Portugal e estas eleições, ou um país doente
Vivemos, argumenta o autor, “o momento mais sério e perigoso dos últimos 50 anos” porque “os Portugueses só obedecem a uma lei: ao seu individualismo, ao seu egoísmo primário”.
António Carlos Cortez
Professor de Português e de Literatura Portuguesa, poeta, ensaísta e crítico literário
Das quatro, uma: ou será Presidente um homem sem ideias, defensor da guerra (os filhos dos pobres, claro, esses é que serão enviados para combater em nome do “interesse nacional”, qual?), um militar “perito em generalidades”, como bem disse António Filipe, ou, muito pior e sempre pior será elegermos como Presidente André Ventura, o qual representa o pior da educação em Portugal. O duce do cheguismo, o oportunista das benesses que a democracia lhe deu (desde a tese de doutoramento ao seu lugar como deputado) é o espelho fiel da falência educativa em toda a sua extensão. A ser eleito, ou a passar à segunda volta, o facto será este: Portugal está profundamente doente. Doente de alienação, de estupidez, de ressentimento, de raiva e de ignorância. Ventura, o usurpador, aproveita-se da indigência dos políticos actuais, da cobardia dos que, com poder e saber, deveriam enfrentá-lo: políticos independentes, intelectuais empenhados na defesa da democracia, gentes (que ainda as há!) apostadas em não deixar passar nem mais um facínora fascista.
André Ventura, a ser Presidente, será o inimigo número um dos Portugueses, não tenhamos dúvidas. O mais irado e demagogo político português é, na senda dos fascistas de boa cepa – um Mussolini, um Franco, um Trump –, um mentiroso compulsivo, um manipulador da juventude profundamente desconhecedora da nossa história. Explora como nenhum outro a pobreza deste país de baixos salários; mente sobre a questão dos ciganos, dos negros e dos desvalidos de uma sociedade pobre, a nossa; mente sobre os imigrantes, espoliados da sua dignidade, vítimas da exploração no Alentejo e no Douro, no Algarve e em Lisboa e no Porto. Quando foi que nos tornámos vampiros e racistas, preconceituosos e hipócritas como Ventura?
Ventura mente sobre o contributo destes povos explorados em Portugal. Basta perguntar: sem eles como estaria a nossa Segurança Social? Sem eles, quem andaria nas motas, noite dentro, servindo pizas? André Ventura é alguém absolutamente nocivo para o país. Pelo ódio que destila, pela ignorância que manifesta quanto às funções presidenciais. Como modelo de comportamento e de valores (que os não tem), André é um veneno letal: que exemplo é o seu como deputado, líder de um partido, candidato seja ao que for? Em boa verdade, as gerações que têm hoje entre os 15 e os 25 anos, que vêem em Ventura? Nada mais do que isto: o rosto da raiva que eles, jovens, sem expectativas e roubados de todos os ideais, fazem seu. É triste que Abril seja traído em Janeiro e sejam os jovens, mas também muitos reformados e pensionistas, muitos desempregados, a pensar que uma dor de cabeça se cura cortando a cabeça. É triste e é sintomático.
Portugal é hoje um território que se encaminha, a passos largos, para um modo trumpista de viver, violento e acrítico.
Vivemos, portanto, o momento mais sério e perigoso dos últimos 50 anos porque, aburguesados, europeizados no pior sentido, ou americanizados em sentido ainda pior; educados, primeiro pelas televisões e de há anos a esta parte pela tentacular ditadura das redes sociais, os Portugueses só obedecem a uma lei: ao seu individualismo, ao seu egoísmo primário. Pais e mães não são os principais educadores dos mais jovens, mas sim as fake news, o circo montado no sistema educativo que, das escolas às universidades, permite que a indigência, a boçalidade, a incuriosidade e a ignorância grassem um pouco por todo o lado.
Tenho dito e escrito, repetido sem cessar (e não estou isolado nessa constatação): Portugal, dominado por um sistema multimediático que estupidificou e infantilizou os adultos e bestializou os mais novos (a Geração Millenium, a Geração Z), é hoje um território que se encaminha, a passos largos, para um modo trumpista de viver, violento e acrítico. Estamos a poucos anos (dois, três?) de nos tornarmos ingovernáveis. Os factos sociais confirmam-no: violência doméstica, violência nas escolas e universidades; corrupção no seio do Governo (Montenegro evitando uma CPI); crimes de colarinho branco, ingerência do MP, verdadeira máquina torcionária de governos legítimos, redes de tráfico humano; a acelerada degradação da imagem e símbolo do Presidente da República; uma juventude indigente, brutalizada, insensível, sem leituras, sem saber escrever, sem saber, de facto, ler e interpretar a realidade.
Mas… e Marques Mendes e Cotrim? É fácil: Farão a tão almejada revisão da Constituição de 1976, trairão o 25 de Abril e não terão quaisquer complacências: liberalizar, flexibilizar as leis do trabalho, facilitar o despedimento colectivo sem justa causa, impedir as greves, asfixiar a democracia e estar ao serviço dos senhores da guerra (a NATO e o directório Berlim-Bruxelas), eis o que prometem Marques Mendes e Cotrim, tudo em nome de um neoliberalismo de alpaca. Cotrim, com ar sorridente e impante de vaidade, e Mendes, no seu ar de sacristia, só nos levam a um lugar: à cepa torta e à conivência com a direita fascista que o PS, diga-se, na sua política de tolerância, deixou passar. Jorge de Sena, em 1974, perguntou: “E agora, Portugueses?” Perdemos a coragem e a lucidez?
*O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.