Jornal Maio

Vai garboso e não Seguro

“Vem por aqui”, dizem-me alguns com olhos doces, / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: “vem por aqui”! / Eu olho-os com olhos lassos, / (Há, nos meus olhos, ironias e cansaços) / E cruzo os braços (…)1

António José Seguro acaba de ser eleito Presidente da República com uma larguíssima maioria. Praticamente toda a esquerda e parte da direita votou nele, contra o candidato da extrema-direita. A sua primeira prova de fogo não é da guerra contra o Irão apenas porque conta com a complacência de um país que acha que Portugal, nestes grandes conflitos, “não risca nada”. A Espanha opôs-se à utilização das suas bases pelos EUA e o Governo de Portugal fez de conta que não viu os aviões americanos nas Lajes. O intrépido Rangel conseguiu até agradecer a Israel a ajuda no repatriamento de portugueses – que nunca existiu. Aparentemente confundiram com um cidadão brasileiro chamado Israel.

Não sendo, para já, a guerra, a outra prova de fogo é a do pacote laboral. E Seguro parece ceder aos que da direita lhe dizem com vozes doces “Vem por aqui!”

“Fiz um apelo e renovo”, declarou. “O país precisa de um acordo equilibrado em matéria de legislação laboral e, das informações que recolhi, nada está fechado”. Não está fechado? Três milhões de trabalhadores em greve geral recusaram o pacote laboral. A CGTP recusou sequer discuti-lo. Toda a esquerda política, incluindo PS, PCP e Bloco, de onde veio a maioria dos votos que o elegeram, recusa-o. Até a UGT concluiu que não há condições para assinar qualquer acordo. Governo e associações patronais ficaram a falar sozinhos.

“Se chegar o documento inicial do Governo, vetarei politicamente porque não resolve nenhum problema, pelo contrário, vem criar mais instabilidade social”, afirmou Seguro durante a campanha eleitoral, dando como exemplos o alargamento dos contratos a termo, a possibilidade de as empresas recorrerem ao outsourcing após um despedimento, a reposição do banco de horas individual ou a não reintegração de trabalhadores após despedimento ilícito. Mas o documento do Governo contém mais de 100 artigos. Para quê premiar um Governo condenado a negociar com o Chega (que os eleitores de Seguro derrotaram nas eleições presidenciais) para aprovar parte do seu pacote, abrindo a porta à aprovação de um pacote laboral recauchutado?

O poema de José Régio com que abrimos este editorial termina com as palavras: “Não sei para onde vou, / Sei que não vou por aí!” Talvez Seguro não saiba para onde vai, mas saberá por onde não pode ir?

1 José Régio, “Cântico Negro”.