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Jornal Maio

Onde pára o ensino profissional?

Em 1889, o Estado foi à Europa buscar professores. Em 2026, vai buscar operários.

 Jorge Van Krieken

Jorge Van Krieken

Green Heritage, ecoHomes

A 15 de Agosto de 1889, um holandês de 24 anos entrou ao serviço do Estado. Ganhara um concurso aberto na Legação em Berna e três semanas depois ensinava Desenho a operários numa escola industrial em Chaves. Chamava-se Gerard van Krieken. Meu bisavô.

O ensino industrial funcionava desde 1854, mas só em Lisboa e no Porto, e já perdera as oficinas em 1860. Foi António Augusto de Aguiar, por decreto de 1884, que o levou à província: a Covilhã e mais oito escolas de desenho industrial. Mas foi Emídio Navarro quem fez disso uma rede: cinco escolas agrícolas, cinco industriais e nove elementares de desenho industrial.

Navarro não geria fábricas por teoria. A sua personalidade fora moldada pelo trabalho e pelo ensino, tinha vendido sebentas em estudante para pagar os próprios estudos, e sabia, por experiência própria, o que custa chegar a saber fazer alguma coisa sem ter quem pague por si. Não desenhou escolas industriais como quem assina um despacho, desenhou-as como quem se lembra de precisar delas.

Mas faltavam professores. Abriram-se então concursos nas Legações de Roma, Berlim, Bruxelas, Berna, Viena e Paris.

Vieram mais de trinta e cinco.

Vale a pena dizer os nomes, e o que dinamizaram. Não vieram ensinar em abstracto: cada um foi colocado a dar corpo a uma indústria concreta que a cidade já tinha, ou queria ter.

Em Leiria, Ernesto Korrodi chegou com 19 anos, e não se limitou a dar aulas: levantou as ruínas do castelo, assinou perto de 400 projectos ao longo da vida e ganhou dois Prémios Valmor, fazendo da cidade um laboratório de arquitectura aplicada. Ao seu lado, na mesma escola, Nicola Bigaglia, veneziano chegado em 1888 para ensinar Modelação Ornamental, montou em Lisboa a sua própria oficina de carpintaria e marcenaria, onde produzia o mobiliário dos projectos que desenhava, do Teatro D. Amélia em Setúbal a uma dezena de chalés entre Cascais e o Buçaco, provando que um professor de escola industrial também podia ser empresário do que ensinava. Com eles, Giovan Battista Cristofanetti ensinou modelação e cinzelagem, e formou em Braga e em Leiria a geração de artífices que depois trabalhou o estuque e o ornato por meia dúzia de cidades do Norte, um ofício que sem escola própria simplesmente desaparece.

Em Coimbra, Leopoldo Battistini, colocado na Brotero em 1889, ficou 47 anos no país e refundou a cerâmica artística portuguesa na Fábrica Constância, dando a um ofício que se estava a perder uma segunda vida industrial. Charles Lepierre, francês formado em Paris, dinamizou algo ainda mais decisivo: instalou o ensino de química aplicada à indústria, e usou-o para resolver problemas reais do país, análises às águas públicas de Coimbra, estudos sobre o volfrâmio, e trabalho pioneiro para a indústria das conservas de peixe, um dos sectores que Portugal mais exportou na primeira metade do século XX. A par dele, os austríacos Hans Dickel, no desenho de arquitectura, e Emil Jock, na física mecânica e no desenho de máquinas, davam à Brotero uma componente de engenharia aplicada que nenhuma escola da província tinha antes.

No Porto, na Infante D. Henrique, Michelangelo Soá e Vittorio Giuseppe Fiorentini leccionaram lado a lado com Giuseppe Cellini e com o meu bisavô, Gerard van Krieken, formando ali uma escola de desenho e modelação que sustentou décadas de trabalho decorativo na cidade. Van Krieken desenhou os estuques, o mobiliário, o cimento moldado, o vitral da clarabóia e o logótipo da Livraria Lello, remodelou o palacete dos Viscondes de São João da Pesqueira, fez chalés em Alcobaça, e assinou o projecto da Basílica de Fátima, cuja primeira pedra foi benzida a 13 de Maio de 1928. Não ensinava desenho como disciplina abstracta, ensinava-o como ferramenta de produção, e a obra que deixou é a prova.

