A Palantir mobiliza uma pretensa síntese que está muito além da busca de financiamento estatal para uma empresa hiper-tecnológica: ela pretende integrar a formação da subjetividade contemporânea, participando no rumo das políticas imperiais e na organização ideológica da nova extrema-direita, criando uma era de dominação, dependência e subserviência.

Em 1961, Dwight D. Eisenhower, então ainda presidente dos EUA, proferiu seu famoso discurso de despedida, popularizando o termo ‘complexo industrial-militar’. Nele, Eisenhower alertava para os riscos crescentes de uma larga influência da indústria bélica e corporações privadas no Departamento de Defesa e, assim, na política nacional estadunidense. O termo ganhou crescente relevância para a compreensão geopolítica das dinâmicas entre capital corporativo e Estado, desde suas relações internas, até o estudo dos imbróglios internacionais atrelados à posição imperialista dos EUA — único país com centenas de bases militares ao redor do globo — e suas constantes interferências, diretas ou indiretas, na política nacional de diversos países.
Posteriormente, um novo termo seria frequentemente adicionado à equação: o complexo seria descrito nos termos ‘industrial-militar-académico’, expressando a tríade que organiza pesquisa e desenvolvimento tecnológico e científico atrelado aos interesses políticos, militares e do capital norte-americano, central na disputa internacional por hegemonia. É razoável reconhecer que a centralidade dessa relação na estruturação do poder estadunidense é anterior à própria emergência do termo, especialmente com a intensificação da relação entre os setores promovida pelos processos da II Guerra, que englobam tanto o desenvolvimento das armas nucleares, quanto a emergência das tecnologias digitais como conhecemos hoje. Não é difícil demonstrar, inclusive, como estas são duas facetas fundamentais e intimamente interligadas na dinâmica de domínio militar e político dos EUA desde o pós-guerra.
Com heranças teóricas do século XIX no campo da lógica e da matemática, a criptografia aparece como questão relevante já nas corridas tecnológicas da I Guerra, mas é com a corrida criptográfica em torno da máquina Enigma que irão se estabelecer tanto sua centralidade militar quanto os pressupostos fundamentais da computação moderna (famosamente, por Alan Turing, partindo de grandes contribuições do criptologista polonês Marian Rejewski). A computação torna-se assim de interesse militar logo na primeira metade do século passado, e seu papel no desenvolvimento de armas nucleares (e, posteriormente, na corrida espacial) também será fundamental, através de máquinas desenvolvidas para a automação do cálculo, operadas fundamentalmente por computadores (de facto, em sua maioria computadoras, desígnio de ofício para uma tarefa desempenhada principalmente por mulheres desde as navegações coloniais, pelo cálculo astronómico de rotas marinhas).
O desenvolvimento científico-militar encampado pelo Projeto Manhattan acelerou diretamente o advento dos primeiros computadores eletrónicos digitais, com John von Neumann exercendo papel fundamental. Matemático, físico, engenheiro e cientista da computação, foi dele a ideia de utilizar os problemas hidrodinâmicos e de fissão nuclear para teste dos primeiros códigos lógicos do ENIAC, primeiro dispositivo digital eletroeletrónico de grande escala, substituindo a computação eletromecânica do Harvard Mark I. Von Neumann tornar-se-ia o pai da arquitetura moderna do hardware computacional, utilizada até os dias de hoje. Posteriormente, desenvolveria, em Los Alamos, o MANIAC, voltado principalmente para simulações termonucleares, desenvolvimento armamentista, mas também em pesquisas genéticas, hidrodinâmicas e na física de partículas.
Tudo isso foi possibilitado também graças ao advento da teoria matemática da informação, desenvolvida por Claude Shannon, que apresentaria categorias fundamentais como a unidade fundamental do bit (contração do termo ‘unidade binária’, em inglês), a codificação binária da informática usada até hoje e a chamada teoria da ‘entropia informacional’. Esses desenvolvimentos se deram na época da efervescência cibernética, campo de estudos interdisciplinares que almejavam uma meta-linguagem transversal ao campo das ciências humanas e naturais — com seu início demarcado nas Conferências de Macy (1946-1953). A palavra, derivada do grego Kubernetes, tem raiz etimológica comum à noção de ‘navegação’ e ‘governo’. Com princípios e finalidades definidos por Norbert Wiener nos termos da “comunicação e controle no animal e na máquina”, a cibernética logo despertou o interesse militar nos EUA.
Os integrantes da cibernética, muitos que já frequentavam o então emergente complexo industrial-militar, são historicamente reconhecidos como pioneiros em diversos campos da tecnologia digital contemporânea, como foi o caso dos primeiros modelos teóricos de redes neurais artificiais, proposto por McCulloch e Pitts, ainda em 1943, antecipando um dos paradigmas fundamentais na tradição das inteligências artificiais — o paradigma conexionista, em contraste com o paradigma simbólico, ambos formalizados em 1956, no Darthmouth College. Em 1957, Frank Rosenblatt desenvolve o Perceptron, um modelo cognitivo fundacional na história das IAs conexionistas.
