Jornal Maio

Corto Maltese sou eu

Corto Maltese, o personagem da banda desenhada, confunde-se muitas vezes com a vida aventurosa do seu criador, o italiano Hugo Pratt.

“E, no entanto, Striker, compreendes que aquele homem teve a grandeza de compreender que os selvagens faziam parte do risco normal, o risco aceitável, ligado a qualquer exploração; parte da aventura, em suma, como o podia ser o naufrágio, o escorbuto, ou morrer de sede, ou de febre tropical, tudo isso era … ‘aceitável’, compreendes, até morrer para seguir um projeto insensato, se esse projeto permite viver uma vida excecional.”

Esta longa citação foi retirada da novela Corto Maltese – A Balada do Mar Salgado, de Hugo Pratt1, que em 1995 decidiu transpor para aquele formato a sua novela gráfica de 1967, onde pela primeira vez se deu a conhecer Corto Maltese, marinheiro, ocasionalmente pirata e essencialmente aventureiro.

Aquelas palavras foram dirigidas pelo comandante Slutter, jovem primeiro-oficial da Marinha Imperial Alemã, em momento imediatamente anterior ao início da Primeira Grande Guerra, ao primeiro oficial da tripulação do submarino que comandava, e falava de Jean François de La Perouse, almirante francês que tentou a circumnavegação, por ordem de Luís XVI, numa tentativa de completar os trabalhos de James Cook. A reflexão era motivada pelo facto de, na guerra que se avizinhava, estar reservado para aquela tripulação um papel menos glorioso do que gostariam, e com poucas possibilidades de vitória. O carácter da personagem ficou assim definitivamente traçado, assim como todo o espírito da história que está a ser contada. 

E Corto Maltese, que nesta história é mais um espectador do que verdadeiramente interveniente, é a personificação deste ideal de aventureiro, no seguimento de personagens deixadas por Conrad, Verne, Salgari, Stevenson ou Borges. E, se Flaubert disse um dia que “Mme. Bovary c`est moi.”, Corto Maltese foi criado à semelhança de Hugo Pratt.

 

Hugo Pratt nasceu em Itália, em Rimini, onde os pais se encontravam de visita a familiares, a 15 de julho de 1927, vivendo a família em Veneza. Descendia, pelo lado paterno, de Joseph Pratt, seu avô, nascido em França e com origens inglesas, que veio para Veneza como professor de francês. Pelo lado materno, o avô Eugénio Genaro, pedicuro de profissão, de origem espanhola, de família judaica convertida ao catolicismo, casou com Cesira Greggyo, judia.

Eugénio Genaro era também uma figura política em Veneza, liderando o grupo fascista local, e Hugo Pratt atribui a atividade do seu avô ao facto de os seus pais se terem conhecido. Eveline Genaro e Rolando Pratt trouxeram ao mundo Hugo, que cresceu num ambiente dominado pelo meio judaico, do lado da mãe, e do grupo fascista, do lado do pai, “A Sereníssima”.

Em 1936, Mussolini, a pretexto de incidentes na Somália Italiana, leva a Itália a conquistar a Etiópia, naquilo que foi um dos conflitos que antecederam a Segunda Grande Guerra. Esta ação expansionista do regime fascista levou a uma mobilização do país, com a afetação de recursos materiais e humanos necessários à necessária “colonização”. E em 1937 a mãe de Hugo junta-se ao marido, que tinha ido para a Etiópia um ano antes, ao serviço do Exército.

Entre 1937 e 1942, Hugo Pratt torna-se homem, em ambiente colonial primeiro, e de guerra depois (chegou a ser oficialmente membro das forças armadas locais, o mais jovem de que há registo), desenvolvendo-se precocemente a todos os níveis e convivendo de perto quer com as populações locais, quer com os militares – italianos, claro –, e mais tarde com o Exército inglês, que acaba por obrigar a Itália a retirar. Hugo regressa a Itália com a mãe em dezembro de 1942, numa ação de repatriamento da população civil organizada pela Cruz Vermelha. O pai, entretanto feito prisioneiro de guerra, nunca chegará a regressar.

Até ao fim da guerra, Hugo Pratt colabora com as forças locais, com as forças alemãs e, finalmente, com a forças americanas, como intérprete.

A primeira atividade artística de Hugo Pratt veio a ser, na verdade, na música, enquanto performer em grupos de teatro e bandas musicais, atuando perante plateias de soldados, de estudantes universitários ou até operários. Só em 1945 a banda desenhada começou a ser a sua atividade principal, ainda que, segundo o próprio, não tivesse a ambição de desenvolver essa arte e de a ela se dedicar profissionalmente para o resto da vida.

Em 1949, depois de algumas viagens pela Europa, Pratt aceita um contrato de trabalho na Argentina, e parte, convencido de que dali iria rápida e facilmente para os Estados Unidos. Acabaria por ficar durante 13 anos.

Em Buenos Aires, o jovem e talentoso autor, leitor omnívoro, aventureiro e com uma extensão de interesses intelectuais e humanos consistente com a vasta experiência de vida que já detinha, levou muito longe e muito alto a sua arte, consagrando-se como autor respeitado e com sucesso comercial. Apenas no início da sua carreira tinha assinado os argumentos das histórias que desenhava, e terá sido ali, trabalhando com grandes argumentistas, que desenvolveu a mestria narrativa que conhecemos. Primeiro com Alberto Ongaro, e depois com o grande Héctor Oesterheld, com que produziu as séries “Sargento Kirk”, “Ticonderoga” e “Ernie Pike”.

