O voto para a Presidência da República é, acima de tudo, um voto na pessoa que se apresenta ao país. Não é apenas um exercício formal, exige conhecer o percurso, a visão e a filosofia política de quem se propõe representar todos os Portugueses. É a partir dessa leitura que cada eleitor decide quem melhor encarna os valores que considera essenciais para o futuro coletivo.
Numa altura em que a demagogia está ao rubro na sociedade, encontro em Jorge Pinto um candidato que assume uma esquerda progressista sem receios, distinta de uma esquerda cansada ou defensiva. Sabia que seria alvo de desvalorização, tanto pela sua juventude como pela sua posição política num tempo em que o debate público se tornou mais ruidoso, polarizado e extremista.
Paradoxalmente, são precisamente esses fatores que me levam a olhar para a sua candidatura com interesse. A juventude, quando aliada a responsabilidade e preparação, é sinónimo de visão. É a capacidade de olhar para Portugal com ambição, recusando o imobilismo e acreditando que o país pode ser mais justo, mais moderno e mais coeso.
A política, para mim, deve ser um espaço de responsabilidade e compromisso com o bem comum. Ao analisar o programa e a postura pública de Jorge Pinto, encontro alguém que encara o cargo de Presidente da República com seriedade, num momento em que a confiança nas instituições está fragilizada. Uma das qualidades que mais valorizo é a sua honestidade intelectual, comunica com clareza, sem dramatismos, sem populismos fáceis e com respeito pela inteligência de quem o escuta. A forma como se expressa é rigorosa, cuidada e estruturada, o que revela preparação e respeito pelo país.
Há ainda um ponto que considero determinante, a independência. O Jorge Pinto “não tem dívidas para pagar”; com isto refiro-me à ausência de compromissos políticos assumidos previamente com estruturas, grupos ou interesses que, noutros casos, condicionam decisões e limitam a liberdade de atuação. A Presidência da República exige precisamente o contrário, exige alguém capaz de decidir com rigor, sem pressões externas, sem favores acumulados, sem amarras herdadas. A independência não é um detalhe, é uma condição para o exercício pleno e responsável do cargo.
O seu programa apresenta uma visão para Portugal que considero necessária. Na mensagem de Ano Novo, defendeu que 2026 deve ser o ano em que finalmente se garante habitação digna a preços acessíveis, um dos maiores desafios sociais do país. Sublinhou também a urgência de reforçar o Serviço Nacional de Saúde, lembrando que a organização do SNS exige coragem política e uma liderança que não esteja presa a compromissos partidários ou interesses instalados. Para quem trabalha diariamente pela dignidade e pelos direitos das pessoas, esta prioridade é incontornável.
A sua proposta coloca ainda a cultura no centro da qualidade de vida e reforça a importância da coesão territorial, defendendo um país que não se divide entre centros urbanos e regiões desertas esquecidas. Esta visão de equilíbrio é essencial para quem pretende unir e não fragmentar.
Outro ponto que me aproxima da sua candidatura é a sua perspetiva europeísta e progressista. Defende um Portugal aberto, moderno, comprometido com a democracia, a diversidade e a solidariedade, capaz de enfrentar desafios globais com responsabilidade. Esta visão corresponde ao país que acredito que devemos construir, um país que não teme o futuro e que assume o seu papel na Europa.
O programa apresenta ainda uma forte componente ecológica e de justiça social, reconhecendo que os desafios climáticos e sociais do século XXI exigem políticas ambiciosas e uma defesa firme da dignidade humana. Esta combinação de responsabilidade ambiental e compromisso social traduz a ideia de política que considero necessária.
Por tudo isto, o meu apoio a Jorge Pinto é um gesto de coerência com os valores que defendo. É escolher alguém que representa uma forma de estar na vida pública que considero essencial, estar com seriedade, livre de amarras, comprometimento com a dignidade e com a construção de um país mais justo. É a escolha de um futuro que acredito possível.
Estávamos a 30 de abril de 2009. O Parlamento aprovava a revisão da lei do financiamento dos partidos políticos e das campanhas eleitorais. A lei aumentava para o dobro os limites de dinheiro que os partidos poderiam receber em “dinheiro vivo”, em quotas e contribuições. Estava aberto o caminho para o aumento da corrupção. A nova lei recebeu o voto favorável de todas as bancadas parlamentares. Apenas um deputado, um só, isolado, votou contra: António José Seguro. Sozinho, mas do lado certo da barricada. Os valores da ética e da seriedade, neste como noutros momentos, sempre marcaram a vida pública de António José Seguro.