Em Guimarães, a escolha dos professores segue exactamente a indústria da terra. Martin Braun foi trazido para fiação e tecelagem, para uma cidade que nessa década estava a passar dos teares manuais para os mecânicos, dos três teares de 1884 para os vinte e cinco de 1889, e precisava de gente que soubesse operar e ensinar essa transição, não só de operários, mas de contramestres capazes de formar outros. Paul von Wagner ensinou ornato e Alfred Schwarz, máquinas, cobrindo entre os dois o desenho decorativo e a mecânica que a indústria têxtil do vale do Ave exigia ao mesmo tempo. O suíço Joseph Bielmann, que em 1914 leccionaria com Van Krieken na Escola de Arte Aplicada Soares dos Reis, fecha o ciclo: mostra que estes professores não ficaram parados na escola onde entraram, circularam entre Guimarães, Porto e Lisboa, levando com eles o que cada cidade lhes tinha ensinado sobre a indústria local.

Nenhum destes homens era funcionário de passagem. Ficaram, casaram, construíram, e alguns estão enterrados cá: Korrodi morreu em Leiria em 1944, Battistini em Lisboa em 1936, Van Krieken no Porto em 1933. Cellini voltou a Itália, e foi por isso que o lugar do Porto abriu para o meu bisavô. Mas quem ficou não veio ocupar um lugar vago, veio dinamizar um sector que a cidade já tinha, e que sem eles ficaria parado no artesanato.

Um país à beira da bancarrota decidiu que a falta de competência técnica era um problema de Estado, e foi comprá-la lá fora para a instalar no sistema de ensino, não nos estaleiros. Importou professores, não mão-de-obra. Só pela Faria Guimarães e a Infante D. Henrique passaram mais de 15 mil alunos até 1910. Construíram o Porto e a Lisboa que hoje vendemos aos turistas.

 

Em 1975 extinguimos o ensino técnico. As escolas ficaram com os nomes e perderam as oficinas. Hoje: défice de 80 mil profissionais na construção.

 

E convém dizer quem eram esses alunos. Não eram estudantes: eram operários feitos. Estucadores, marceneiros, tecelões, serralheiros que saíam da fábrica ao fim de dez horas e entravam na escola à noite, aos domingos e dias santos, para aprender desenho, e nas escolas maiores também química, mecânica, tecelagem, modelação, porque perceberam que o desenho e a ciência do ofício eram a diferença entre executar e conceber. Os professores trouxeram o saber; foram estas mãos que o transformaram em cidade. Cada estuque, cada tear mecânico dominado, cada fachada do Porto que hoje fotografamos foi trabalho de um operário que decidiu que o seu ofício merecia estudo. A escola industrial funcionou porque juntou os dois no mesmo nível: o mestre que sabia ensinar e o trabalhador que sabia fazer. Nenhum valia sem o outro.

Em 1975 extinguimos o ensino técnico. As escolas ficaram com os nomes e perderam as oficinas. Foi a segunda vez: as oficinas do ensino industrial já tinham fechado em 1860, reabriram na província com Aguiar e Navarro, e voltaram a fechar 115 anos depois, pelas mesmas razões de sempre, custo e desprestígio do trabalho manual.

O resultado, meio século depois: faltam 80 mil profissionais na construção.

Mas há um erro mais antigo do que o de 1975, e é o que continuamos a cometer hoje.

Sempre que se diz que Portugal precisa de voltar a ter ensino técnico, assume-se que o ensino profissional actual descende das escolas industriais do século XIX. Não descende. São modelos com lógicas opostas, e a confusão entre os dois explica por que investimos em formação sem resolver a falta de profissionais.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Tutela. As escolas industriais nasceram no Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria. Eram instrumento de política industrial: o ministro que as criou geria estradas e fábricas, e criou escolas porque precisava de gente para as operar. O ensino profissional está na Educação, com uma segunda perna no IEFP. Nenhuma das tutelas responde perante quem precisa dos profissionais.

Currículo. A escola industrial era desenhada em torno da indústria local: a Covilhã para a tinturaria, as Caldas para a cerâmica, Guimarães para os têxteis, o Porto para as artes aplicadas. Hoje o currículo vem do Catálogo Nacional de Qualificações, uniforme. Ganha-se comparabilidade, perde-se ancoragem: o mesmo referencial em Grândola e em Braga, independentemente do que existe à volta.

Oficina. A escola industrial tinha a oficina dentro de portas e produzia trabalho real todos os dias, à noite, para operários que já trabalhavam. O ensino profissional é diurno, para jovens de 15 a 18 anos, com um estágio concentrado no fim. A prática deixou de ser o meio de aprendizagem e passou a ser um módulo.

Quem ensina. É a diferença mais consequente e a menos discutida. A escola industrial contratava mestres pelo domínio do ofício, e por isso o Estado abriu concursos nas Legações de Roma, Berlim, Bruxelas, Berna, Viena e Paris. O critério era a competência, não o diploma. Hoje exige-se habilitação académica e certificação pedagógica: um carpinteiro com trinta anos de oficina não entra numa escola, um licenciado sem obra entra. A regra tornou o mestre inelegível. É por isto que formar formadores não é um chavão, é o estrangulamento real do sistema.

