-reportagem Clima Infraestruturas Kristin edicao-2026-02-12 (15)

Fúria dos elementos, revolta da população

Mais uma semana de chuva, vento, inundações, estradas cortadas, derrocadas, entre elas a da ministra da Administração Interna, símbolo da incapacidade do Governo Montenegro, e as populações afetadas continuam em boa parte entregues a si próprias e aos grupos de entreajuda que se têm constituído, aos esforços de bombeiros, proteção civil, aqui e ali da GNR e de militares. Mantemos a reportagem feita pelo Maio no concelho da Marinha Grande e acrescentamos o testemunho atual do leiriense Micael Sousa sobre a situação no seu concelho.

categoria-política Clima Infraestruturas Kristin edicao-2026-02-05 (14)

Kristin; A culpa é do vento?

Na última semana, Portugal foi atingido por uma sucessão de eventos climáticos extremos, com especial destaque para a tempestade Kristin. Na região de Leiria, os seus efeitos foram devastadores, comparáveis a um cenário de guerra: dezenas de milhares de casas ficaram sem cobertura, habitações pré-fabricadas implodiram, mais de 800 postes de muito alta tensão colapsaram, o estádio municipal foi parcialmente desmantelado.

Uma semana depois, grande parte da população continua sem eletricidade, água ou comunicações móveis; as escolas permaneceram encerradas durante dias. E isto falando apenas da cidade de Leiria, sem mencionar localidades ainda mais fustigadas e isoladas, como Vieira de Leiria ou Pedrógão Grande. Perante a dimensão da destruição, é quase um milagre que o número de vítimas mortais tenha sido relativamente baixo.

Mas não nos enganemos: a culpa não é do vento.

Os chamados “desastres naturais” nunca são apenas naturais. Aliás, a própria “Natureza” moderna, entendida como algo separado do “homem” ou da “civilização”, é uma invenção histórica do capitalismo. Essa separação serve um propósito muito concreto: designar como externo aquilo que estaria fora do controlo e da responsabilidade humana e, ao mesmo tempo, legitimar o seu tratamento como recurso gratuito, passível de colonização e exploração em nome do lucro. Esta imagem falsa — que apresenta a crise como algo inevitável ou exterior — limita a nossa capacidade de ação e naturaliza a inação perante catástrofes que se apresentam como fatalidades.

É por isso fundamental perceber que os desastres chamados “naturais” são sempre, acima de tudo, desastres sociais e políticos. Isso torna-se evidente tanto nas suas consequências como nas suas causas. Eventos catastróficos deste tipo afetam as populações de forma profundamente desigual: penalizam sobretudo quem vive em territórios mais expostos, com infraestruturas precárias, serviços públicos fragilizados e menor capacidade de resposta. Um episódio climático extremo não tem o mesmo impacto sobre quem vive em habitações sólidas e seguras e sobre trabalhadores empurrados para habitações pré-fabricadas, ou obrigados a deslocar-se e a trabalhar durante a noite em condições meteorológicas adversas.

Mas também as próprias causas destes desastres estão longe de ser neutras. As alterações climáticas, amplamente documentadas pelo IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), tornam estes fenómenos cada vez mais frequentes e intensos, refletindo interesses económicos e políticos que colocam o lucro acima da vida. Não se trata de acaso, mas de um modelo económico predatório assente na extração contínua de recursos, na expansão da petroquímica, da agroindústria intensiva e dos transportes fósseis. A isto soma-se a urbanização desordenada, a desflorestação e o abandono do território. A responsabilidade recai sobre um sistema capitalista que coloca o lucro acima da vida — e sobre os decisores políticos que, durante décadas, governaram em função desses interesses.

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Perante a catástrofe, o Estado demonstrou a sua falência. Em vez de uma resposta rápida, coordenada e à escala nacional, assistimos a um Governo ausente, substituindo ação por visitas simbólicas, declarações vagas e selfies. No primeiro dia após o desastre, foram enviados apenas quatro militares para apoiar a Proteção Civil no distrito de Leiria. Só cinco dias depois se decidiu reforçar os meios de forma minimamente adequada. A ministra da Administração Interna admitiu desconhecer planos de prevenção e reação, classificando o ocorrido como um “fenómeno pedagógico” — uma expressão que procura normalizar aquilo que é, na verdade, incompetência estrutural. Décadas de austeridade e privatizações deixaram um Estado incapaz, descapitalizado e sem meios para proteger quem mais precisa.

A fragilidade ficou particularmente clara no setor energético. A destruição da rede elétrica evidenciou a ausência de uma política séria de investimento no reforço, fiscalização e adaptação das infraestruturas às novas condições climáticas. Em vez disso, empresas como a EDP e a REN priorizam a distribuição de dividendos aos acionistas — entre eles a China Three Gorges, a State Grid of China e grandes fundos financeiros internacionais. Coloca-se aqui uma questão simples: quando a população não paga a fatura da eletricidade, o fornecimento é cortado de imediato. Mas quando a empresa falha durante dias, deixando milhares sem luz e sem respostas, onde está a responsabilidade? A segurança das populações, a soberania energética e a resiliência das infraestruturas não podem ser sacrificadas em nome da maximização do lucro. Foi isto que nos trouxeram as privatizações: responder aos acionistas em vez de responder às necessidades coletivas.

O mesmo se aplica às comunicações, que colapsaram quase por completo. A fragmentação entre operadoras, a falta de redundância e a ausência de coordenação pública revelam um setor privado incapaz de garantir um serviço essencial em momentos críticos.

A culpa não é do vento. É de um sistema que transforma fenómenos naturais em tragédias sociais.

Perante o colapso do Estado, foi a auto-organização popular que respondeu. Voluntários distribuíram comida, cobertores e materiais, demonstrando que a solidariedade de classe salva vidas. Este processo tem uma dimensão pedagógica: ensina práticas de cooperação, planeamento coletivo e consciência crítica. A história mostra-o: em 1967, as chuvas intensas que causaram mais de 700 mortos na região de Lisboa tornaram-se um momento central de politização, quando milhares de estudantes se mobilizaram no terreno enquanto o Estado fascista se limitava à repressão e a censura impedia os meios de comunicação de divulgar as dimensões da tragédia.

Mas é igualmente fundamental reconhecer os limites do voluntariado numa sociedade altamente especializada. As pessoas não sabem, nem podem, reconstruir telhados ou redes elétricas em segurança. Os riscos são reais: mais de 600 pessoas já deram entrada nas urgências do Hospital de Leiria com ferimentos associados a trabalhos improvisados de limpeza e reconstrução. A reconstrução exige conhecimento técnico, coordenação e meios produtivos ao serviço da população. Não faz sentido que milhares de trabalhadores da construção civil regressem amanhã à construção de hotéis, enquanto há famílias sem casa, sem eletricidade e à mercê das próximas chuvas.

Onde está a requisição civil? Aquela que surge sem hesitação para limitar direitos laborais, mas desaparece quando é preciso garantir abrigo, reparações e dignidade. É urgente requisitar meios da construção civil, mobilizar trabalhadores qualificados e requisitar alojamento turístico para realojar os desalojados.

A culpa não é do vento.
É de um sistema que transforma fenómenos naturais em tragédias sociais.

Coletivo Climáximo, Quebrar em caso de emergência climática
Que modelo de desenvolvimento está a orientar a transição climática?
Fúria dos elementos, revolta da população
CAPA14
Kristin; A culpa é do vento?
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Jonas van Vossole

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