A nova “Estratégia de Segurança Nacional” norte-americana
Em Novembro de 2025, Trump anunciou a nova Estratégia de Segurança Nacional norte-americana. Modestamente, como é seu hábito proclamou: “Este documento é um roteiro para garantir que os Estados Unidos continuem a ser a nação mais grandiosa e bem-sucedida da história da humanidade e o berço da liberdade na Terra.”
A publicação da “Estratégia de segurança nacional” (NSS) dos Estados Unidos em Novembro passado suscitou fortes emoções e reacções, principalmente na Europa institucional.
O documento regista, com efeito, o “declínio económico da Europa”.
Mais notável, no entanto, é ele considerar que esse declínio económico é “eclipsado” pela “perspectiva de obliteração da civilização” europeia a que as políticas dos dirigentes do continente levam — tornando “mais do que plausível” que, daqui a vinte anos, a Europa deixe de ser “europeia”. Subentende-se sem dificuldade: a “raça branca” europeia irá ser superada por “raças” africanas, árabes e asiáticas, inimigas da América branca.
A NSS reflecte, assim, sem pudor, a propaganda nazi sobre a “substituição populacional” na Europa. E é tudo menos velado o apoio que promete aos partidos e dirigentes neofascistas (“patriotas”) europeus: Meloni, Orban, Chega, Vox, AfD, RN…
Não obstante, não podia ser mais absurda a conclusão de alguns assustados comentadores europeus — e portugueses(1)— de que a estratégia trumpiana designa a “Europa” como “inimigo principal” do império americano.
Em quase toda a extensão do documento, a administração Trump dedica-se a descrever como combater e atacar a China, apesar de a palavra ser pouco usada no documento(2).
Assim, se a primeira prioridade da estratégia americana (O que queremos no e do mundo?) é o controle absoluto dos Estados Unidos sobre o “hemisfério ocidental”(3), não se deixam dúvidas sobre o que está em disputa.
Essencialmente, trata-se de manter o hemisfério “livre das incursões hostis e da propriedade de activos essenciais” por “externos” (leia-se: pela China) e de manter o acesso dos EUA “a localizações estratégicas essenciais” (leia-se: expulsando, por exemplo, a empresa de Hong Kong proprietária dos portos do canal do Panamá e impedindo a entrada de capitais chineses no aço e nas “tecnológicas” americanas); “deter e reverter o mal que actores externos têm infligido à economia americana, mantendo, do mesmo passo, o Indo-Pacífico [não exactamente “hemisfério ocidental”!] livre e aberto, salvaguardando a liberdade de navegação em todas as rotas marítimas críticas e mantendo cadeias de abastecimento seguras e fiáveis, bem como o acesso a materiais críticos” (leia-se: manter o controle naval do canal do Suez, dos estreitos de Ormuz e de Malaca, do mar da China Meridional e das novas rotas do Ártico e o acesso às terras raras chinesas. Hemisfério ocidental?)
A maneira de assegurar tais desígnios é indicada sem subterfúgios diplomáticos: “queremos recrutar, treinar, equipar e pôr no terreno o exército mais poderoso, letal e tecnologicamente avançado do mundo para proteger os nossos interesses, deter guerras e — se necessário — ganhá-las rápida e decisivamente, com o mínimo de baixas das nossas forças”. Além, naturalmente, do “dissuasor nuclear mais robusto, credível e moderno do mundo, bem como defesas antimísseis de novíssima geração — incluindo uma Abóbada Dourada sobre a América — que protejam o povo americano, o património americano no estrangeiro e os aliados da América.”
Eis o que os EUA de Trump (e os seus caninos aliados) prometem ao mundo. Um mundo de guerra: comercial, económica, política … e militar sempre que necessário.
Falando directamente da China, a “estratégia de segurança nacional” refere que Trump reverteu mais de três décadas de suposições erradas a respeito daquele país, a saber, que a abertura de mercados à China, os incentivos ao investimento americano na China e à deslocalização industrial para a China conduziriam à integração daquele país na “chamada ordem internacional assente em regras” (a ordem mundial ao serviço dos interesses americanos) — coisa que “não aconteceu”.
Daí a necessidade de “reequilibrar a relação económica da América com a China”: acabando com “estratégias industriais e subsídios estatais predatórios; práticas comerciais injustas; a destruição de empregos e a desindustrialização; o roubo de propriedade industrial e a espionagem industrial em grande escala; ameaças às nossas cadeias de abastecimento que ponham em risco o acesso dos EUA a recursos críticos, designadamente minerais e terras raras; (...) propaganda, operações de influência e outras formas de subversão cultural”. Exige-se, para tal fim, o concurso da “Europa, do Japão, da Coreia, da Austrália, do Canadá, do México e de outras nações importantes”.
