Antigamente

Lugares da Beira
categoria-crónica edicao-2026-10-08 (44) Beira Antigamente Infância Campo

Lugares da Beira

Os dias pareciam mais longos, uma hora no campo era maior que na cidade. O país era muito subdesenvolvido, mulheres novas sem dentes, com grandes carregos à cabeça, descalças, homens precocemente envelhecidos, crianças a trabalhar no campo…

Gi Ribeiro dos Santos
categoria-crónica edicao-2026-10-08 (44) Beira Antigamente Infância Campo

Lugares da Beira

O mês de julho estava a acabar e, como era habitual, ia para Lagares da Beira para casa da minha avó. Eu, o meu irmão e a Albertina.

Ainda era a casa antiga, uma maravilha, grande e com quintal, lojas, tanque enorme, assim como o tanque do Neves, só menos fundo.

Esperavam-nos incêndios, mortes nos poços, muita brincadeira e um tempo vagaroso.

Os dias pareciam mais longos, uma hora no campo era maior que na cidade.

No rés-do-chão da casa funcionava o consultório do meu tio, pelo que cedo tive contacto com as doenças e acidentes do meio rural.

O país era muito subdesenvolvido, mulheres novas sem dentes, com grandes carregos à cabeça, descalças, homens precocemente envelhecidos, crianças a trabalhar no campo, uma diferença abissal comparando com os dias de hoje.

Esperavam-nos incêndios, mortes nos poços, muita brincadeira e um tempo vagaroso.

Tinham correio, mas não sabiam escrever, tinham médico, mas não condições para manter uma vida saudável, tinham farmácia, mas poucas posses para os medicamentos.

Não havia reforma alguma para os trabalhadores rurais ou domésticos. Começou a emigração a salto, com o risco da fuga ao serviço militar e à mobilização para as colónias.

Eu não tinha ainda qualquer formação política, mas reparava.

A escola não era democrática e o abandono escolar era mais que normal. Tinham filhos que os iriam ajudar no trabalho de sol a sol.

Paredes meias com a casa, havia o mundo maravilhoso da loja da Sra. Quinhas, que vendia tudo ou quase tudo. Eu ia para lá e brincava a empregada de balcão.

Não era competente.

– Menina preciso de adubo para as batatas.

Adubo?

– Sra. Quinhas, este senhor é consigo.

Ela colaborava sempre e ria-se.

– Preciso de inseticida.

– Sra. Quinhas, este senhor é consigo.

Eu não percebia nada da vida real das pessoas do campo. Ainda não sabia.

No ano seguinte já aviava remédio do escaravelho sem tibiezas.

Havia o livro dos fiados.

Eu avisava sempre a Sra. Quinhas de que aquele livro era mau para o negócio.

Eu era forreta e havia um princípio em minha casa, nunca comprar nada a prestações.

No fim do verão já media tecidos, já estava uma especialista e os clientes já se tinham habituado à menina na loja.

Foi a minha aprendizagem de transações e todos os dias fazia contas ao apuro.

Nunca fui chamada para o governo, não sei porquê, porque aquela loja era um exemplo de boa gestão.

*/Banner Maio*/

O meu país não me compreendeu, mas hoje em dia agradeço ter um cadastro limpo.

Se me fossem lá pedir cimento para uma rotunda, eu diria, se fosse a dona, que não tinha.

Aliás, não sei se toda a gente anda com a cabeça à roda, sem norte, por causa das rotundas. Sugiro um estudo sério sobre o assunto, sem dinheiro do PRR.

Olho para a televisão e vejo Luís Neves a escrever nuns papéis.

Não será nos papéis, mas aos papéis.

De repente fiquei totalmente desconcentrada. Desculpem.

Lugares da Beira
Lugares da Beira
categoria-crónica edicao-2026-10-08 (44) Beira Antigamente Infância Campo

Lugares da Beira

Os dias pareciam mais longos, uma hora no campo era maior que na cidade. O país era muito subdesenvolvido, mulheres novas sem dentes, com grandes carregos à cabeça, descalças, homens precocemente envelhecidos, crianças a trabalhar no campo…

Gi Ribeiro dos Santos

SUBSCREVE O MAIO

E recebe a nossa newsletter todas as semanas gratuitamente.