Outra das marcas de António José Seguro é a dignidade com que sempre desempenhou as suas múltiplas funções públicas. Quando, em 2014, abandonou a liderança do Partido Socialista, saiu sem alarido, não criou qualquer fação de oposição interna. Nem sequer se refugiou num qualquer cargo nacional ou internacional, recusou sinecuras e quaisquer prebendas que a sua posição privilegiada lhe poderia conferir. Dedicou-se à vida profissional, privada e familiar. Em suma, abandonou o poder e tornou-se um cidadão comum. Poucos o fariam. Só alguém que interioriza e pratica na sua vida a ética republicana o poderia conseguir.
Por fim, destaco a sua postura tranquila nas intervenções públicas. Nunca trouxe para o debate uma postura demagógica e tonitruante.
Fiquei, pois, entusiasmado quando soube que António José Seguro decidira candidatar-se a Presidente da República. Seguro conseguiu até hoje fazer uma carreira política sem se deixar contaminar pela promiscuidade entre política e negócios. É um candidato livre, sem amarras partidárias, sem cumplicidades com grupos económicos, sem dependências de corporações. Apesar da sua longa carreira pública, é um homem livre.
Se for eleito Presidente, terá coragem para enfrentar os interesses instalados mais perversos. É um defensor indómito da democracia e da liberdade. E será um Presidente tranquilo, tão necessário nestes dias em que a sociedade se encontra crispada e ameaçada por populismos, pelas mentiras e por falsas narrativas. Já deu suficientes provas de integridade política, serenidade dialogante e independência para que mereça o voto de confiança dos Portugueses.
Por todas estas razões, aceitei prontamente o convite que me formulou para integrar a sua Comissão de Honra. Em António José Seguro votaria em qualquer circunstância. Tem o perfil adequado que defendo para o cargo da mais alta magistratura da nação. Tem a postura política (no sentido mais nobre do termo) que aprecio no exercício da Presidência. Espero que os eleitores consigam ver que, nestas eleições, votamos uma ideia de País, mais do que num ou noutro programa eleitoral. Quem melhor defende o País democrático e republicano, íntegro, conciliador e determinado, é Seguro.
Desejo a António José Seguro uma excelente campanha e o melhor. Tem o meu apoio.
O mundo enfrenta já hoje e nos anos mais próximos o espectro da guerra. Não adianta olhar nem assobiar para o lado: travar os promotores da guerra, e à cabeça destes os mais poderosos, EUA e NATO, é a tarefa primordial. Portugal e a Europa precisam de desatrelar-se da NATO. Não há nenhuma “ala esquerda” da NATO, apenas capituladores e colaboracionistas. Qualquer candidato que não tenha isto claro está aquém do necessário.
Perante a perspetiva de guerra, comercial ou com bombas, e os consequentes entraves à circulação mundial de mercadorias, EUA e Europa tratam de trazer de volta para os seus territórios parte da produção que deslocalizaram para países do “terceiro mundo” com salários mais baixos. Mas para que os lucros não sofram, é preciso impor, com “pacotes laborais”, condições de trabalho mais precárias aqui mesmo. É para isso que servem a direita e a extrema-direita: para trazer para cá o Bangladesh ou o Paquistão, os salários e as condições de trabalho de miséria desses países. Para enfrentar essa ofensiva precisamos de sindicalistas combativos como André Pestana demonstrou ser à frente do STOP e uma esquerda de cara lavada e “folha limpa”, não comprometida com imperialismos nem com regimes ditatoriais que afastaram milhões de trabalhadores, intelectuais, cientistas, da própria ideia de socialismo.
Numa segunda volta, em face do que se perspetiva, o meu voto será quase certamente um voto contra. Então se o candidato fascista estiver presente, votarei obviamente contra ele. Contra o fascismo, votaria até numa mula, se fosse preciso.
Assistimos a uma progressiva inclinação para a direita sob a orientação do jornal Observador, da pressão do Chega e das suas agendas que arrastam todo o espetro político nessa direção. Isso verificou-se, com estrondo, por exemplo, nas cerimónias do 25 de Novembro, na legislação cada vez mais determinada pela agenda extremista radical do Chega, na lei da nacionalidade e no pacote laboral que conduziu a uma greve geral mobilizadora.