Na época, quando trabalhava no Laboratório Aeronáutico de Cornell em Buffalo, onde rodou seu programa em um IBM 704, Rosenblatt conseguiu financiamento do ramo de sistemas de informação do Departamento de Pesquisa Naval norte-americano além do Centro de Desenvolvimento Aéreo de Rome (um laboratório voltado para pesquisas em ‘controle, comando e comunicação’) para desenvolver o Perceptron Mark I. O objetivo principal deste aparelho era a automação do reconhecimento de padrões, um dos primeiros sistemas algorítmicos para a aprendizagem de máquinas [machine learning] — termo que seria cunhado por Arthur Samuel em 1959 —, e que tinha como objetivo prático a análise de imagens desde a modelização dos padrões de formas geométricas. Temos os primórdios da corrida militar no campo das IAs que é, hoje, quase 70 anos depois, eixo central na dinâmica da guerra contemporânea.
Durante a segunda metade do século XX, a pesquisa e o mercado das IAs passaram por diferentes “primaveras” e “invernos”. É relevante notar que os desdobramento das tecnologias digitais durante a Guerra Fria também afetaram diretamente a conceituação teórica do pensamento militar. Em meio às tensões da era atómica e da corrida espacial, na chamada “polarização” entre o eixo capitalista e o socialista, o vocabulário militar expandiu a sigla C2 [Comando e Controle] para C3I [Comando, Controle, Comunicações e Inteligência] e, finalmente, para C4ISTR [Comando, Controle, Comunicações, Computação, Inteligência, Vigilância, Obtenção de alvos e Reconhecimento], demonstrando cada vez mais a inserção dos imperativos digitais na lógica militar. Essa expansão é concomitante à proliferação da lógica paranóica (mas não delirante) instituída pelas armas de destruição em massa, inauguradas com a própria bomba atómica, impondo uma nova era da dissuasão, além da necessidade de novas tecnologias para controle ostensivo, vigilância e inteligência militar.
A era atómica, como bem analisada por Günther Anders, atualizou de modo radical os impasses geopolíticos, de certo modo antecipando a globalização pela via do negativo bélico — e foi o desenvolvimento e a disputa por hegemonia no campo das tecnologias digitais que veio responder a tais impasses. O acordo de Bretton-Woods, que funcionou como arquitetura do domínio financeiro imperial no pós-guerra, dando vantagens estratégicas para o dólar, possibilitou também o financiamento e avanço das pesquisas científicas nos EUA, dando uma vantagem económica assimétrica ao país, com o custo da violência imperial ao redor do globo. Curiosamente, o final do acordo acontece no mesmo ano em que o primeiro microprocessador é comercializado globalmente, ano que marca tanto um reordenamento da dinâmica financeira (e militar) no capitalismo global, quanto uma nova era da tecnologia digital. Também é o ano de lançamento do mercado de ações em forma eletrónica, com a Nasdaq, marcando o processo de financeirização do capitalismo global.
Nos anos seguintes, com o fim do rastreamento do dólar em ouro, a política internacional militar estadunidense incita o processo de predação do mercado petrolífero que transporta a lógica da guerra imperial para o “Oriente Médio”, fundando e mantendo, na base das desestabilizações, intervenções, e da bala, a configuração do petrodólar. Os anos 1980 são marcados pela generalização da temporalidade digital nas tecnologias militares, o “Tempo Real” diagnosticado pela dromologia de Paul Virilio, com novos sistemas de radares, satélites e computadores voltados ao monitoramento e alerta precoce de ameaças bélicas nucleares. A transmissão simultânea de incursões militares ganha, nos anos 1990, um marco fundamental com a Guerra do Golfo, na mesma época em que é lançada a World Wide Web — a rede global de computadores, lastro para as teorias da globalização e da era da informação.
Derivada do modelo militar norte-americano de 1969 (a ARPANET), a internet inaugura um processo de interconexão global que implica na produção, armazenamento e processamento de dados em escala massiva progressiva, o que possibilitaria posteriormente a emergência do Big Data e o treinamento de IAs, com os avanços em software e hardware, dando as bases para a plataformização contemporânea. Chegamos, enfim, ao início do ‘novo milénio’, marcado pelo ataque ao World Trade Center, que dá início à retórica da ‘guerra ao terror’ e cria as condições para desenvolvimentos digitais e militares que dão as bases do contemporâneo. A automação da guerra, antecipada por Virilio, irá encontrar, pela tecnologia dos aviões não tripulados, sua realização seminal em enxames de drones, a radicalização da alienação técnica de incursões e execuções em sua expressão digital — a relação entre sub-limiar e supra-limiar, analisada por Günther Anders frente à alienação do genocídio pela bomba, é atualizada digitalmente no extermínio localizado cada vez mais precisão.