Durante os anos em que esteve em Buenos Aires, Pratt não parou de viajar, tendo inclusivamente estado por uma breve temporada no Brasil. Mas em 1962 Pratt deixa a Argentina definitivamente, depois de uma breve passagem por Londres, e após passar por Lisboa e Paris, regressa a Veneza. Até 1970 trabalha a partir de Itália, já com o nome consagrado (chega a trabalhar para uma revista batizada Sgt.Kirk, personagem sua dos tempos de Buenos Aires. Mas viaja com muita frequência e, sabemos hoje, que em todos os seus destinos encontra motivos e temas que acaba por utilizar nas suas histórias.

É nessa revista que a partir de 1967 é publicada A Balada do Mar Salgado, onde, nas palavras do próprio, Corto Maltese “não passava de uma personagem entre outras”. Em 1970, o semanário francês Pif, que tinha também como colaborador Eduardo Teixeira Coelho, extraordinário autor de BD nascido na ilha Terceira, começa a publicar pequenos episódios com Corto, que acabam mais tarde por ser reunidos por ciclos. Pratt começou por levar o seu herói ao Brasil e em especial à Amazónia, em Sob o Signo de Capricórnio e Corto Maltese na Amazónia, às ilhas britânicas em As Célticas, ao Norte de África em As Etiópicas, e à Sibéria, em Corto Maltese na Sibéria. É neste ciclo que terminam as histórias de Corto Maltese neste formato. A partir dali, teríamos histórias únicas, num regresso ao formato inicial de A Balada do Mar Salgado. Corto Maltese na Sibéria já saiu na Itália, na revista Linus, e em França, na (a suivre), onde vieram a ser publicadas as histórias posteriores.

Os Escorpiões do Deserto é o título de outra série que Pratt desenvolve desde 1975, baseada uma unidade militar ao serviço dos Britânicos no Norte de África, durante a Segunda Grande Guerra. Histórias em grande parte passadas em cenários que Pratt conhecia e com personagens baseadas em pessoas com quem se tinha efetivamente cruzado.

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Mas Corto Maltese leva mais longe a própria personagem e a arte de Pratt. Após perseguir um comboio com o ouro dos czares, Corto Maltese volta em Fábula de Veneza, de 1977, A juventude de Corto Maltese: 1904-1905, de 1981, A Casa Dourada de Samarcanda, de 1985, Tango Argentino, de 1986, As Helvéticas, de 1987, e , de 1981.

Em toda a saga temos Corto Maltese como espectador, ainda que seja difícil de perceber se os acontecimentos não são espoletados pela sua mera presença. Parte daquilo que o define é dito por aqueles que o rodeiam. Podemos encontrar com frequência grandes vultos das sociedades da época, das artes e da política, sem que o leitor tenha a sensação de que o autor está a forçar a sua erudição, que é manifesta. Num episódio de As Etiópicas temos um oficial do Exército britânico a citar Rimbaud, após o qual Corto exclama que estava convencido de que os oficiais britânicos só gostavam de ler Kipling. Um dos melhores retratos de Corto é feito por Cush, personagem secundária de As Etiópicas, num episódio de Os Escorpiões do Deserto, onde Corto é apenas uma memória. É aqui que ficamos a saber que a derradeira aventura de Corto terá sido em Espanha, durante a guerra civil.

Não sabemos, mas podemos imaginar que Corto Maltese tenha passado pelo Faial durante a Primeira Grande Guerra. Afinal, tratava-se de um importante porto comercial nas rotas atlânticas e centro de passagem de cabos submarinos. Teria seguramente apreciado a vida cultural da ilha, que contava, à época, com uma das mais altas taxas de alfabetização do país. Não custa imaginá-lo na inauguração do Peter Café Sport, ou a visitar a Sociedade Amor da Pátria. Talvez até a salvar uma dama durante o bombardeamento alemão. Seria um personagem digno do local e da época, e é importante que isso seja hoje recordado.

 

Não sabemos, mas podemos imaginar que Corto Maltese tenha passado pelo Faial durante a Primeira Grande Guerra.

 

A dupla espanhola Juan Diaz Canales e Ruben Pellegero foi a responsável pela retoma da personagem em 2017, com o álbum Sob o Sol da Meia Noite. A que se seguiram Équatoria, em 2017, Dias de Tarowean, em 2019, e Noturno Berlinense, em 2022. Quem sabe se ainda trarão Corto ao triângulo?

“Estás muito bonita! Fazes-me lembrar um tango de Arola que eu ouvia no cabaré Parda Flora, em Buenos Aires.”

“Talvez houvesse por lá alguém parecido comigo?”

“Não. É precisamente por não te pareceres com ninguém que gostaria de te encontrar em toda a parte.”

Este diálogo de A Balada do Mar Salgado, mas que podia estar no Johnny Guitar, de Nicholas Ray, entre Corto Maltese e Pandora Groovesnore, termina de forma abrupta: “Eu não iria consigo, Corto Maltese.”

Sabemos, porque o próprio o disse, que uma cigana lhe teria dito que a sua mão não mostrava uma linha da sorte, pelo que ele teria pegado na navalha de barba do pai e traçado uma do tamanho que quis. Pelas mulheres que conheceu, e que tão bem Hugo Pratt soube retratar, fica a dúvida se essa linha da sorte teve ou não efeito (ou até se a história era verídica). 

Também é por causa de grandes histórias de amor que nunca aconteceram que cada um de nós gostaria de encontrar em toda a parte um Corto Maltese (ou uma Pandora).

Seguramente Corto Maltese terá passado pelos Açores, em algum momento das suas andanças. Sorte nossa.

1 Contexto, 1997, tradução de António Pescada e Mário Dias Correia.

 

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Hugo Tiago

Hugo Tiago

Membro da direção do IAC – Instituto Açoriano de Cultura.