Neste contexto a esquerda estava a ficar quase submersa no seu receio de ser acusada de radicalismo — o que acaba por acontecer de qualquer modo — e de ter de se apresentar sempre sob o manto da moderação que a ameaça descaracterizar e falsificar. Trata-se de uma reação momentânea perante o “fantasma” de Pedro Nuno Santos e dos seus erros eventuais. Demitiu-se, mas a sua sombra paira por cima e não me lembro de outra fase na qual tantos cronistas ou comentadores de direita se tivessem multiplicado tanto em conselhos ao PS e depois em apelos ao voto em A. J. Seguro. Defendem tudo, aconselham tudo, menos “radicalismo”.
Catarina Martins geriu a apresentação da sua candidatura com bastante tempo, esperou que aparecesse uma candidatura capaz de agregar um leque de apoios mais amplo (por exemplo, Sampaio da Nóvoa) e só depois avançou com a sua, ao contrário de outras que se apressaram a ocupar um lugar muito cedo.
Com a sua experiência política tem a grande vantagem de não ter receio de defender posições de esquerda, ao mesmo tempo que mantém uma lucidez cosmopolita face a sectarismos passados: perfila-se no combate às desigualdades crescentes em todo o mundo, no combate ao enriquecimento dos hiper-ricos nunca visto desde a “belle époque” (cf. Thomas Piketty); assume a necessidade de maior contribuição fiscal deste sector privilegiado, da banca e dos seus lucros excessivos, para equilibrar as finanças dos Estados; defende a segurança social e as pensões; defende o papel da arte na vida dos países, proveniente das várias identidades culturais que os definem como plurais; propõe a luta pela valorização da arte e dos artistas como forma de enriquecer a qualidade de vida dos cidadãos, oferecendo a cultura em toda a sua magnífica diversidade.
A extrema-direita deve ser combatida com firmeza e convicção, sem medos nem tibiezas. Catarina Martins debateu e denunciou as suas demagogias, as suas falsificações históricas; propõe-se criar zonas de reflexão autocrítica para evitar as armadilhas da retórica enganadora, coisa em que nem sempre estivemos de acordo.
Julgo que esta espécie de vergonha de assumir posições de esquerda, que persegue qualquer proposta, por moderada que seja, imediatamente qualificada de radical, como se viu na candidatura de Carlos Moedas, seguindo as opiniões cínicas de cronistas ou comentadores das direitas, não conseguirá atrair os agora dissidentes ou os desencantados com os momentos em que as esquerdas falharam aos seus seguidores históricos. A longa história do século passado está recheada de episódios desse tipo. A esquerda pode ser plural e diversa desde que seja capaz de se aliar nos momentos cruciais de conjunturas desfavoráveis, na minha opinião. Já o fez algumas vezes em Portugal nas disputas eleitorais onde tal se mostrou necessário. A tarefa presente é imensa. Mas Catarina Martins revela coragem, segurança e determinação. Demonstrou enorme inteligência e capacidade de combate face à violência verbal e ao ataque pessoal do candidato da extrema-direita e contra os rolos compressores que capturaram e dominam os media: “a máquina que faz ganhar as direitas”, segundo o sociólogo Yves Citton. Nos seus contactos de rua escolhe aqueles que mais precisam de ouvir as suas opiniões. Merece o nosso apoio porque traz para o debate eleitoral temáticas que sem ela não estariam presentes. Finalmente merece o meu apoio porque nos últimos anos tanto falamos de música como falamos de política o que, em última análise, vai dar ao mesmo.
Na Redação discutimos como abordar este tema e acabámos por decidir (em vez de, por exemplo, entrevistar candidatos) convidar apoiantes de diversos candidatos que correspondem a opções dos nossos membros a explicarem sucintamente as razões que os levam a votar nessas pessoas. Mais fácil é perceber as razões para não haver aqui quem defenda outros candidatos: nem fascistas, nem “facilitadores de negócios”, nem defensores de “pacotes laborais” para piorar as condições de vida dos trabalhadores têm aqui tribuna.
A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os dois meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram a um lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em duas metades, diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. As duas eram totalmente belas. Mas carecia optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Carlos Drummond de Andrade Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002
Segundo o dicionário da Porto Editora, eis as principais correspondências deste nome feminino: 1. ato ou efeito de extrair, de tirar; 2. Arrancamento; 3. operação cirúrgica para remoção de um órgão ou de um objeto estranho que se tenha alojado no corpo; 4. Sorteio. Em termos militares também se vulgarizou para designar a saída planeada ou forçada de militares de uma área de operações.
EM NOVILÍNGUA:
O rapto do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos EUA começou por ser designado por este termo neutro, extração. Também foram usados termos como captura, ou, em inglês, seizing. Terá havido indicações de certos meios de comunicação para usar captura, ou seizing, mas nunca rapto ou sequestro. Também assim se molda a “opinião pública”. ASP
Para o padrão da classe média brasileira eu moro numa casa pequena. Casa de solteira: sem quarto de hóspede. Um lugar bonito, colorido, acolhedor, cheio de personalidade. Pensado, planejado, devia estar pronto, acabado, uma vez que já vão cinco anos dessa nossa história. Não exatamente. Para ser precisa, metade Intermares¹ metade Paço de Arcos, portanto, dois anos e meio. Moro sozinha, sou cuidadosa. É raro alguma coisa ser danificada. E quando a obsolescência planejada atua, imediatamente conserto ou substituo o produto. Então, por que não raro, malgrado o pequeno espaço, está sempre a surgir a necessidade de um novo item? Consumismo? Compensação?
Tenho pensado sobre essa “necessidade”. Na busca por resposta, socorri-me dos mais belos versos que conheço sobre a casa, a nossa casa².
Eu não saberia dizer quantas vezes já reli esse precioso livrinho que tem por objeto a casa. Com muito gosto, eu o transcreveria inteiro, porque todo ele é poesia genuína. “Se você deseja com seu coração ou se é com seu sonho – sua solidão – o que mais almeja, se é com seu corpo e sua peleja que realmente quer fazer sua casa, não importa a forma que ela possa ter, pois a casa é para ser sentida, para ser vivida, para ser amada e ser possuída, não para se ver.”
O poeta está a nos dizer que a casa é uma coisa viva. Nas suas palavras, tudo na casa é levitação, magia, sonho. A casa sente, a casa escuta, a casa se comove. A casa não é apenas morada. Embora, em termos objetivos, eu viva dentro dela, a minha casa vive dentro de mim. Ela me espera, ela me revela e nada diz mais de mim que a minha casa.
Lembro de ter passado uns dias em Santiago do Chile, onde fui hóspede de uma velha senhora, talvez menos velha do que eu, hoje, registro que faço, porque só agora posso comparar a casa dela à minha, para concluir por uma diferença fundamental entre ela e eu. Nas fotos – havia muitas espalhadas por toda a casa –, os figurinos exibidos pelas pessoas e os lugares ao fundo permitiam supor que ela pertencera a uma classe social abastada. A culinária também indicava gosto refinado. Uma alcachofra assada com ervas, que me foi servida por ocasião da minha chegada, era, ao mesmo tempo, simples e elegante. Não havia dúvida que a prática de alugar um quarto em casa era recente. Em contraste com o passado que a casa me sugeria, chamava atenção o estado do fogão, da geladeira, dos pratos, das panelas, dos talheres.
A casa sente, a casa escuta, a casa se comove. A casa não é apenas morada.
Por mais empobrecida que ela estivesse, continuava morando num endereço de gente rica. No lugar dela, eu teria encontrado uma forma de eliminar a precariedade que a cozinha anunciava. Logo a cozinha, espaço de criatividade, merecia melhor tratamento. Não concebo a ideia de usar pratos rachados, com as bordas desgastadas, panelas com fundos descascados, talheres desemparelhados, toalha desbotada. Os alimentos devem ser servidos em pratos que os realcem. As bebidas, em copos adequados. A tessitura da magia que a casa guarda passa por essas escolhas. E não deve ser privilégio de rico. Há feiras de produtos usados em ótimo estado de conservação, onde pagamos uma ninharia para garantir a beleza da casa, se a mesma for prioridade.
Da mulher em si eu não lembro. Não lembro o nome dela ou como era o seu rosto. À época, ainda não havia celular para os registros fotográficos, que se tornaram quase obrigatórios. Mas nunca esqueci a situação precária daquela cozinha. O descaso com os objetos me fez pensar que aquela mulher estava à espera da morte. Eutanásia é um serviço caro, ela não o teria contratado. Portanto, ainda sem data para morrer. Os serviços funerários, cujo preço não faz jus ao propósito, mesmo que ela os tivesse antecipado, têm uso imprevisível. Enfim, ainda estava viva, tinha direito a fazer planos. Substituir aquelas velharias por peças novas podia dar alma nova à sua casa e, por extensão, a si mesma.
