Jornal Maio

Venezuela: do neo-imperialismo à oratória “democrática”

Quase nada de novo existe na agressão contra a Venezuela. O intervencionismo norte-americano na América Latina vem de longe.

Uma Venezuela cercada pela maior frota naval norte-americana deslocada para o mar das Caraíbas, sem que possa predizer-se com exatidão o que vai acontecer, constitui um valioso recordatório sobre a relação entre poder e indeterminação. Como bem teorizou Alain Badiou, a extensão do poder é diretamente proporcional à indeterminação com que procura exercer-se e forçar os seus limites. Quanto maior a indeterminação, quanto maior a dúvida sobre o seu alcance e a sua vontade, maior esse poder se torna.

Com Trump, pouco há de novo na política “hemisférica” da Casa Branca, mediante a reabilitação do arcaico direito feudal de “pernada” do velho Monroe, doutrinariamente lavrado em 1823. De um modo emblemático edificou-se, até, metonimicamente, a designação que funde um dos Estados do continente, os EUA, com a sua totalidade, “a América”.

Na sua fase historicamente mais recente este intervencionismo tem a sua génese em 1954 na “República das Bananas”, com o golpe contra o governo de Jacobo Arbenz, na Guatemala, ao serviço da United Fruits, a quem pertenceriam as plantações e os solos guatemaltecos. Este argumento reedita-se agora com uma das mais recentes declarações de Trump quando afirma que na Venezuela se trata de “recuperar”, sequestrando petroleiros “sancionados”, a propriedade norte-americana do petróleo venezuelano, “usurpado” pelo governo do país.

 

A Oeste quase nada de novo

Quase nada existe de novo na agressão contra a Venezuela. Nada que Cuba e os Cubanos desconheçam, enquanto vítimas de um dos maiores crimes de lesa-humanidade que continua placidamente a ser cometido com a continuada guerra económica que reduziu o país a uma pauperização tão indescritível quanto mal descrita e acusatoriamente voltada contra a revolução.

Nada de novo também, na ideia fundamental aplicada contra a Nicarágua sandinista nos anos 1980, quando se trocaram armas por dinheiro do narcotráfico (Oliver Norton e o Irão-Contra, lembramo-nos?), cujas perspetivas revolucionárias deviam ser afogadas por uma guerra de agressão em nome da “liberdade”.

Em suma, o “quase” neste nada de novo, no caso venezuelano, tem apenas a ver com os recursos naturais do país, dos mais ricos do mundo, que o situam no epicentro das guerras em curso por recursos.

 

Esse supremacismo reaparece no neo-colonial-imperialismo revestido não pelo termo ‘civilização’, mas pelos termos ‘democracia e direitos humanos.

 

Uma revolução bem-sucedida num dos países mais ricos do planeta não representaria apenas um mau exemplo para os restantes povos, como o constituído representado por Cuba ou pela Nicarágua. Poderia, ao invés, transformar a Venezuela numa potência regional poderosa, cujo “descontrolo” representaria uma enorme esperança e apoio para outros povos latino-americanos e não só. Por conseguinte, não existe qualquer inquietação com “a democracia” ou os “direitos humanos” dos Venezuelanos, fórmula que substituiu no discurso supremacista do Norte ocidental, as antigas e hoje insustentáveis bases argumentativas, de levar aos “selvagens” os méritos cristãos da “civilização”. Esse supremacismo reaparece, assim, no neo-colonial-imperialismo, revestido não pelo termo “civilização”, mas sim pelos termos “democracia e direitos humanos”.

 

As esquerdas e o conto do vigário

Desafortunadamente, não causa grande surpresa a adesão de várias esquerdas europeias ocidentais (e não só), a este argumento neo-imperial, sempre que, antes ou depois da crítica ao intervencionismo de Washington, tem de haver uma referência “ao regime de Maduro”. 

Trata-se, aliás, a meu ver do mesmo “mas” a que essas mesmas esquerdas recorrem quando, a respeito de outras áreas internacionais e da geopolítica, tentam enquadrar-se sem maiores percalços nas dinâmicas de extrema-direitização das suas existências políticas nacionais.

O problema não parece, pois, um qualquer debate (legítimo) sobre o processo venezuelano iniciado com Chávez. Mas, como a classe de oportunismo que prodigaliza uma suave cumplicidade pós-moderna com as políticas imperiais, travestida de um discurso de “esquerda linha branca”, passível de ser encontrado a propósito de cada esquina mais agreste do mundo dos nossos dias. Como se em causa estivessem as escolhas dos Venezuelanos e não o novel e agressivo supremacismo imperial.

Quero saber mais sobre: