Jornal Maio

A educação artística como prática transformadora

Podemos sonhar com uma sociedade de emancipados, que seria uma sociedade de artistas. Tal sociedade repudiaria a divisão entre aqueles que sabem e aqueles que não sabem, entre os que possuem e os que não possuem a propriedade da inteligência. Ela não conheceria senão espíritos ativos: homens que fazem, que falam do que fazem e transformam, assim, todas as suas obras em meios de assinalar a humanidade que neles há, como nos demais.

Mariana Bacelar

Artista, professora e investigadora

Para que serve a arte nas nossas escolas? Que importância pode ter a educação artística na formação dos indivíduos? Qual o seu potencial revolucionário?

Estas são algumas das questões com as quais pretendo, neste exercício reflexivo, desafiar o leitor a problematizar, debater e ousar imaginar uma escola em que a educação artística desempenhe um papel absolutamente fundamental na construção de uma sociedade livre e justa.

Totalmente despolitizada pela legitimação do capitalismo e afastada de todo o potencial utópico, o entendimento da arte nas nossas escolas tem obedecido a uma tradição modernista cuja função é perpetuar uma perspetiva hierarquizada e normalizadora da sociedade e do mundo. Ao adotar a representação coletiva que conhecemos como o mito da originalidade — que enaltece o gesto único enquanto nega todo o arquivo coletivo que é a experiência humana — ou o mito da autoria — que, ao sobrevalorizar o autor, fomenta o indivíduo, o génio, cujo dom o alheia do coletivo –, a arte e o seu ensino procuram um conjunto de soluções formais neutras, desinteressadas e “verdadeiras”, imensamente herméticas e afastadas do senso comum. Banida da vida do coletivo, a arte capitalista é um bem acessível apenas a uma pequena parte da sociedade. Ora, se a configuração da nossa experiência é moldada pelo neoliberalismo, também a arte, a educação e as relações entre elas são colonizadas de forma a rentabilizar a criatividade e o conhecimento gerado, numa perspetiva de empreendedorismo individual (Hernández-Hernández, 2019).

Refém destes mitos, de pouco nos pode servir a arte no currículo escolar, a não ser enquanto lugar de autoexpressão emocional da individualidade ou enquanto oficina de manualidades que produz decorações para o Natal, para a Páscoa, para o Dia da Mãe ou do Pai, ou mesmo para fazer cravos e chaimites para comemorar o dia da Liberdade.

 

O entendimento da arte nas nossas escolas tem obedecido a uma tradição modernista cuja função é perpetuar uma perspetiva hierarquizada e normalizadora da sociedade e do mundo.

 

A educação artística nunca é vista como capaz de gerar conhecimento e, como tal, é perfeitamente prescindível na hora de cortar ao currículo.

No que se refere à educação, à arte e à educação da arte, o nosso desejo é semelhante. Não queremos uma escola que treine os indivíduos para o lucro do patrão. Não queremos uma arte de elites que crie objetos de luxo para a especulação capitalista. Não queremos uma educação artística que produza génios e falhados e que alimente toda essa engrenagem dos mercados.

Então, que ensino artístico ousamos imaginar?

A arte pode ser uma forma de pensar, organizar ou ampliar o conhecimento, uma forma de questionar a ordem estabelecida e de construir ordens alternativas. Mas não deveria ser essa a função da escola, em geral? É aqui que, segundo Luis Camnitzer, se confundem as noções de arte e pedagogia. Aquilo a que chama art thinking ou pensamento artístico permite-nos expandir os limites de outras formas de pensamento, ultrapassando a reinterpretação do visível e imaginando o invisível. A relação com os objetos artísticos que o autor nos propõe passa pelo exercício de compreensão das condições que geraram a sua existência, a que questão ou questões a obra pretende responder, de forma que o espectador seja envolvido no mesmo processo de investigação que esteve na sua origem (Camnitzer, 2009, 2017).

Este processo de investigação presente no trabalho artístico (e que deve existir em todo o trabalho pedagógico!) abre-nos caminho à emancipação, já que aprendemos a criar um projeto do início ao fim, desde a sua conceção, procura das mais variadas soluções e concretização.

Apropriamo-nos desta ideia a partir do livro O Mestre Ignorante. Cinco lições sobre a emancipação intelectual, de Jacques Rancière. O autor apresenta-nos o caso do pedagogo Joseph Jacotot que, na viragem do século XVIII para o século XIX, é levado a uma situação que o torna consciente do carácter embrutecedor da explicação, de que o conhecimento não se traduz e de que as inteligências são iguais. A produção de conhecimento faz-se pelo contacto direto com o próprio conhecimento. O seu não-método panecástico1 produz a ideia de que “tudo está em tudo” e de que iniciar e concluir uma tarefa, um projeto, realizar um todo, nos levam à emancipação.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Ao contrariar os processos de produção taylorista, em que cada trabalhador conhece apenas a sua parte da cadeia de montagem, nunca dominando o todo, o segredo do negócio, a educação artística pode revelar-se altamente revolucionária.

Pode-se, assim, sonhar com uma sociedade de emancipados, que seria uma sociedade de artistas. Tal sociedade repudiaria a divisão entre aqueles que sabem e aqueles que não sabem, entre os que possuem e os que não possuem a propriedade da inteligência. Ela não conheceria senão espíritos ativos: homens que fazem, que falam do que fazem e transformam, assim, todas as suas obras em meios de assinalar a humanidade que neles há, como nos demais (Rancière, 2002, p. 80).

Continuando a desafiar os mitos da originalidade e do autor que dominam o ensino artístico, há outra dimensão com enorme potencial transformador. Trata-se do trabalho colaborativo. A implementação de processos de trabalho colaborativo vem desconstruir os valores individualistas exacerbados na sociedade capitalista, restituindo o sentido do coletivo à nossa existência. Todos são necessários para a concretização de um projeto de sociedade justa.