Quando eu substituo uma peça, seja um móvel ou um quadro na parede, quando troco a moldura da velha fotografia, até quando frito o ovo numa panela nova que não gruda, sorrio para a vida. Não é por consumismo que renovo a casa, mas porque namoro a novidade por alguns dias. À medida que as coisas se gastam, eu me gasto junto, porque eu e a casa nos doamos reciprocamente. Talvez por isso seja recorrente ouvir: “Sua casa tem a sua cara.” Afirmação que recebo como elogio. Ou, como diz um dos meus netos, “vovó mora em casa de boneca”. Ora, é um carinho que me vem através da casa, porque, simultaneamente, eu sou a casa e a boneca.
Sobretudo quando envelhecemos a casa é o nosso espaço privilegiado. É onde passamos a maior parte do nosso tempo. Se a vida importa, é imperativo que a nossa integração nesse espaço se dê pelo prazer, pelo pertencimento, para que nos doemos a ela por inteiro, sem queixas, sem autocomiseração. Nas palavras do poeta, essa inteireza equivale a “dar os nossos pés, dar nossos artelhos, dar as nossas pernas, dar nossos joelhos, dar os nossos sonhos, nossos pesadelos, dar as nossas coxas, dar o nosso sexo, os nossos adeuses e nossos amplexos, dar o nosso pelo e nossos apelos: dar nosso universo.”
Paraíba, Brasil.
LEÃO, Gonzaga. Casa somente canto, Casa somente palavra. Coleção Viventes das Alagoas, 1995.
A agressão militar e captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pelos Estados Unidos é um crime e um ato de guerra e deve ser repudiado e condenado como tal.
Há anos, desde a sua primeira administração, que Donald Trump intervinha na Venezuela para pôr fim ao regime venezuelano encabeçado por Nicolás Maduro. Conspirou, promoveu atos terroristas, patrocinou golpes de Estado com a extrema-direita venezuelana, mas falhou sempre.
Voltou à carga nos últimos meses. Concentrou enormes meios militares ao largo da Venezuela, encerrou o seu espaço aéreo, capturou petroleiros venezuelanos e matou mais de 150 pessoas ao atacar navios civis. Sem quaisquer provas e mentindo descaradamente, acusou Maduro de encabeçar um cartel de tráfico de droga.
A agressão ordenada por Trump não é apenas ilegal à luz do Direito Internacional. Também subverte a própria ordem constitucional dos Estados Unidos ao ter sido ordenada sem autorização do Congresso, o que é mais um passo na transformação do regime político norte-americano numa tirania em que o chefe de Estado tudo pode e manda.
Independentemente da opinião que se tenha sobre o regime de Maduro, todos sabemos que a “oposição” encabeçada pela extrema-direita e financiada pelos EUA promete não a “democracia”, mas miséria e espoliação das riquezas do país impostas pela força das armas norte-americanas. “Vamos mandar no país” (we are going to run the country) e “as nossas empresas petrolíferas vão para lá”, disse Trump sem rodeios no seu discurso de 3 de janeiro de 2026.
Não é a democracia venezuelana que está em causa para os Estados Unidos (nem para a União Europeia). Nunca esteve. O que está verdadeiramente em causa são os recursos naturais (petróleo, gás e minerais raros) venezuelanos e a proximidade do regime de Maduro à Rússia e à China. É a disputa geopolítica mundial e de recursos, o imperialismo, antes do grande choque geopolítico.
O Maio apoia a resistência do povo venezuelano e dos povos latino-americanos à agressão norte-americana e ao intento, hoje afirmado por Trump de recuperar e ultrapassar a “doutrina Monroe”, que trata toda a América Latina como o “quintal das traseiras” dos EUA. Apelamos ao boicote de todas as compras e vendas de armas com os Estados Unidos por parte de Portugal e de toda a União Europeia.
