Desde que aquela máxima cristã – “Primeiramente a Deus” – fora abolida de sua vida, tornara-se uma pessoa mais livre. O mundo deixara de ser preto ou branco, bom ou mau. Havia muitas outras cores e nuances, havia mediações, já não havia nem céu e nem inferno. Embora não tenha sido fácil a passagem de um mundo a outro, o fato é que, para além do seu mundo, descobriu haver outro, ou outros modos de apreensão do mesmo mundo.
Até então, ela estivera sempre rodeada de cristãos, fossem colegas, amigos ou familiares. Todos os seus sentimentos eram aprisionados por um Deus onipresente, que invadia até (para não dizer predominantemente) a sua sexualidade. À volta, na sua solitária luta contra a pobreza, a cada ínfima conquista, estava alguém a lhe lembrar que devia agradecer a Deus. Ah, como Deus é bom! Você não percebe como Ele é bom pra você?
Sério?, perguntava-se.
Onde estava esse Deus que não lhe permitia guardar nenhuma daquelas fantasias que o mercado fomenta nas crianças? Nem Papai Noel, nem coelhinho da páscoa, nem fadas, nem príncipe encantado. Nada. Bolo de aniversário e parabéns nem pensar. Frescura de gente rica, diziam-lhe. Exercitaram nela a objetividade comum a quem nasce pobre, mas queriam lhe imprimir uma subjetividade que as suas experiências não sustentavam. Desde a infância, a vida fora tão escassa de romantismo que não ter-se tornado amarga já era quase um milagre. Como milagre não existe, talvez o romantismo do escritor José de Alencar e a literatura de cordel do seu avô respondessem pela sua capacidade de sonhar. Porque sim, ela ainda sonhava e não era graças a Deus.
Impingir a ideia de Deus aos pobres é mais uma maldade dos ricos. Ora, por que fazer um desgraçado de um trabalhador acreditar que há, no plano divino, um ente acima das classes, uma idealização de Estado universal, que zela por todos, sem qualquer discriminação, quando a realidade de quem é pobre está a negar essa afirmação cotidianamente? Por que esse ser de bondade permite que só uns poucos nasçam ricos e graças a essa condição estejam autorizados a explorar indefinidamente quem nasceu pobre?
Para nascer rico é preciso ter pais ricos. “Enriqueceram pelo trabalho”, dizem os herdeiros. Ninguém declara que as propriedades dos seus antecessores foram adquiridas mediante grilagem de terras e exploração do trabalho alheio, dentre outros roubos. Fácil compreender, assim como não há prostituta velha, não há avô ladrão.
Certo é que, se alguém deve ter um Deus a quem agradecer, essa gratidão só se justifica quando advinda dos nascidos ricos. Afinal, não fizeram nenhum esforço para ter o mundo a seus pés. Moradia, educação, saúde, cultura, lazer, fantasias, tudo lhe foi dado. De graça. Como se caídos do céu. Enquanto isso, a criança pobre, ao contrário, para ficar em um só item da sua vida plena de escassez, convive com a ideia de um Papai Noel que não sabe onde ela mora.
Uma criança rica jamais teria dúvida em exercitar a tradição de colocar o sapato na janela, para receber um presente de Natal. Bem diferente da criança pobre que ela foi e que não fazia isso por duas certezas: por saber que o seu código de endereçamento postal não constava das entregas do Papai Noel e, pior, pelo risco de levarem um pé do seu único par de sapatos. Não seria ela a acrescentar às alcunhas já existentes e nada elogiosas a de saci Pererê. Afinal, o risco nem se justificava. Tudo que desejava e que precisava não podia ser trazido pelo mensageiro de São Nicolau, mas tão somente por aquele outro Deus, que dia a dia estivera a descobrir, mas ainda não se atrevia a declarar.
As histórias infantis costumam ter rainha, rei, palácios, grandes festas, maravilhosos figurinos e negrinhos e negrinhas a cozinharem, a servirem à mesa, a abanarem leques…
O leitor já ouviu falar de Saci Pererê? Não por acaso, trata-se de um “negrinho” que, dentre outras versões lendárias, teria perdido uma perna dançando capoeira. Ele podia ser branco e ter perdido a perna num acidente de carruagem, ou numa queda do seu cavalo alazão. Mas não. O folclore, como outras expressões culturais, é cheio de personagens e histórias que ratificam a divisão de classes, entre outras, e reduzem o negro a papéis secundários, figuração que nem nome precisa ter. Note-se que as histórias infantis costumam ter rainha, rei, palácios, grandes festas, maravilhosos figurinos e negrinhos e negrinhas a cozinharem, a servirem à mesa, a abanarem leques para os seus senhores, a desamarrarem o espartilho da princesa, a tirarem as botas do príncipe, a sofrerem abusos do senhor e, por fim, como ninguém é de ferro, algumas vezes, a cantarem, dançarem, lutarem, nos interstícios da submissão que, não por acaso, também inclui um Deus.
A percepção adquirida não a fez uma pessoa feliz, apenas lúcida. Ela tem certeza de que há um Deus, este universal, único, poderoso, ao qual todos estão obrigados a fazer vênia. Na sua imensa sabedoria, esse Deus não dispensa e até incentiva o culto aos deuses que povoam as diferentes crenças, porque estes, em geral, o legitimam. A ausência de gratidão é uma ameaça. Cuida-se, portanto, não só para que a condição de saci seja aceitável, como, ainda, para que se preserve nessa gente de uma perna só a delicadeza do agradecimento.
Ora, gratidão por quê? Talvez porque gratidão e liberdade se oponham. O Deus Mercado não quer homens e mulheres livres, mas gratos. Mas, convenhamos, se gratidão é um sentimento a ser cultivado pelas dádivas recebidas, o verbo agradecer só se justifica no léxico dos ricos. Entretanto, agradecer a Deus é muito mais recorrente entre os pobres. Os trabalhadores agradecem por ter um trabalho. Agradecem a Deus e ao empregador. Ou a Deus e ao Mercado. Ou a Deus e ao Capitalismo. Juntos no mesmo altar, a serem adorados, quando deviam ser incompatíveis.
Até mesmo entre trabalhadores esclarecidos parece ser demasiada ousadia discordar dos “insondáveis mistérios da fé”. A crença em Deus é uma espécie de prisão, na qual o sujeito se coloca e opta por jogar a chave fora. Trabalhadores, na sua maioria, ao celebrar uma conquista começam por “Primeiramente a Deus”. Nem sempre honesto, o agradecimento parece guardar um medo real de que algo lhe seja suprimido se não reconhecer publicamente a substancial ajuda de Deus. Ora, é suposto Deus saber que o agradecimento é falso.
Maria Augusta Tavares
Investigadora do trabalho