Retrato da França
1 - O ressurgimento de uma doença de outros tempos: o escorbuto ou a peste do mar
O ressurgimento de doenças como o escorbuto, a tuberculose e a sarna em países ricos revela a crescente desigualdade na repartição da riqueza gerada pelos trabalhadores.
Cristina Semblano
Economista
O escorbuto é uma doença provocada por uma carência profunda e prolongada em vitamina C que tinha sido praticamente erradicada no século XX nos países industrializados, principalmente na Europa. O escorbuto pode ser responsável, entre outros sintomas, por dores ósseas intensas e uma fraqueza muscular invalidante, hemorragias da pele e das gengivas e uma alteração do estado geral, podendo, na ausência de tratamento (absorção de vitamina C) levar à morte. Segundo um estudo levado a cabo por uma equipa de pediatras hospitalares franceses em colaboração com investigadores do INSERM e publicado em 6 de dezembro de 2024 na revista científica inglesa The Lancet Regional Health – Europe, o reaparecimento desta doença é preocupante, revelando as possíveis consequências do aumento da precariedade socioeconómica na situação nutricional das crianças em França.
Abrangendo dois períodos distintos, pré-pandemia (2015-2020) e pós-pandemia (2020-2023), o estudo integrou factores socioeconómicos como a malnutrição severa ou o índice de preços ao consumo. O aumento de casos de crianças hospitalizadas com escorbuto desde 2015 (888 casos diagnosticados no conjunto do território francês) foi mais importante no período pós-pandémico: entre 2020 e 2023, o aumento acumulado foi de 34,5% tendo mesmo atingido 200% nas crianças com idade compreendida entre 5 e 10 anos. Incidindo apenas nas crianças hospitalizadas, o número de casos diagnosticados pode não ser significativo do total de casos de escorbuto em França.
Porque é que, em meados da segunda década do século XXI, uma doença do passado ressurge naquela que é considerada a sétima potência mundial e a segunda da União Europeia? Se o escorbuto era conhecido como a doença dos corsários ou a peste do mar, é porque ela atingia os marinheiros, privados durante as longas travessias do mar, de fruta e legumes. Uma outra população atingida era a população carcerária – donde a expressão ainda hoje em voga em França, de “levar laranjas aos reclusos” – pelas mesmas razões: a carência de vitaminas e, neste caso de vitamina C. É a razão pela qual os autores procuraram relacionar a evolução do escorbuto com a da malnutrição severa e esta com a inflação, incidindo em particular sobre os bens alimentares e, no seio destes, sobre os alimentos frescos.
Sem que se possa estabelecer uma correlação a 100%, na medida em que o fenómeno poderá também decorrer de maus hábitos alimentares, o certo é que, durante o mesmo período, a malnutrição severa aumentou de 20% em França. No caso das crianças hospitalizadas após março de 2020, 22,6% sofriam de malnutrição severa, 4% de disfuncionamentos autísticos e 5% de anorexia, ou seja, patologias que também podem explicar uma nutrição deficiente. Posto isto, é difícil não ver neste aumento da malnutrição os efeitos devastadores da inflação que assolou a França e, para além desta, uma grande parte do mundo no pós-pandemia, devido à desorganização das redes de abastecimento, num primeiro tempo, e à guerra na Ucrânia e às sanções à Rússia, num segundo tempo, com o consequente aumento dos preços da energia (e outras matérias-primas), difundindo-se ao conjunto das economias.
Por fim e mesmo depois do aumento de preços decorrente destes factores ter sido absorvido, continuaram a verificar-se evoluções exponenciais de preços, particularmente no que concerne aos bens alimentares e de primeira necessidade, reflectindo a voracidade das cadeias de produção e distribuição para manter ou elevar as margens. Neste contexto e na ausência de indexação dos salários à inflação, verificou-se uma quebra dos rendimentos reais dos trabalhadores, mais importante no caso dos de baixos rendimentos, onde o peso da alimentação na estrutura dos consumos é mais elevado. Não é, por conseguinte, de admirar que o consumo de bens alimentares tenha caído em 2023 de 11,4% em volume e que, em 2024, oito franceses em cada dez ganhando o salário mínimo ou um rendimento inferior declare não ter meios para alimentar correctamente os filhos.
O escorbuto não é a única doença do passado a cujo ressurgimento assistimos em França. De há alguns anos a esta parte vimos surgir outras doenças que tinham sido erradicadas nos países desenvolvidos, como a tuberculose e a sarna. À semelhança do escorbuto, trata-se do que podemos chamar doenças da miséria, que, surgindo em países ricos, revelam a crescente desigualdade que preside à repartição da riqueza gerada pelos trabalhadores.