Cidade

Não há bagar
categoria-crónica Cidade Porto Conversa edicao-2026-09-24 (42)

Não há bagar

Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte.

Gi Ribeiro dos Santos
Bairros problemáticos Rui Pinto
categoria-opinião Cidade Habitação edicao-2026-02-19 (16)

Bairros problemáticos

O preço elevado da construção que verificamos atualmente não tem origem na qualidade da matéria, nos saberes de quem a transforma, ou em salários decentes para quem participa no ordenamento ou no seu processo construtivo.

Rui Pinto
categoria-crónica Cidade Porto Conversa edicao-2026-09-24 (42)

Não há bagar

No Porto e arredores há expressões e palavrões que dizem exatamente o que nos vai na alma.

Aconselho sempre a quem não conhece a cidade a ir a um mercado ou a fazer uma viagem de metro ou autocarro, sem preconceitos.

Já somos gozados pelo sotaque, apontados por dizermos palavrões, mas depois há uma franqueza que não se encontra em muito lado.

Não somos muito “meu querido”, somos mais “bai ber se chove”.

A cidade está a ser transformada numa Disney, o Bolhão passou a ser “não me toques”, sem aqueles repentes das peixeiras, perante um nariz torcido de arrogância: “Que foi madame, o chicharro cagou-se?” A Ribeira do Manitas, do Palavrinhas, do Caganeta, está poliglota. “Tesos do carago, só bebem... Ó bife, I love you ,buy something!"

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Faltam os genuínos dealers com sacos de plástico a dizerem ao pessoal do Meia Cave ou do Aniki Bobó: “Quereis para dormir ou para acordar?" Tudo se sofisticou, até na arte em que instalações do caneco são endeusadas, mas que de vez em quando dão origem a uma crítica demolidora: “Não tenho estudos para isto!” A Casa da Música tem concertos magníficos, é um oásis de cristal, porque o Palácio passou para Super Bock Arena, ao menos que tivesse o nome da nossa Rosinha Mota, que dá aos vitorinos todos os dias na marginal e mantém o ar de fome dos que não beberam leite na primeira infância. Mulher do pobo, sem peneiras, como o “agora que fazer?” do Pedro Abrunhosa, um anel de rubi do Beloso e o nosso sublime Carlos Tê, o grande poeta improvável, que trabalhou num banco e teve de se escapar pela imaginação.

Voltemos ao título do texto.

Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte. Duas senhoras começam a falar, mas uma delas só faz o refrão.

“Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada? Perguntei ao meu Victor e ele disse que era qualquer porra, que não sabia.”

Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada?

A do refrão:

“Ph@€a-se!”

“Olha, eu já lhe disse que não sei cozinhar sementes, bagas, tofus e outras coisas. Seitão?"

“Ph@€a-se!”

“Não tenho bagar, deita-se num colchão no chão, pela minha saúde, estica-se, tem umas bolas pilatos, sabes o que é?"

“Ph@€a-se!”

Toma uns sumos, fala com o rapaz que a treina e eu a querer saber se o senhor vem almoçar, não consigo.”

“Ph@€a-se!”

“Não há bagar! Só te digo que chego a casa cansada e o meu Victor ainda quer festa.”

Saí na Boavista porque tinha mesmo de ir ao Orfeuzinho, mas aquela conversa era de uma riqueza brutal.

Não há bagar!

categoria-opinião Cidade Habitação edicao-2026-02-19 (16)

Bairros problemáticos

O preço elevado da construção que verificamos atualmente não tem origem na qualidade da matéria, nos saberes de quem a transforma, ou em salários decentes para quem participa no ordenamento ou no seu processo construtivo. Grande parte deste bolo é artificial, alimenta agiotas, intermediários, certificações e especuladores.

A serpente convenceu-os a comer a maçã proibida e logo foram expulsos do paraíso. No paraíso não precisavam de casa, dado que uma atmosfera amena dispensava o abrigo ou condições de conforto excepcionais. Se no paraíso não necessitavam de casa, dispensavam ainda agricultores, cozinheiros ou médicos, já que no paraíso os frutos caíam-lhes das árvores sobre a boca, da mesma forma que não consta que no paraíso alguém ficasse doente. Eva e Adão representam o primeiro caso de expulsão do lugar onde viviam, motivado pela transgressão dos valores morais divinos, momento equiparável aos que hoje não conseguem ser proprietários ou suportar os valores da renda de uma casa. Adão e Eva, fora do Éden, tiveram de procurar abrigo: primeiro numa caverna e depois, fartos da escuridão, com os troncos e ramagens que tinham à mão construíram a primeira cabana, momento tectónico que marca o aparecimento da arquitetura. Uns milénios mais tarde, nas visões protestantes puritanas, a maçã volta a servir de metáfora, mas desta vez a alusão é um pouco diferente: centra-se nos perigos da maçã desalinhada dentro do cesto, capaz de contaminar as demais maçãs, tenras, que de forma individual aspiram a ser ricas, tão ricas como as maçãs brilhantes que aparecem nos canais cor-de-rosa. Nascidos na cabana ancestral, Abel e Caim vieram a marcar a tensão fatal entre os possuidores de terra e os alienados da mesma. Abel representa o pastor nómada e Caim o agricultor proprietário que de forma violenta domesticou a terra e ergueu muros para a delimitar.

