Um Congresso de Ideias para Transformar o Mundo
Catarella, um agente trapalhão, mas simpático, que trabalha na esquadra da polícia de uma cidade siciliana, porta de entrada dos romances de Andrea Camilleri, costumava avisar o inspetor Montalbano que estava ali fulano de tal “pessoalmente em pessoa”. Catarella anunciava afinal com sagacidade o mundo novo da IA, em que não nos tocamos, olhamos, vemos, reparamos, sentimos, porque entre nós e o outro está um objeto fantasmagórico, que nos separa, o computador. E assim constrói-se a desconfiança. Não há humanidade sem confiança, sem corpo, sem presença.
O jornal Maio viu a luz do dia em outubro de 2025 e centenas de pessoas escreveram-nos para “ajudar no que for preciso”, de realizadores e jornalistas a carpinteiros e motoristas, estudantes e cronistas, ninguém faltou a este poema que é uma aventura solidária onde nos encontramos para informar, pensar, com crítica, paixão, rigor. Para nós, a guerra é sangue, é dinheiro, são pernas de crianças amputadas, é a inflação na nossa mesa e o lucro nas empresas de armamento, é a nossa humanidade a esvair-se, não a noticiamos antes do futebol, no mesmo tom “isento” dos media hoje que na sua maioria desinformam amputando os amputados, paralisando a nossa possibilidade de imaginar um mundo alternativo. Para nós, a informação é dar conhecimento, é educar, é construir esfera pública, bem comum, para que cada cidadão possa pensar por si conhecendo (e não apenas confinando no meio a ou b). Não acreditamos que o capitalismo “é o fim da história”, que nos é oferecido no tom apocalíptico de resignação. Da mesma forma que no passado obscurantista se olhavam os deuses no Olimpo, hoje olha-se o fogo de artificio da morte lançado por drones, luzinhas que caem do céu, e ficamos siderados. O combate do Maio é para transformar, mudar, revolver, dizer não, olhamos para as estrelas não para ficarmos paralisados, mas para contemplar o conhecimento que nós, como humanidade, fomos construindo na relação com a natureza, para uma sociedade de cultura, cuidado, criação, saber e arte.
Mas há sempre um mas: sem organização nada muda. O caminho de qualquer projeto exige confiança, e não há confiança online. Não há vida integral online.
Por isso, em vez de agradecer o apoio, decidimos fazer um congresso, que seja de ideias e laços. Num espírito crítico em que, prometemos, vamos falar sobre como não chega ocupar as redes contra a extrema-direita, é preciso reinventar a forma e não apenas o conteúdo online. Como encarar, para além das propostas punitivas, novas relações entre sexos baseadas no amor, no companheirismo, na alteridade que nos constrói; porque a questão da propriedade pública é o caminho mais fácil e porventura único para resolver a falta de acesso à habitação para a maioria da população (não há crise da habitação para os capitalistas); como hoje há uma patologização e medicalização da solidão, de problemas que são sociais, e só podem ter soluções coletivas; vamos ter no meio de tudo isto música, poesia, teatro, palhaços. Dar tudo a todos. Juntem-se a nós, pessoalmente em pessoa.
Inscrições até 15 de abril: AQUI
Esperamos ver-vos lá!
A redação do Maio
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