Destino do aluno. A escola industrial era terminal por desenho, e foi esse tecto fechado por lei que a matou em 1975. O ensino profissional corrigiu a injustiça com a dupla certificação, mas passou a ser avaliado pela métrica dos científico-humanísticos, o prosseguimento de estudos. Tornou-se via académica de segunda em vez de via técnica de primeira.

Financiamento. Uma vivia do Orçamento do Estado, na rubrica da indústria. O outro vive de fundos europeus, e a oferta segue os ciclos de financiamento, não a procura industrial.

Os números confirmam o desalinhamento. Em 2022/2023, dos 394.964 alunos do secundário, 61% estavam em científico-humanísticos e 34% em dupla certificação, a meta para 2030 é 55%. Na construção, onde faltam 80 mil profissionais e mais de 85% das empresas apontam a mão-de-obra como o seu maior constrangimento, o directório da ANESPO lista três escolas na área. Já não é o cimento que encarece a casa, é a ausência de quem a saiba montar.

E convém medir o que está em jogo, porque não é só um problema, é a maior oportunidade económica do país. Faltam 300 mil casas, diz o Banco de Portugal, o equivalente a todo o parque habitacional de Lisboa e mais do dobro do Porto. A 100 a 150 mil euros por casa, são 30 a 45 mil milhões de euros de actividade económica, entre 10 e 15 por cento do PIB, distribuídos por uma década. Não é despesa, é criação de riqueza que se espalha por toda a cadeia: serrações e fábricas de materiais, carpintarias e caixilharias, transportes e logística, projecto e engenharia, cozinhas, mobiliário, comércio local em cada terra onde se constrói. Só em IVA e contribuições, o Estado recuperaria uma parte substancial do que investisse em formação. E cada posto de trabalho directo na construção sustenta outros na indústria e nos serviços à sua volta.

É esta a prospectiva que devia estar em cima da mesa: 300 mil casas não são um buraco, são uma encomenda. A maior encomenda que a economia portuguesa tem à sua frente, e a única que não depende de mercados externos, porque a procura está cá, à porta, a pagar rendas impossíveis. O que falta não é procura, nem capital, nem terreno. Falta quem saiba fazer e um Estado que perceba que formar 80 mil profissionais não é política social, é a chave de 45 mil milhões de euros de actividade. Navarro percebeu isto em 1889 com muito menos dados: a escola não era despesa de educação, era o motor da indústria.

Enquanto isto, o Ministério das Infraestruturas geriu a política da construção durante dois anos sem tocar nesta raiz: a meta de 26 mil casas do PRR foi revista para 20.209 com subvenção, e menos de 10% foram entregues em 2025. Da CNA, 21.162 fogos contratados, 1950 casas entregues. Como resposta à escassez, um pacto assente em trabalho imigrante, enquanto a nova lei de estrangeiros, diz a AICCOPN, agravou a morosidade. Em formação, a única medida estrutural do ano foi fundir o CENFIC no CICCOPN. Navarro criou dezanove escolas em três anos. Nós fundimos dois centros e chamámos-lhe reforço.

Aguiar era regenerador, Navarro progressista. Adversários políticos, e um continuou a obra do outro sem a desfazer. Navarro fez o que só fazem os políticos de visão: gastou capital político em obra cujos frutos sabia que nunca veria, escolas para operários que não votavam nele, professores estrangeiros que a imprensa da época lhe censurou. Governou para o país que existiria trinta anos depois. Não é questão partidária, o executivo anterior do PS não fez melhor do que este do PSD. É ter horizonte, ou falta dele. Navarro pensou para décadas além do seu mandato. Hoje legisla-se para o próximo relatório de execução, e mede-se uma via técnica com uma régua académica.

O que faria um Navarro em 2026:

  1. Plano nacional de qualificação com metas publicadas, fora da lógica do currículo único;
  2. Oficinas reabertas junto de fábricas reais, em modelo dual, com tutela partilhada por quem precisa dos profissionais;
  3. Formar formadores, abrir a porta a quem domina o ofício sem diploma académico, e pagar ao mestre como se paga a quem sabe: a carreira técnica tem de valer tanto como a académica;
  4. Ir outra vez à Europa buscar competência em construção industrializada em madeira, para ensinar e não para montar;
  5. Encomenda pública que premeie a pré-fabricação.

 

Van Krieken chegou a Chaves porque um ministro decidiu ir buscá-lo, e porque havia uma escola para o receber, com oficina, com currículo ancorado, com um mestre que sabia mais do que os livros.

Quem é que este Governo foi buscar, e para que escola?