Duras e Yourcenar: sentir e agir durante o Maio de 68
Yourcenar, a menina que crescera protegida e amada pela figura paterna, perceptoras e criadas pessoais, dificilmente poderia observar os acontecimentos com o mesmo olhar daquela outra, Duras, que crescera à solta, num mundo hostil e repleto de perigos.
“É proibido proibir”
O grito de revolta explodiu numa faculdade marginal e sobrelotada, em Nanterre, durante o mês de Março de 1968. Dali estendeu-se à Sorbonne. Cohn-Bendit, o carismático líder do Movimento 22 de Março, aliado à UNEF (União Nacional dos Estudantes Franceses) chefiou as ocupações das duas universidades e as manifestações que decorreram depois. Inesperadamente, a acção passara de um bairro periférico, em Nanterre, para o Quartier Latin, no centro de Paris. O movimento estudantil, que se estende, entretanto, a outras universidades francesas e aos liceus de Paris, demonstrava não temer a repressão policial. Os confrontos intensificam-se, mas o apoio popular, num primeiro momento, e a aliança com o proletariado, na grande manifestação de 13 de Maio, conseguiu paralisar a França. A Sorbonne é, entretanto, ocupada pelos estudantes que reivindicavam revolucionar a Universidade e o país, mas, a 21 de Maio, Cohn- Bendit, o emblemático líder da revolta, é expulso pelo Governo francês. A ocupação mantém-se, mas a receptividade da população ao movimento e o número de manifestantes nas ruas diminui significativamente. Vivia-se o princípio do fim que chegou, inevitavelmente, a 16 de Junho, com a evacuação da Sorbonne. “O sonho de Maio de 68 com as suas principais reivindicações – a libertação sexual, a independência das mulheres, a pedagogia anti-opressora nas escolas, a autogestão e a emancipação social – tinha terminado”.
Quando aconteceu o Maio de 68, Duras e Yourcenar, as duas maiores escritoras francesas do século XX, encontravam-se em Paris. Duras vivia ali desde 1933, ano em que viajara da Indochina, onde nascera, para vir estudar na Sorbonne. Yourcenar, que residia na ilha dos Montes Desertos, situada no Nordeste dos Estados Unidos, estava em Paris, a fim de promover o lançamento do seu último livro, A Obra ao Negro, editado pela prestigiada casa Gallimard. Ambas eram, à data, escritoras plenamente consagradas, mas nunca trocaram uma palavra. Duras detestava Yourcenar e Yourcenar ignorava Duras. Eram mulheres muito distintas. E, de forma distinta, também, viveram e olharam o Maio de 68.
Ambas eram, à data, escritoras plenamente consagradas, mas nunca trocaram uma palavra. Duras detestava Yourcenar e Yourcenar ignorava Duras.
Para Duras, o Maio de 68 surgiu como uma espécie de milagre. A mulher que militara na Resistência francesa e contra a guerra da Argélia, aguardava, há algum tempo, por um acontecimento, um contexto, um conflito, que a libertasse da monotonia do quotidiano. Aos cinquenta e quatro anos, e na companhia dos homens da sua vida, Robert Antelme e Dyonis Mascolo, Duras mergulhou activamente nos acontecimentos daquele mês que lhe parecia poder ser eterno. Sustentada nos ideais de liberdade e de solidariedade que lhe eram inatos, e que lhe devolveram, durante algum tempo, a confiança no futuro, juntou-se às manifestações, percorreu o Quartier Latin, correu à frente da polícia, acompanhou as barricadas, participou na ocupação da Sorbonne, recolheu assinaturas, escutou e sonhou. E quando tudo terminou, chorou, pois, o fracasso do Maio de 68 representava, para si, que já vivera muito, o fracasso dos sonhos de uma geração. O desalento foi total e avassalador. Para sobreviver, como fazia invariavelmente, mergulhou na escrita e produziu “Destruir, diz ela”, um texto que resultava da desilusão e da mágoa de tudo o que terminara em Junho de 68.
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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
De forma distinta, e enquanto a “revolução” ocorria nas ruas, Yourcenar, então com sessenta e cinco anos, assistia, triunfante, ao sucesso e à consagração literária que a sua obra, sobre a Renascença, estava a alcançar em França. Incomodava-a um pouco que aqueles jovens manifestantes pudessem roubar-lhe o protagonismo na cena mediática. Naturalmente, não estava disposta a envolver-se em manifestações, mas para seguir o tom da conjuntura, nas entrevistas a jornais e à televisão, ousou comparar o espírito revolucionário e contestatário de Zenão, o protagonista de A Obra ao Negro, aos jovens e intelectuais franceses que se manifestavam na margem esquerda do Sena. E numa suprema manifestação de sobranceria, a 17 de Maio, no auge dos conflitos, arriscou percorrer a pé, na companhia de Grace Flick, a sua amante, o percurso que ia do Hotel Saint-James e Albany, situado na Rua de Rivoli, até à residência de Natalie Barney, localizada na Rua Jacob, para assistir a uma recepção em sua homenagem. A Rua Jacob ficava bem no centro da rebelião, mas esse era o tipo de desafio que Madame apreciava. Quando alguns anos depois lhe perguntaram o que recordava de Maio de 68, Yourcenar respondeu: os slogans. Alguns extraordinários slogans: “Debaixo do pavimento, a praia”, “A imaginação ao poder”, “Sejam realistas, peçam o impossível”.
Yourcenar, a menina que crescera protegida e amada pela figura paterna, perceptoras e criadas pessoais, dificilmente poderia observar os acontecimentos com o mesmo olhar daquela outra, Duras, que crescera à solta, num mundo hostil e repleto de perigos.
A objectividade e a imparcialidade do observador é um exercício muito difícil, pois cada um transporta, no seu íntimo, o peso da sua própria história.