Outro elemento fundamental será desdobrado após os ataques do 11 de setembro de 2001. Notando lacunas na integração de dados entre as agências estatais americanas de informação e inteligência, empreendedores ligados ao ramo de tecnologia de Silicon Valley encontram tanto uma motivação política quanto um nicho de mercado sensível e fundamental que irá se desdobrar na criação de uma das empresas mais sensíveis e fundamentais na fronteira entre militarização e digitalização contemporânea. Peter Thiel, que esteve envolvido em problemas referentes ao uso fraudulento da sua plataforma para transações económicas digitais, originada no "boom das dotcom", o PayPal, recebeu como resposta de seu sócio o desenvolvimento de um software que, utilizando técnicas algorítmicas, garantia a segurança de transações na plataforma. Batizado de Igor, o primeiro golpista interceptado pela ferramenta, a tecnologia anunciava uma nova era na integração de dados online.
Com o 11 de setembro, Thiel encontra então uma nova utilidade para seu software na urgência da guerra ao terror. Buscando estabelecer relações com o ramo de defesa do governo americano, irá entrar em contacto com Alex Karp, que torna-se um entusiasta do projeto. Será então, entre os anos de 2004 e 2005, que sua empresa passa a receber fundos do braço de investimento em capital de risco da CIA, a In-Q-Tel, possibilitando também a parceria entre seus engenheiros e analistas da central de inteligência, desenvolvendo o software de análise de dados que originou a, hoje conhecida, plataforma Gotham. É essa a história de surgimento da Palantir, que encontrou nos adventos do 11 de setembro tanto sua razão de ser quanto as coordenadas da digitalização que passam a fragmentar a (já deletéria) fronteira entre esfera civil e militar nas décadas seguintes.
Hoje, a empresa representa o principal núcleo corporativo, tecnológico e ideológico no processo ostensivo de justaposição da militarização como característica coextensiva da experiência cotidiana, mediada pelo digital. Unindo serviços para empresas e exércitos sob lógicas comuns em diferentes perspectivas, a Palantir integra um vocabulário filosófico — cortesia do próprio Karp, familiarizado com a teoria crítica, ex-estudante da Goethe-Universität Frankfurt, onde desenvolveu seu doutoramento em filosofia sobre a Agressão no Mundo da Vida [Aggression in der Lebenswelt] defendido em 2002 — ao discurso armamentista-empresarial, realizando a atualização do novo ‘complexo industrial-militar-digitalizado’ estadunidense pela integração de metadados, articulação em “tempo real” do “campo de batalha” e aceleração da “cadeia [produção] de morte”, em novos sistemas de vigilância e produção de alvos que prometem ser a vanguarda na defesa do legado ocidental pela manutenção do império norteamericano — como vemos no uso ostensivo do sistema Maven, tanto pelo exército de Israel (cliente fundamental da Palantir), quanto pelo exército dos EUA (por exemplo, na seleção da escola feminina Shajareh Tayyebeh, no Irão, como alvo militar, resultando no assassinato de 175 pessoas, em sua maioria crianças).
Com todo esse contexto, as manifestações públicas de Karp precisam ser interpretadas para além do personagem “excêntrico” e “exótico”, mas como a propaganda ideológica de um verdadeiro programa político. Muito longe de meras bravatas, sua retórica sobre impor medo aos inimigos políticos e estabelecer um combate ao multiculturalismo liberal (que tem como alvo “mulheres académicas progressistas” em contraposição aos “homens da classe trabalhadora)” são estratégias — partem de um doutor em filosofia que teve sua pesquisa de doutoramento focada na naturalização da violência na retórica pós-hitlerista alemã. A publicação que ficou conhecida como “manifesto da Palantir”, resumindo em 22 pontos o que é apresentado no seu livro A República Tecnológica, em co-autoria com Nicholas W. Zamiska, defende, entre diversos pontos, a era digital como superação da era atómica — elemento central na apologia do desenvolvimento de sistemas de armas autónomos movidos por IA.
Entre o pensamento posterior de Epimeteu e a antevisão de Prometeu, a Palantir mobiliza uma pretensa síntese que está muito além da busca de financiamento estatal para uma empresa hiper-tecnológica: ela pretende integrar a formação da subjetividade contemporânea, participando no rumo das políticas imperiais e na organização ideológica da nova extrema-direita, criando uma era de dominação, dependência e subserviência que ultrapassa em muitos sentidos — e condições ontológicas — as dinâmicas do século passado. Para combater esse programa totalizante e com explícitas conotações neofascistas — como expresso na defesa da superioridade de determinadas civilizações em relação a outras, que deveriam ser submetidas (ou exterminadas) pela força —, é necessário uma esquerda liberta, antes de tudo, das limitações simbólicas (i.e., também materiais) impostas pelos processos da última década, onde a neoliberalização formatou a gramática emancipatória em uma retórica de gestão das crises do capital. A era de gestão das crises está em processo de obsolescência, programada desde suas origens. Resta a nós lutarmos contra a automação da barbárie.