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Nos milénios intermédios, entre os dias da criação e os dias de hoje, tivemos ajuntamentos e múltiplas organizações: nómadas, pequenos povoados, cidades erguidas, palácios erguidos sobre elas, depois conquistadas ou destruídas, segundo um palimpsesto constante. Se os mitos nos ajudam a entender parte deste processo, os vestígios arqueológicos dos antigos assentamentos humanos são autênticos documentos que prestam informações vitais sobre a ocupação do território e sobre a organização política das comunidades humanas. Numa abordagem sobre este tema, em O princípio de tudo, um livro escrito entre David Graeber e David Wengrow (Bertrand, 2022), ressaltam dados importantes sobre os caçadores-recolectores da pré-história, comunidades que alternadamente viviam entre a viagem e a prática agrícola sedentária. De alguma forma desmontam a linha histórica que aprendemos na escola, que resume a revolução agrícola a um único episódio. Graeber e Wengrow dizem-nos ainda que muitos dos pulos civilizacionais foram dados em comunidades mais colaborativas, algo que os cientistas que estudam primatas já detectaram há muitos anos: comunidades de macacos territoriais e competitivas tendem a destruir-se, ao passo que as comunidades mais colaborativas e matriarcais tendem à prosperidade social.

As formas de habitar decifradas pela história e escavadas pela arqueologia dizem-nos muito sobre os ciclos políticos, sendo curioso comparar os totalitarismos do passado com o totalitarismo financeiro que comanda o mundo dos nossos dias, cada vez mais desigual, digital e distópico. A apropriação da cidade segundo a condição económica dos mais fortes é hoje demasiado assumida, sendo impossível negar que a cidade de hoje esteja a gerar fenómenos de gentrificação e distúrbios ambientais. Num interessante trabalho designado A Cidade Neoliberal (Deriva Editores, 2018), Ana Estevens fala-nos de uma cidade participada e em permanente conflito: de ideias, diferenças ou modos de estar, versus uma cidade neoliberal violenta: “homogénea, submissa, segura, a-conflituosa, competitiva, e em que não se conhecem, vivem alheados”.

A cidade atual não se deixa explicar pelo que observamos em domínios tão concretos como o seu ordenamento.

Os mitos lá tentam explicar o mundo e a cidade atual não se deixa explicar pelo que observamos em domínios tão concretos como o seu ordenamento: condomínios de luxo blindados ou bairros problemáticos construídos sobre áreas de elevado valor ambiental para os ricos; áreas disléxicas e desagarradas para uma população há muito degradada. Em Portugal temos hoje mais de treze mil pessoas que vivem nas ruas (na Europa, cerca de 1,2 milhões), número muito superior quando comparado com a crise da heroína dos anos 80. Nos EUA, país que nos vendeu o modelo do homem bem-sucedido, montado num descapotável devorador de dólares, temos hoje quarenta milhões de pobres, condicionados no acesso a uma casa, educação plena dos seus descendentes ou direito ao elementar acesso aos cuidados de saúde. Foi essa face da América, do sonho, onde tudo é imenso, incluindo a casa, a piscina e os clichés de Hollywood, que participou no desenho da paisagem da velha Europa: cidades temáticas rodeadas de vias rápidas entre shoppings e não-lugares logísticos. Se nos arredores das nossas cidades isso parece evidente, na província vemos o mesmo fenómeno: supermercados de alumínio pechisbeque (iguais em todo o lado), construídos pelas empresas de retalho, numa permanente competição entre si, sem qualquer relação com os contextos locais, assoladores do comércio local.

Por seu turno, o preço elevado da construção que verificamos atualmente não tem origem na qualidade da matéria, nos saberes de quem a transforma, ou em salários decentes para quem participa no ordenamento ou no seu processo construtivo. Grande parte deste bolo é artificial, alimenta agiotas, intermediários, certificações e especuladores. Neste regime de eficácia, excluem-se as artes, a arquitectura, os experimentalismos ou a utopia de um mundo melhor. Tudo tende à normalização, onde a IA e os BIM’s (Building Information Modeling /Modelagem da Informação da Construção) parecem convergir, prometendo mais celeridade e a superação da participação humana na ética de construir ou fazer cidade.

Não há bagar
Bairros problemáticos
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Não há bagar

Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte.

Gi Ribeiro dos Santos
Bairros problemáticos Rui Pinto
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Bairros problemáticos

O preço elevado da construção que verificamos atualmente não tem origem na qualidade da matéria, nos saberes de quem a transforma, ou em salários decentes para quem participa no ordenamento ou no seu processo construtivo.

Rui Pinto

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