Em 1988, Herb Perr escreve um livro a partir da sua experiência de artista e professor de futuros professores. Perante os currículos de educação artística focados nos modos de vida da sociedade de consumo e no sucesso individual, que transformam a aula num concurso para distinguir os artistas (poucos) dos outros, o seu “manifesto” é a transformação do “eu” em “nós” através de um manual de arte colaborativa – Making Art Together. Step-by-step. À prática artística individualizada, é possível contrapor a criatividade colaborativa. É possível, na aula de arte (e noutra qualquer) ensaiar uma micro-sociedade baseada na cooperação, em que crianças e jovens aprendem a construir o mundo em conjunto.

Ao abandonar a primazia do objeto enquanto produto pronto a consumir e ao devolver a importância ao processo de trabalho, podemos criar na escola um espaço de resistência, um espaço oficinal, no qual se perde tempo a experimentar modos de ver, de fazer, de (se) relacionar, de indagar e de imaginar. Enfim, um espaço de consciência imaginativa ou de imaginação pedagógica (Hernández-Hernández, 2019). Assim, ao retirar ao currículo tempo para a experimentação e para o erro, estamos a pôr em causa a gestão de tempo da educação higiénica (Adams, 2014). Errar e errar outra vez, eliminar hierarquias nas formas de pensamento, mestiçando prática, teoria, criação (Irwin, 2008), são algumas das formas pelas quais a educação artística pode opor-se à economização do conhecimento (Rogoff, 2008; Bishop, 2012) e ameaçar os modelos de eficiência da educação neoliberal.

A criatividade não é um monopólio dos artistas. É um facto crucial que entendi, e esse conceito alargado de criatividade é o meu conceito de arte. Quando eu digo que cada homem é um artista, quero dizer que todos podem determinar o conteúdo da vida na sua esfera particular, seja na pintura, na música, na engenharia, no cuidar de doentes, na economia e por aí fora. Mas a nossa ideia de cultura é severamente restrita porque a aplicamos desde sempre à arte (Beuys, 1976).

Joseph Beuys, artista e pedagogo, considerava que a “criatividade não é monopólio dos artistas” e que “cada homem é um artista”, querendo, com isto, dizer que nem todos os homens serão pintores, músicos ou atores, mas que a arte pode ser o elemento que permite ao ser humano sentir-se o centro criador de alguma coisa. Assim, a criatividade deveria ser a nossa moeda de troca, substituindo o capital e o lucro.

O artista propõe ainda a transformação dos museus em universidades, exaltando a sua importância enquanto centros de interdisciplinaridade entre todos os campos da atividade humana, considerando que “a arte pode ser a única força revolucionária” (Beuys, 1976).

A questão que se levanta é: a quem serve a escola, a arte, os museus, as universidades e até a criatividade e a imaginação?

A educação artística pode (e deve!) ocupar um lugar de resistência na sociedade capitalista, reivindicando o seu potencial revolucionário. Pensar artisticamente, criticamente, pensar sem um fim previsível, construir um todo de forma coletiva, usar e abusar do tempo, imaginar futuros possíveis fazem da educação artística (na escola ou fora dela) o lugar e o tempo de rutura com o pensamento hegemónico. Reclamamos uma educação artística ao serviço de todos! Reclamamos o acesso democrático à imaginação radical que nos permita transformar o mundo! Reclamamos uma sociedade de artistas!

1 Panecástico (pan = todo/ekastos = cada um) Refere-se à filosofia criada por Joseph Jacotot.


Referências:

Adams, Jeff. (2014) Editorial. Finding time to make mistakes. The International Journal of Art & Design Education, v. 33, n. 1, pp. 2-5.

Beuys, Joseph (2010) Cada Homem um Artista. Porto: 7nós.

Bishop, Claire. (2012). Pedagogic Projects: ‘How do you bring a classroom to life as if it were a work of art?’ In Artificial hells: participatory art and the politics of spectatorship, pp. 241-275. London: Verso

Blotkamp, Carel et al. (Eds.) (1979) Museum in Beweging/Museurn in Motion (Netherlands, Government Publishing Office), pp. 184-97.

Camnitzer, L. (2009), Educación para el arte. Arte para la educación, Porto Alegre, Fundação Bienal do Mercosul.

Camnitzer, L. (2015), Thinking about Art Thinking, e-flux journal. http://supercommunity.e- flux.com/texts/thinking-about-art-thinking/.

Hernández-Hernández, Fernando. (2019) Hibridar las artes y la educación para favorecer la conciencia imaginativa. Revista GEARTE, Porto Alegre, v. 6, n. especial, pp. 31-42.

Irwin, Rita (2008). “A/r/tografia: uma mestiçagem metonímica”. in Barbosa, Ana Mae e Amaral, Lilian (org.), Interterritorialidade: mídias, contextos e educação. São Paulo: SESC SP. https://xdocz.com.br/doc/ana- mae-barbosa-lilian-amaral-interterritorialidade-midiascontextos-e-educaao-capitulo-artografia-uma- mesticagem-metonimica-08p2wkp7jqnv

Perr, Herb (1987). Not Mine, Nor His, Nor Hers—But Ours! The Radical Teacher, No. 33 (September 1987), pp. 12-16.

Perr, Herb (1988). Making Art Together: Step-by-Step. San Jose, California: Resource Publications, Inc. Rancière, Jacques (2002) O mestre ignorante. Cinco lições sobre a emancipação intelectual. Belo Horizonte:

Auténtica.

Rogoff, Irit. (2008). Turning, E- flux journal, 00. https://www.e-flux.com/journal/00/68470/turning/

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