Jornal Maio

Kristin: A culpa é do Vento?

Na última semana, Portugal foi atingido por uma sucessão de eventos climáticos extremos, com especial destaque para a tempestade Kristin. Na região de Leiria, os seus efeitos foram devastadores, comparáveis a um cenário de guerra: dezenas de milhares de casas ficaram sem cobertura, habitações pré-fabricadas implodiram, mais de 800 postes de muito alta tensão colapsaram, o estádio municipal foi parcialmente desmantelado.

Uma semana depois, grande parte da população continua sem eletricidade, água ou comunicações móveis; as escolas permaneceram encerradas durante dias. E isto falando apenas da cidade de Leiria, sem mencionar localidades ainda mais fustigadas e isoladas, como Vieira de Leiria ou Pedrógão Grande. Perante a dimensão da destruição, é quase um milagre que o número de vítimas mortais tenha sido relativamente baixo.

Mas não nos enganemos: a culpa não é do vento.

Os chamados “desastres naturais” nunca são apenas naturais. Aliás, a própria “Natureza” moderna, entendida como algo separado do “homem” ou da “civilização”, é uma invenção histórica do capitalismo. Essa separação serve um propósito muito concreto: designar como externo aquilo que estaria fora do controlo e da responsabilidade humana e, ao mesmo tempo, legitimar o seu tratamento como recurso gratuito, passível de colonização e exploração em nome do lucro. Esta imagem falsa — que apresenta a crise como algo inevitável ou exterior — limita a nossa capacidade de ação e naturaliza a inação perante catástrofes que se apresentam como fatalidades.

É por isso fundamental perceber que os desastres chamados “naturais” são sempre, acima de tudo, desastres sociais e políticos. Isso torna-se evidente tanto nas suas consequências como nas suas causas. Eventos catastróficos deste tipo afetam as populações de forma profundamente desigual: penalizam sobretudo quem vive em territórios mais expostos, com infraestruturas precárias, serviços públicos fragilizados e menor capacidade de resposta. Um episódio climático extremo não tem o mesmo impacto sobre quem vive em habitações sólidas e seguras e sobre trabalhadores empurrados para habitações pré-fabricadas, ou obrigados a deslocar-se e a trabalhar durante a noite em condições meteorológicas adversas.

Mas também as próprias causas destes desastres estão longe de ser neutras. As alterações climáticas, amplamente documentadas pelo IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), tornam estes fenómenos cada vez mais frequentes e intensos, refletindo interesses económicos e políticos que colocam o lucro acima da vida. Não se trata de acaso, mas de um modelo económico predatório assente na extração contínua de recursos, na expansão da petroquímica, da agroindústria intensiva e dos transportes fósseis. A isto soma-se a urbanização desordenada, a desflorestação e o abandono do território. A responsabilidade recai sobre um sistema capitalista que coloca o lucro acima da vida — e sobre os decisores políticos que, durante décadas, governaram em função desses interesses.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Perante a catástrofe, o Estado demonstrou a sua falência. Em vez de uma resposta rápida, coordenada e à escala nacional, assistimos a um Governo ausente, substituindo ação por visitas simbólicas, declarações vagas e selfies. No primeiro dia após o desastre, foram enviados apenas quatro militares para apoiar a Proteção Civil no distrito de Leiria. Só cinco dias depois se decidiu reforçar os meios de forma minimamente adequada. A ministra da Administração Interna admitiu desconhecer planos de prevenção e reação, classificando o ocorrido como um “fenómeno pedagógico” — uma expressão que procura normalizar aquilo que é, na verdade, incompetência estrutural. Décadas de austeridade e privatizações deixaram um Estado incapaz, descapitalizado e sem meios para proteger quem mais precisa.

A fragilidade ficou particularmente clara no setor energético. A destruição da rede elétrica evidenciou a ausência de uma política séria de investimento no reforço, fiscalização e adaptação das infraestruturas às novas condições climáticas. Em vez disso, empresas como a EDP e a REN priorizam a distribuição de dividendos aos acionistas — entre eles a China Three Gorges, a State Grid of China e grandes fundos financeiros internacionais. Coloca-se aqui uma questão simples: quando a população não paga a fatura da eletricidade, o fornecimento é cortado de imediato. Mas quando a empresa falha durante dias, deixando milhares sem luz e sem respostas, onde está a responsabilidade? A segurança das populações, a soberania energética e a resiliência das infraestruturas não podem ser sacrificadas em nome da maximização do lucro. Foi isto que nos trouxeram as privatizações: responder aos acionistas em vez de responder às necessidades coletivas.

O mesmo se aplica às comunicações, que colapsaram quase por completo. A fragmentação entre operadoras, a falta de redundância e a ausência de coordenação pública revelam um setor privado incapaz de garantir um serviço essencial em momentos críticos.

 

A culpa não é do vento. É de um sistema que transforma fenómenos naturais em tragédias sociais.

 

Perante o colapso do Estado, foi a auto-organização popular que respondeu. Voluntários distribuíram comida, cobertores e materiais, demonstrando que a solidariedade de classe salva vidas. Este processo tem uma dimensão pedagógica: ensina práticas de cooperação, planeamento coletivo e consciência crítica. A história mostra-o: em 1967, as chuvas intensas que causaram mais de 700 mortos na região de Lisboa tornaram-se um momento central de politização, quando milhares de estudantes se mobilizaram no terreno enquanto o Estado fascista se limitava à repressão e a censura impedia os meios de comunicação de divulgar as dimensões da tragédia.

Mas é igualmente fundamental reconhecer os limites do voluntariado numa sociedade altamente especializada. As pessoas não sabem, nem podem, reconstruir telhados ou redes elétricas em segurança. Os riscos são reais: mais de 600 pessoas já deram entrada nas urgências do Hospital de Leiria com ferimentos associados a trabalhos improvisados de limpeza e reconstrução. A reconstrução exige conhecimento técnico, coordenação e meios produtivos ao serviço da população. Não faz sentido que milhares de trabalhadores da construção civil regressem amanhã à construção de hotéis, enquanto há famílias sem casa, sem eletricidade e à mercê das próximas chuvas.

Onde está a requisição civil? Aquela que surge sem hesitação para limitar direitos laborais, mas desaparece quando é preciso garantir abrigo, reparações e dignidade. É urgente requisitar meios da construção civil, mobilizar trabalhadores qualificados e requisitar alojamento turístico para realojar os desalojados.

A culpa não é do vento.
É de um sistema que transforma fenómenos naturais em tragédias sociais.

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Jonas van Vossole

Jonas van Vossole

Investigador em ecologia política no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra