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Jornal Maio

Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política

1ª. parte

Desde 3 de janeiro, quando os Estados Unidos impuseram à Venezuela uma administração colonial com a colaboração de um setor do madurismo, o país vive uma tragédia, agravada pelos dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, que sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de junho.

ilustração: Pedro Páscoa

A Venezuela vive uma tragédia histórica. Enquanto o Campeonato do Mundo de Futebol desviava a atenção da grande comunicação social internacional da situação colonial que os Estados Unidos impuseram à Venezuela desde 3 de janeiro, uma parte significativa da esquerda continental e mundial recebia com alívio esse afastamento mediático, já que deixara de encontrar argumentos para justificar a rendição que a Junta de Administração Colonial do país faz aos desígnios da administração Trump. Esta Junta de Administração Colonial é liderada pelos irmãos Rodríguez (Delcy e Jorge) e por Diosdado Cabello2.

O 1º de maio de 2026 será recordado como o fim da ilusão de que o “novo momento político” anunciado pela dupla Delcy-Trump permitiria melhorar os salários e as condições materiais de vida de amplos setores da população trabalhadora. O salário mínimo base permaneceu ancorado em menos de 0,4 dólares mensais, e a bonificação dos rendimentos, via bónus e subsídios sem incidência salarial, não chegou a 200 dólares por mês, nem alcançou toda a classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, o dólar voltou a disparar (atualmente acima de 745 bolívares), o que tem impulsionado a inflação num país onde cada produto do cabaz básico pode chegar a custar duas ou três vezes mais do que a média regional3.

Pelas mãos de Marco Rubio, a Venezuela regressou ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial, e embora o “Delcinato” tente justificá-lo como a única possibilidade de recuperar os 5 mil milhões de dólares retidos pelo FMI e que pertencem à Venezuela, a realidade é que isso implica um novo ajuste estrutural da economia. O antecedente mais recente de um pacote de medidas económicas e políticas contra a classe trabalhadora, que nada ficou a dever às receitas neoliberais, foi aplicado por Nicolás Maduro, entre 2018 e 2025. O mais grave é que os irmãos Rodríguez e Diosdado Cabello mantêm silêncio absoluto quanto à continuidade das sanções e ao bloqueio das contas internacionais da Venezuela, impostos pelos Estados Unidos desde o primeiro governo daquele que agora definem como parceiro, Donald Trump.

 

O 1º de maio de 2026 será recordado como o fim da ilusão de que o “novo momento político” anunciado pela dupla Delcy-Trump permitiria melhorar os salários e as condições materiais de vida de amplos setores da população trabalhadora.

 

A 13 de maio deste ano, o Governo venezuelano anunciou o início da reestruturação da dívida do país em diálogo com o FMI. Uma dívida estimada, à data, em 170 mil milhões de dólares, valor que contrasta com os 82 mil milhões de dólares em receitas que o país terá, segundo estimativas da própria organização multilateral, em 2026. Dias mais tarde, a 26 de maio, Delcy Rodríguez anunciou ainda a criação da Comissão Presidencial para a Reestruturação e Reengenharia do Governo, com o objetivo de torná-lo mais eficaz, ou seja, anunciou uma reforma do Estado no estilo das recomendações do FMI, focada em encolher o Estado sob o pretexto de tornar os gastos públicos mais eficientes.

Um mês depois, a 24 de junho, horas antes de se desencadear a tragédia sísmica, o Financial Times noticiava que o Governo venezuelano iria divulgar o valor da dívida externa do país, reestimada em cerca de 240 mil milhões de dólares, um montante que se compara ao que provocou a crise da dívida na Grécia, o país mais endividado da zona euro em percentagem do PIB. Este valor explica a urgência da Junta de Administração Colonial em reestruturar o Governo e faz prever despedimentos, o encerramento de instituições públicas e a intensificação do corralito sobre os salários da classe trabalhadora local4.

