Jornal Maio

Kula, um projeto feito de muitas línguas

Na Lourinhã, território marcado pela presença de comunidades migrantes oriundas de diferentes países, que trazem consigo outras línguas, outras referências, diferentes formas de estar, e em que, para muitas, aprender português é um desafio diário, surge um projeto que quer transformar a forma como se aprende a língua portuguesa — e, sobretudo, a forma como se constrói pertença. Chama-se Kula e nasce de uma ideia simples, mas profundamente necessária: aprender uma língua não é apenas memorizar palavras, é encontrar formas de dizer quem somos.

 

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“Se cada um for até ao fundo dos seus sentimentos, acredito que existe uma linguagem que todos partilhamos, que todos falamos e na qual todos nos podemos encontrar.”

Pina Bausch

O projeto resulta de uma candidatura ao Programa Centro 2030 – Inclusão pela Cultura, que incentiva iniciativas onde a arte se cruza com a inclusão social e comunitária.

Promovido pelo Município da Lourinhã, em parceria com a Sombronautas e o Teatro Inefável – Associação Cultural, desenvolve-se nas aulas de Português Língua de Acolhimento. O projeto trabalha com pessoas migrantes que vivem e trabalham na região, muitas delas ligadas à agricultura e à industria alimentar, e que enfrentam diariamente barreiras linguísticas que limitam a sua autonomia e participação na comunidade.

Em vez de seguir um modelo tradicional de ensino, o Kula propõe outra abordagem: a arte como linguagem comum.


Aprender uma língua criando

Nos laboratórios artísticos, a língua portuguesa é experimentada através do corpo, da voz e da imaginação. Há teatro, música, escrita, desenho, performance. Há improviso, partilha, tentativa e erro. Aqui, as palavras nascem de experiências reais.

Dentro da sala de aula, os participantes exploram o vocabulário através de exercícios criativos. Fora dela, o processo expande-se: redescobrem talentos, contam histórias, cozinham, cantam, lembram e reinventam percursos de vida que muitas vezes atravessam guerra, migração e trabalho duro.

É um espaço onde aprender português também é ganhar confiança, recuperar voz e afirmar identidade.


Uma mesa onde todos cabem

O percurso culmina num momento coletivo: a criação de um espetáculo.

Mas não é um espetáculo convencional. É um banquete performativo.

À volta de uma mesa, cruzam-se histórias, sabores, línguas e memórias. O público deixa de ser apenas espectador e passa a fazer parte da experiência: senta-se, escuta, prova, partilha.

Neste gesto simples de estar à mesa desfazem-se fronteiras.

Como descreve o projeto, não se trata apenas de servir comida, mas de servir histórias. E, nesse encontro, o “outro” deixa de ser estranho para se tornar próximo.


Uma prática de comunidade

Inspirado no ritual Kula — um sistema ancestral de troca entre comunidades, onde circulavam objetos para criar laços de confiança —, o projeto propõe uma nova forma de convivência baseada na dádiva, na escuta e na criação conjunta.

Num território onde a presença de comunidades migrantes é cada vez mais significativa, esta iniciativa responde a uma necessidade concreta: criar pontes entre línguas, entre culturas, entre pessoas.

Mais do que ensinar português, o Kula constrói um espaço onde todos podem participar e pertencer. A diversidade é, acima de tudo, uma força criativa.

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