Corresponda ou não à prática do Estado chinês esta descrição, ela corresponde sem sombra de dúvida à caracterização que dela têm feito as administrações americanas.
Trata-se, portanto, sem equívoco, de acabar com o Estado chinês na sua forma actual por meio de uma estratégia política, comercial e militar que lembra fatalmente o cerco à União Soviética e o avanço inexorável da NATO sobre as fronteiras da URSS (e, depois, da Rússia) que caracterizaram a política americana pelo menos desde Reagan.
Todo o capítulo sobre a “dissuasão de ameaças militares” é dedicado à preparação do confronto político-militar com a China: “uma relação de forças militar convencional favorável continua a ser uma componente essencial da competição estratégica. O foco está muito, e bem, em Taiwan, em parte por esse país dominar a produção de semicondutores, mas, sobretudo, porque Taiwan dá acesso directo à Segunda Cadeia Insular [as ilhas onde os EUA detêm colónias e bases militares importantes situadas a oriente do Japão e doutras ilhas mais próximas do continente chinês], dividindo a Ásia em dois teatros [militares] distintos, Nordeste e Sudeste. O facto de dois terços do transporte marítimo passarem pelo mar da China Meridional tem implicações de primeira ordem para a economia americana. Deter um conflito por Taiwan, de preferência mantendo a nossa superioridade militar, é, pois, uma prioridade. (...) Poremos de pé uma força militar capaz de impedir agressões em qualquer ponto da Primeira Cadeia Insular. Contudo, as forças armadas americanas não podem nem devem ter de fazê-lo sozinhas. Os nossos aliados [Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália, Nova Zelândia] têm de responder presente e gastar — e, ainda mais importante, fazer — muito mais pela defesa colectiva. (...) É imperioso desenvolver as medidas de força e dissuasão necessárias para manter essas rotas abertas, livres de “portagens” e não sujeitas a encerramento arbitrário por algum país.”
Pese aos comentadores que estranham a linguagem aparentemente menos hostil à China (e à Rússia) do que a usada na doutrina da primeira administração Trump, a NSS 2025 é transparente nas suas prioridades — e no número de páginas dedicado a cada “região”:
— acabar com a actual economia e Estado chinês, ainda predominantemente assente na propriedade estatal dos meios de produção;
— acabar com a guerra “lateral” da NATO com a Rússia pela Ucrânia, agora que a Rússia já está significativamente desgastada; ou então deixá-la supurar, mas exclusivamente à custa dos orçamentos e das economias dos imperialismos europeus e para lucro da indústria armamentista americana;
— promover um surto sem precedentes da economia do armamento e cavar a superioridade das forças armadas americanas, transferindo, de passagem, maciçamente lucros para o capital americano em prejuízo dos concorrentes menores, europeus e não só;
— no Médio Oriente, apoiar sem reservas os regimes feudais e Israel, acabando com quaisquer fantasias de “democratização”.
— explorar sem limites os recursos dos países do “terceiro mundo”, acabando com as fantasias da “ajuda ao desenvolvimento”.
Este é o mundo que os EUA de Trump (e os seus caninos aliados) prometem ao mundo. Um mundo de guerra: comercial, económica, política … e militar sempre que necessário. Um mundo de ditaduras e de destruição da democracia.
Todos os poderosos do mundo rastejam e capitulam, uns atrás dos outros.
A única oposição aos bárbaros desígnios do imperialismo é a que lhes montem as classes trabalhadoras: da América, da Europa, da Ásia e do mundo.
1 Por exemplo, no Expresso de 12 de Dezembro, Miguel Monjardino escreve que “o principal adversário dos EUA em todo o documento parece ser a União Europeia, vista agora em Washington como um projeto das elites liberais e internacionalistas que se opõe aos seus valores políticos e interesses tecnológicos e comerciais.”
2 A razão principal da aparência algo fantasmática do alvo chinês é dupla, como refere The Economist (26/12/25): a cimeira Trump-Xi Jinping de Abril de 2026, que os negociadores americanos estão a preparar intensamente, querendo evitar interferências diplomáticas até lá; e batalhas intestinas na administração americana, entre vários interesses que se cruzam.
3 Na definição da NSS, hemisfério ocidental parece referir-se principalmente às Américas, de Norte a Sul. No entanto, tradicionalmente, também inclui a Europa Ocidental. O documento deixa ambiguidade a este respeito, tratando a Europa à parte.
* O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.