НАСТОЯЩИЙ МАТЕРИАЛ (ИНФОРМАЦИЯ) ПРОИЗВЕДЕН И (ИЛИ) РАСПРОСТРАНЕН ИНОСТРАННЫМ АГЕНТОМ КАГАРЛИЦКИМ БОРИСОМ ЮЛЬЕВИЧЕМ ЛИБО КАСАЕТСЯ ДЕЯТЕЛЬНОСТИ ИНОСТРАННОГО АГЕНТА КАГАРЛИЦКОГО БОРИСА ЮЛЬЕВИЧА. 18+
(ESTE MATERIAL (INFORMATIVO) FOI PRODUZIDO E (OU) DIVULGADO PELO AGENTE DO ESTRANGEIRO BORIS IULEVICH KAGARLITSKI OU RELACIONA-SE COM ATIVIDADES DO AGENTE DO ESTRANGEIRO BORIS IULEVICH KAGARLITSKI. 18+)1
Ao avaliar, no final de 2025, a situação económica na Rússia, Ekaterina Shulman, considerada agente do estrangeiro, sugeriu que o país estava a ficar sem dinheiro e sem pessoas. E, de facto, tudo indica que alguma coisa está a acabar. Mas o dinheiro não é com certeza. Ao Estado nunca se acaba o dinheiro.
É uma particularidade do pensamento dos especialistas liberais tudo reduzirem ao dinheiro. Ora, o dinheiro não passa de um instrumento que ajuda a redistribuir outros recursos. Claro que, se irrefletidamente criado, ele deprecia-se. Sabemos de épocas em que até o ouro e a prata se desvalorizaram. Não obstante, a questão fundamental é: que recursos; e: como se distribuem eles através da despesa pública. Ora, esses recursos são sempre limitados (é nisso, aliás, que consiste a essência da economia, a ciência de trabalhar com recursos limitados), o eles acabarem é uma sua propriedade intrínseca.
As pessoas, a reserva de efetivos tanto para a guerra como para a produção, são também um recurso — e são um recurso extremamente limitado. Já lá vai, e há muito, o tempo em que se podia partir do princípio, tal como o fazia o oficial russo do século XVIII, de que “as mulheres parem mais”. Não são menores, porém, os problemas que, em tempo de guerra, se manifestam noutros recursos: metais, combustíveis, energia elétrica, capacidade ferroviária, equipamento que tende para a obsolescência e se desgasta, etc. O resultado de uma campanha militar depende, em boa medida, da forma como todos esses recursos são distribuídos.
O famoso economista soviético Y. V. Yaremenko fez notar, ao desenvolver a noção da economia multiníveis, que a diferença também está na qualidade dos recursos. Assim como o metal pode ser bom ou nem tanto, também os especialistas podem ser altamente qualificados ou não muito competentes. Na URSS, o complexo militar-industrial absorvia todos os melhores recursos de forma ilimitada. Os demais sectores da economia viam-se obrigados a compensar a falta de qualidade com quantidade. E quanto menor a prioridade do sector, pior a situação.
As pessoas, a reserva de efetivos tanto para a guerra como para a produção, são também um recurso — e são um recurso extremamente limitado
Voltando à questão dos recursos humanos, vê-se que, sendo esse o método, a produção civil começa a sofrer de uma escassez crónica de pessoal, mesmo que pareça haver gente suficiente. No fim de contas, os melhores especialistas são necessários precisamente onde faltam recursos e onde eles, com a sua inteligência, talento e experiência, podem corrigir a situação, imaginar maneiras de se desenvencilhar, inventar algo novo. Porém, passa-se exatamente o contrário. Com as melhores cabeças técnicas já concentradas na indústria militar, os restantes sectores têm de viver de migalhas.
O problema é que a crise crescente da produção civil começa a afetar a economia como um todo, espalhando-se de baixo para cima. Os trabalhadores do complexo militar-industrial também precisam de comprar roupa e ovos, de levar os filhos às creches e escolas, de se tratar nas clínicas, etc. Os dirigentes do país estão cientes do problema, mas é aí que surgem as dificuldades com o dinheiro. Verifica-se, no mais, que tais dificuldades são ainda maiores na economia de capitalismo de mercado russa do que eram na economia de planeamento administrativo da URSS.