Na Venezuela, a relação entre trabalho e salário atingiu um ponto que alguns especialistas classificam como uma nova escravidão, marcada pelo desaparecimento do salário real e pela sua substituição por rendimentos baseados em bonificações, inseridos na estrutura económica salarial local. Tal tem invariavelmente conduzido à perda dos direitos laborais adquiridos, à precariedade dos valores pagos por férias e ao subsídio de Natal (décimo terceiro mês) ou na impossibilidade de obter uma pensão de reforma que permita a compra de pelo menos um medicamento nas farmácias do país5.

Com a aprovação da nova Lei dos Hidrocarbonetos, aprovada de modo acelerado pelo parlamento colonial dos irmãos Rodríguez e companhia, reduziram-se as receitas do petróleo venezuelano por barril de 10 para 1,7 dólares, o que nos faz recordar a legislação setorial aprovada pela social-democracia nos anos 40 do século XX. Tudo parece indicar que, no curto prazo, o caminho será o do trágico aprofundamento do já conhecido colapso de todos os serviços públicos. Em apenas uma década (2014-2024), a Venezuela perdeu os elementos mais palpáveis da modernidade institucional burguesa, entrando numa fase de retorno à pré-modernidade, de tal modo que a campanha eleitoral de 2024 focou-se no acesso à água potável, à eletricidade, ao transporte público, à segurança policial e ao funcionamento mínimo das escolas e universidades.

Apesar de tudo, e embora possa parecer incrível, a diáspora migratória, estimada em cerca de seis milhões de venezuelanos e venezuelanas, conseguiu, através das suas remessas, ajudar a atenuar a crise de rendimentos. Contudo, não há dinheiro que possa manter o poder de compra face ao avanço desenfreado da inflação.

Um elemento significativo, apenas explicável como parte da derrota histórica da revolução bolivariana, foi a simpatia que a captura, o sequestro e a prisão nos Estados Unidos do casal presidencial Maduro-Flores suscitaram na maioria da população. Ao contrário de 2002, quando a população foi massivamente às ruas e derrotou o golpe de estado contra Hugo Chávez, desta vez viram-se apenas reduzidas concentrações, organizadas pela cada vez mais pequena base social do madurismo, e cuja liderança rapidamente transitou para um “Delcinato colonial”.

As simpatias pela operação militar gringa estavam assim relacionadas com a situação material da classe trabalhadora e o silogismo interpretativo que muitos fizeram: “se o desaparecimento dos salários e a precariedade das condições materiais da vida, como efeito das sanções dos EUA, têm origem na rivalidade entre Maduro e Trump, então, se Maduro não estiver no poder, a situação vai melhorar”. Em boa verdade, a generalidade da população acreditou que as sanções seriam suspensas, que a Venezuela poderia vender petróleo livremente e que as receitas melhorariam a sua situação económica. Mas o que aconteceu foi a manutenção dessa precariedade e até mesmo o seu agravamento, o que está a transformar as simpatias em desilusão e irritação com os gringos, ainda que tal não se tenha, ainda, traduzido num movimento anti-imperialista com expressão de massas.

O panorama é, no mínimo, sombrio.

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Terramotos

Quando se pensava que as coisas não poderiam piorar, a realidade acabou por demonstrar o contrário. Dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de junho, num evento sísmico que os especialistas descrevem como um “dupleto”6. Dezenas de prédios colapsaram; outros ficaram inabitáveis ou severamente danificados, sendo La Guaira, localizada em frente ao mar, a área mais afetada. Milhares de mortes e um número ainda não estimado de pessoas desaparecidas revelam a magnitude da catástrofe.

Como num filme de terror, as primeiras horas não contaram nem com a presença nem com o auxílio do Exército ou dos altos funcionários. Apenas bombeiros locais, a proteção civil e um número crescente de cidadãos voluntários assumiram, por iniciativa própria, o cuidado e o socorro às vítimas. Enterrava-se assim, junto com as infraestruturas colapsadas no terramoto, o discurso da aliança cívico-militar como motor de mudança na Venezuela.

Mas em política não há vazio que se sustente: por isso, um mar de mãos e corpos solidários construiu uma cadeia humana de ajuda mútua, fazendo chegar, de todos os cantos do país, remédios, comida, roupas, pertences e ferramentas para ajudar a resgatar as pessoas presas nos escombros. Os equipamentos pesados de salvamento e resgate demoraram mais de 36 horas para chegar, tendo sido as brigadas internacionais de ajuda o motor da ação humanitária tecnicamente qualificada e os que testemunharam o que ali se passava.

Quase todo o litoral de La Guaira foi reduzido a escombros, ruindo tanto urbanizações construídas pelo Governo como pelo setor privado. As denúncias de pessoas afetadas, que habitavam apartamentos e casas de interesse social entregues pelo Governo nacional, mostram imagens de erros estruturais de construção que exigem uma investigação pública para determinar a veracidade das denúncias e apurar futuras responsabilidades.

Perante o abandono contínuo do Governo nas horas e dias que se seguiram à tragédia, a resposta do povo foi contundente. Imediatamente após a tragédia, e em contraste com a ineficácia governamental, gerou-se uma onda de solidariedade cidadã, que se recusava a entregar alimentos e remédios a representantes do Governo, por desconfiar que estes não chegariam às vítimas. Caravanas sucessivas de voluntários e voluntárias, auto-organizados, formaram uma ponte permanente de auxílio.

A resposta oficial, além de tardia, foi também desajeitada, ao tentar travar a onda de solidariedade. Porém, os postos de controle e os piquetes policiais-militares de contenção foram transpostos, ultrapassados e ignorados pela população. Esta situação de rebeldia popular expressa a profunda desconfiança em todas as formas institucionais e até mesmo em organizações políticas, confiando apenas nos que faziam e entregavam diretamente às mãos dos afetados. A palavra de ordem “apenas o povo salva o povo” passou a ser repetida por pessoas de diferentes inclinações ideológicas.

Pouquíssimos políticos ousaram estar diretamente no local do desastre, talvez desencorajados pela rejeição captada em vídeos nas redes sociais, como aconteceu com a visita de Jorge Arreaza (ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e membro da liderança do PSUV) e de Nicolás Maduro Guerra (filho de Nicolás Maduro), que foram vaiados e confrontados pela população devido à ineficácia do Governo e aos problemas nas habitações sociais, que colapsaram com os terramotos.

Por fim, o Governo estabeleceu abrigos para as pessoas afetadas, distribuídos em diferentes partes de Caracas, com a promessa de realocá-las para novos lares nos próximos meses. Ainda assim, centenas de famílias procuram, por conta própria, os seus entes queridos soterrados nos escombros, contando apenas com a ajuda de voluntários, vizinhos e movimentos sociais. A colonização não apenas viola a soberania territorial e democrática, como também está a diluir os remanescentes de um processo revolucionário que prometia romper com a lógica neoliberal e colocar as instituições ao serviço do povo.

 

Cronologia da colonização

A burguesia é inimiga do socialismo, independentemente do discurso ideológico que adote para acumular riqueza. Por essa razão, à medida que a nova burguesia bolivariana (2002-2017), sob a liderança de Maduro, se consolida, busca recuperar a relação com os Estados Unidos e reconciliar-se com a antiga burguesia existente antes do processo bolivariano, com quem os laços haviam sido rompidos desde o golpe de estado de 2002. Entre 2018 e 2023, Maduro foi o arquiteto dessa dupla reaproximação, e os seus operadores políticos foram Delcy Rodríguez (diálogo e reconciliação com a associação patronal FEDECAMARAS) e Jorge Rodríguez (negociações com a oposição, com uma agenda permanentemente guiada pelos EUA, o que evidencia as limitações do setor de María Corina Machado). Diosdado Cabello atuou e continua a atuar como garantia de controle interno, por meio da intervenção nos instrumentos políticos e da repressão contra as organizações da classe trabalhadora.

