
Há um projeto mineiro que poderá transformar profundamente uma região onde estão as minhas raízes familiares: Peniche, Baleal e Ferrel. Descobri-o através de um vídeo de João Manzarra e fui investigar. Os números são alarmantes. A concessão C-185, denominada Royal China Clay, foi atribuída pelo Estado Português à empresa portuguesa Motamineral em 10 de maio de 20231. O projeto, submetido a avaliação de impacte ambiental2, prevê três explorações a céu aberto em Serra d’El-Rei, próximas de Casais de Mestre Mendo e Óbidos. As minas ainda não estão abertas.
Os números impressionam. A concessão abrange 107,7 hectares. Os três núcleos ocuparão 10,9, 28,5 e 12 ha, respetivamente. São 514.000 m2 de intervenção direta, com escavações que poderão atingir 46 metros de profundidade, o equivalente à altura de um prédio de cerca de 15 andares. Prevê-se uma produção anual de 569.100 toneladas: 31.800 de caulino, 270.000 de areias lavadas e 267.300 de argilas comuns3. Durante 20 anos e meio! Foram inventariados 662 sobreiros, dos quais 471 poderão ser afetados. Mas a paisagem é provavelmente a menor das minhas preocupações.
O que acontecerá à água e à estabilidade dos terrenos?
A exploração situa-se na bacia hidrográfica da ribeira de São Domingos, associada à albufeira que abastece Peniche. A Quercus questionou a suficiência dos estudos das águas superficiais e subterrâneas4.
Escavações desta profundidade exigem avaliar alterações dos níveis freáticos, drenagens, subsidência, fissuração e instabilidade dos terrenos.
Não são riscos imaginários.
Em Amyntaio, na Grécia, a atividade mineira esteve associada a rebaixamentos do nível freático que atingiram cerca de 70 metros, subsidência e fissuras. Em 2017, um deslizamento movimentou aproximadamente 80 milhões de metros cúbicos de materiais5.
Em Fushun, na China, foram documentados assentamentos, fissuras e danos em edifícios e infraestruturas próximos de uma exploração6.
Não significa que acontecerá o mesmo em Peniche. Significa que estes fenómenos existem e exigem estudos rigorosos.
O limite da escavação não é necessariamente o limite dos seus efeitos
Que habitações, estradas e terrenos agrícolas poderão ser afetados?
E depois existe a saúde pública. Sílica cristalina respirável, sabem o que é?
São partículas microscópicas, nomeadamente de quartzo, que podem penetrar profundamente nos pulmões.
A exposição excessiva pode causar silicose, doença pulmonar irreversível, associada a doença pulmonar obstrutiva crónica, tuberculose, doença renal e cancro do pulmão.
A Agência Internacional de Investigação do Cancro classifica a sílica cristalina inalada em determinadas exposições ocupacionais como carcinogénica para os seres humanos, Grupo 17.
A Quercus criticou a ausência de monitorização e quantificação específica deste contaminante no estudo ambiental.
Quem garante a qualidade do ar que as populações respirarão durante vinte anos?
Acrescentemos os milhares de camiões necessários ao transporte dos materiais, poeiras, ruído, vibrações, emissões e desgaste das estradas.
E chegamos a outra pergunta fundamental.
As câmaras municipais de Peniche e Óbidos emitiram pareceres desfavoráveis. A Quercus e a Zero levantaram sérias objeções.
Quanto vai o Estado ganhar com esta exploração?
Quanto receberá o Estado em contrapartidas, impostos e outras receitas? E que parte desse dinheiro será investida na região que suportará os impactos?
Que benefícios concretos terão as populações? Quem pagará eventuais danos? Que garantias financeiras existem para recuperar o território?
As câmaras municipais de Peniche8 e Óbidos9 emitiram pareceres desfavoráveis. A Junta de Freguesia de Atouguia da Baleia também. A Quercus e a Zero levantaram sérias objeções10.
Se as autarquias estão contra, por que não são as suas preocupações decisivas nesta discussão?
E de quem são os terrenos? A concessão não torna automaticamente a empresa proprietária da superfície. A legislação admite servidões e, mediante requisitos legais, expropriações por utilidade pública11.
A consulta pública decorreu entre 22 de julho e 1 de setembro de 2026. Em pleno verão.
Quantos habitantes souberam sequer que isto estava a acontecer?
Não afirmo que haverá uma catástrofe. Exijo que todos os riscos sejam avaliados antes.
Uma empresa pode terminar a exploração e partir. As populações ficam.
471 sobreiros. 514 mil m2. 569 mil toneladas anuais. Vinte anos e meio.
Não são pormenores. As pessoas que ali vivem também não.
Antes de chamarmos a isto progresso, precisamos de perguntar:
Quanto vale aquilo que está debaixo da terra e quanto vale aquilo que arriscamos perder à superfície?
1 https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/contrato-extrato/311-2023-223317405
2 https://siaia.apambiente.pt/ProcessoAIA/Detalhes/3911
3 https://siaia.apambiente.pt/AIADOC/AIA3911/resumonaotecnico202672011527.pdf
4 https://quercus.pt/blog/2026/08/28/exploracao-mineira-peniche/
5 https://www.mdpi.com/2073-4441/15/8/1474. estudo “Hydrogeological Hazards in Open Pit Coal Mines–Investigating Triggering Mechanisms by Validating the European Ground Motion Service Product with Ground Truth Data”, publicado na revista científica Water.
6 https://www.mtxb.com.cn/en/article/id/51559892-6c6d-4d65-8577-34d4dd1d1e6a. Estudo “Locational characteristics of damage on buildings around the West Open pit Mine”, publicado no Journal of China Coal Society,
7 https://www.cdc.gov/niosh/silica/about/index.html; https://www.cdc.gov/niosh/silica/symptoms/index.html
8 https://www.cm-peniche.pt/municipio/comunicacao/noticias/todas-as-noticias/noticia-89/municipio-de-peniche-emite-parecer-desfavoravel-a-exploracao-mineira-de-caulino-no-concelho
9 https://www.jornaldeleiria.pt/noticia/obidos-e-peniche-dizem-nao-a-mina-a-ceu-aberto-na-serra-del-rei
10 https://rr.pt/noticia/amp/pais/2026/08/26/zero-contra-exploracao-mineira-a-ceu-aberto-na-regiao-do-oeste/483131/
11 https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/decreto-lei/30-2021-162940682