Obrigado, António Lobo Antunes!
Encontrei em Lobo Antunes uma escrita que penetrava entranhas adentro de cada personagem e em cada pedaço mais obscuro de nós.
ilustração: www.instagram.com/ricardomiguelferreira/
Foi com um Fado Alexandrino que o António Lobo Antunes entrou na minha vida. Ia preparado para uma escrita difícil, mas não foi isso que encontrei, antes uma escrita que penetrava entranhas adentro de cada personagem e em cada pedaço mais obscuro de nós. A desilusão entre amigos vencidos da vida num bas-fond algures em Lisboa e as memórias violentas da guerra colonial. Falava-se do ser humano tal como ele é: confuso, só, perdido, e por isso zangado e profundamente desesperançado. Tinha eu vinte anos e olhava, pela primeira vez, de frente para a verdade que se revela com a idade. Nunca mais consegui parar: Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, Que Farei Quando Tudo Arde? A sua escrita, profundamente poética, hipnótica em roda de uma frase que, de cada vez que voltava, vinha acompanhada por uma sensação diferente. É de sensações que falamos quando abordamos a obra de Lobo Antunes.
Lê-lo não é simpático ou agradável, é uma experiência sensorial, melódica, ondulante. Nada é óbvio, nada nos é dado, nada na sua escrita sofre da vaidade ou da húbris do escritor. Por isso, quis saber mais do homem por detrás da obra, precisava de saber quem escrevia assim, precisava de uma imagem. Daí veio a leitura dos livros mais autobiográficos e inocentes, os primeiros. Li Memória de Elefante, e eis que este homem já nasceu tomado pela violência existencial. Neste e no Conhecimento do Inferno temos a interioridade de uma relação e a vida que se confronta com o fantasma da loucura. António Lobo Antunes era psiquiatra, duvido que tenha sido um dos bons, acho que ele também. Mas a forma como ele olhava para a loucura era desesperadamente terna e sobre os “psis” era profundamente irónica e crítica:
“Os psiquiatras são malucos sem graça” (in Conhecimento do Inferno).
Não conheço ninguém que escreva tão bem sobre a solidão como o António.
Para mim, a sua escrita era já uma obsessão. Precisava, a espaços, daquela decadência da linha do Estoril, de uma burguesia viciosa numa qualquer herdade alentejana, do silêncio da violência sexual, da doença, do absurdo da guerra, do desespero calado do olhar de uma mulher, dos falsos democratas, dos terroristas, dos loucos, da brincadeira assustada de uma criança e, sobretudo, da SOLIDÃO.
Não conheço ninguém que escreva tão bem sobre a solidão como o António. A certa altura, escreve ele no Conhecimento do Inferno: “(…) a solidão (…) é uma pistola de criança num saco de plástico na mão de uma mulher apavorada.”
Comecei a estudar a sua obra pela lente de Maria Alzira Seixo e pelas entrevistas que ele, com a falsa modéstia de um homem inseguro, fingia não gostar de dar.
Lobo Antunes era louco, passou a vida sentado numa secretária em guerra com os seus fantasmas tendo uma caneta Bic como arma. Um álibi para justificar o evitamento experiencial de quem carrega desespero. Escrevia à mão e as suas páginas estavam cheias de correções e anotações. Invejo verdadeiramente os seus revisores e tradutores. Deve ser penoso traduzir aquele sismógrafo que saía da sua pena!
APOIA O MAIO!
Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Lobo Antunes era louco, sim, mas um louco como todos nós quando nos apercebemos do nada que somos. E por isso gostava da vida, dos pequenos prazeres, da hora de almoço no restaurante do Zé, das tertúlias com o seu irmão, o melhor amigo (esse sim, demasiado humilde) José Cardoso Pires. Tenho-os juntos na minha estante e sinto uma admiração emocionada pela amizade entre os dois.
Gostava da vida, sim! Do Benfica e das filhas. Gostava de mulheres, embora o ache tímido e inseguro. Não invejo a sorte das mulheres que o amaram.
Mas era um homem só, emparedado num eterno solilóquio.
Soube há uns anos que entrara em demência, percebi que não escreveria mais uma letra. Como David Bowie, acho que ele foi preparando a sua morte, relembrando-se dos mortos que o habitavam e sobretudo da sua mãe: “Para aquela que está sentada no escuro à minha espera.”
Ainda não li.
Pegar hoje num livro de Lobo Antunes é para mim um sacramento, um movimento intencional, difícil e algo violento. Uma penosa viagem ao abismo de mim próprio, tão odioso como magnético.
Lobo Antunes foi, ao lado de Miguel Torga, o meu pai literário. Sou-lhe eternamente grato por hoje chorar enquanto escrevo estas palavras.
Hoje, no dia da sua morte, choro por um homem que nunca conheci. Se isto não é uma das mais profundas experiências que a leitura nos pode trazer!
Um pai, uma escola, uma lente pela qual aprendi a ver a vida.
Obrigado, António!
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Luís Franklin
Psicólogo