Como já se disse, os economistas liberais — não sendo exceção os que trabalham para o Estado — veem todos os problemas como problemas monetários e resolvem-nos em consonância. Em condições “normais”, a coisa funciona mais ou menos, mas, em condições de crise, não. O que distingue, com efeito, as situações de crise é que, nelas, os métodos habituais não só não produzem o efeito esperado, como muitas vezes ainda agravam a situação. A própria especificidade da crise atual é que as autoridades económicas se preocupam (em total conformidade com a doutrina da gestão financeira) não só em cobrir o défice objetivo de recursos — que, no mais, não irá desaparecer — , injetando fundos adicionais, mas também em manter o financiamento de sectores e projetos prioritários, combinando-o com uma austeridade rigorosa e uma política fiscal ainda mais rigorosa, na tentativa de conter o aumento dos preços e equilibrar o orçamento. O principal resultado desta maneira de fazer é os desequilíbrios económicos e sociais intensificarem-se.
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A teoria monetária moderna (TMM) alternativa à teoria liberal clássica é muitíssimo mais tolerante com a impressão de dinheiro, não divisando grande desastre no aumento do défice orçamental — que, no final de 2025, já ultrapassava os quatro biliões de rublos. Um matiz importante é, contudo, que os teóricos da TMM propõem que o dinheiro adicional vá para onde há recursos inativos que, graças ao financiamento estatal, possam ser postos em movimento. Por exemplo, jazigos minerais conhecidos para os quais não há investidores. Ou um número grande de desempregados, que possam ser ocupados em trabalhos socialmente úteis. A situação em que nos encontramos é, porém, o contrário disto. O Banco Central e o Ministério das Finanças estão a pôr dinheiro não onde há potencial de recursos, mas onde já não há recursos disponíveis. Que não vão aparecer só por se aumentar o financiamento. O metal não se funde sozinho, e os soldados não crescem de debaixo da terra, por muito que a semeiem com dentes de dragão como fizeram os heróis do mito antigo.
Há, além disso, um outro recurso limitado: o tempo. Só Deus o tem infinitamente — e para isso é preciso que ele exista. Para os mortais, o tempo não só é um recurso limitado, como não é renovável. Por outras palavras, erros cometidos antes e oportunidades perdidas costumam tornar impossível recuperá-lo. Na primavera e no verão de 2024, quando parecia que a economia nacional não se estava a dar nada mal com as sanções nem com o fardo das despesas militares, era possível tomar medidas de racionamento dos recursos, protegendo o sector civil da escassez e o sistema financeiro do aumento espontâneo dos preços. Mas para quê, se, nessa altura, tudo estava, em princípio, a correr bem sem nada disso? Ainda por cima, se se alcançasse um acordo de paz entre o outono de 2024 e a primavera de 2025, como muitos esperavam, as dificuldades temporárias não chegariam provavelmente a transformar-se em crise aberta. Só que esse momento já lá vai. A escassez de recursos agudizou-se, tomando, para o poder, a forma de défice monetário crítico. Continuar a aumentar o financiamento de sectores e programas prioritários só fará que os desequilíbrios se aprofundem ainda mais, o sistema monetário se desequilibre definitivamente e a crise social se aprofunde quando sectores inteiros da economia e grupos sociais reduzidos a rações míseras não conseguirem sequer garantir minimamente o nível necessário de investimentos para a sua própria reprodução.
A situação é perfeitamente reconhecida pelas autoridades e, por isso, a vontade de paz dos círculos dominantes aumenta na proporção direta do agravamento da crise. Só que o problema não se reduz a que o agravamento da crise irá inevitavelmente exigir que os recursos voltem a ser redistribuídos para os sectores civis; surgirão igualmente questões políticas e ideológicas que só podem continuar a ser sacudidas enquanto as hostilidades continuam. Além disso, tal redistribuição implicará uma série de decisões difíceis. Poderá ser feita por métodos de mercado ou administrativos, de forma mais ou menos eficaz — em qualquer dos casos, ela já hoje é incompatível com a intensificação do esforço militar. E mesmo que tudo seja feito de forma competente, é inevitável que surjam inúmeras dificuldades e conflitos ao longo do processo. A compreensão disso por parte dos detentores do poder também contribui para a tendência para deixar tudo como está por algum tempo, sem tomar medidas irreversíveis. No entanto, adiar decisões para um futuro indefinido não só não facilita a escolha, como agrava problemas existentes.
Em última análise, as autoridades terão de tomar decisões políticas. Talvez então se possa pôr um ponto final.
1 Esta nota acompanha o artigo de Boris Kagarlitski, que está preso, acusado de ser um “agente do estrangeiro” por ter criticado a “operação especial” do Kremlin na Ucrânia.
Publicado originalmente em Рабкор (Rabkor, Correspondência dos Trabalhadores). Tradução de Adriano Zilhão.
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