Foi aí que começou o processo de colonização; na claudicação do madurismo, na derrota histórica do movimento contraditório chamado revolução bolivariana. Maduro abriu o caminho para o que parece ser uma traição destinada a facilitar a colonização aberta a partir de 3 de janeiro. Até mesmo os autores pós-coloniais, como Ramón Grosfoguel e seus colegas, que anteriormente tinham cerrado fileiras na defesa do madurismo, romperam hoje abertamente com a liderança colonial (Delcy-Jorge Rodríguez e Diosdado) devido à rendição rude e repugnante que está a ser feita do país aos gringos e ao sionismo. O dia 3 de janeiro e os eventos subsequentes são o resultado da traição à revolução bolivariana iniciada por Maduro.

Os eventos em cascata que moldaram a situação colonial são:

1 Cientista social venezuelano. Militante do atual COMUNES. Professor de pedagogia na Universidade Experimental da Grande Caracas (UNEXCA), atualmente professor visitante na UFABC, em São Paulo, Brasil. Texto original em espanhol publicado na revista Viento Sur de 27/05/2026: https://vientosur.info/tragedia-colonia-y-metamorfosis-politica/. Para o Maio, o texto foi traduzido a partir do original publicado na Viento Sur e dividido em duas partes. A cronologia que fazia parte do texto original foi convertida numa infografia, e a tradução e a revisão incluíram ainda algumas notas de rodapé para contextualizar determinadas passagens aos leitores nacionais. As notas de rodapé são da responsabilidade de Irina Castro, autora da tradução e revisão.

2 Delcy Rodríguez é a atual presidente interina da Venezuela; o seu irmão, Jorge Rodríguez, lidera a Assembleia Nacional como presidente do Parlamento. Juntos, concentram uma grande parte do poder político venezuelano. Já Diosdado Cabello, membro ativo das forças armadas venezuelanas, exerce o cargo de ministro do Interior, Justiça e Paz. Assim, a fase atual da política na Venezuela, sob a liderança de Delcy Rodríguez, é comumente apelidada de “Delcinato”(nota da tradução).

3 O salário mínimo venezuelano é de 130 bolívares mensais, o que equivale a cerca de 0,23 cêntimos de euro. Este valor é compensado por rendimentos provenientes de bónus e subsídios, compondo o rendimento mínimo integral, que pode equivaler a aproximadamente 204 euros. Atualmente, 1 dólar equivale, em média, a 750 bolívares. Já 1 euro equivale a 870 bolívares (nota da tradução).

4 Corralito é um termo hispânico, oriundo da crise económica da Argentina em 2001, que designa uma medida política que restringe o acesso das pessoas aos seus depósitos bancários. Esta medida também foi aplicada durante a crise da dívida grega.

5 Na Venezuela, o salário mínimo é simbólico, 130 bolívares mensais, o que equivale a cerca de 0,23 cêntimos de euro. Este valor é compensado por rendimentos provenientes de bónus e subsídios, informais ou semiformais, ou seja, sem incidência salarial. Em Portugal, por exemplo, o salário é a base da relação de trabalho, ou seja, é sobre ele que se calculam direitos como férias e subsídio de Natal, pensões de reforma e indemnizações. Na Venezuela, o bónus e os subsídios não fazem parte do salário formal, ou seja, não contam para o cálculo dos direitos, além de enfraquecerem a negociação coletiva, pois a componente principal do rendimento está fora do enquadramento legal tradicional (nota da tradução).

6 Dupleto sísmico, ou sismo gémeo, é a ocorrência de dois sismos de magnitude semelhante, localizados próximos um do outro no espaço e separados por um intervalo de tempo muito curto, sem que o segundo seja uma simples réplica do primeiro.