Jornal Maio

Era uma jovem belíssima. Loira, alta, corpão, uma potranca, diziam os homens à boca miúda, como se falassem de uma égua a ser domada. Dentre os candidatos a domadores, estava o homem que eu queria para mim. Era um pouco mais velho que eu, bonito, elegante, educado, não via nela uma égua, acho que não. Era um cavalheiro. Tinha idade para ser pai dela. Ela, por sua vez, filha sem pai, supria naquela relação a carência paterna. Certo mesmo é que ele, como tantos outros homens, novos e velhos, a desejava e era o mais fiel dos seus admiradores. Vivia a cercá-la de atenções, não perdia oportunidade de demonstrar o quanto podia ser útil, o companheiro agradável, resolutivo e apaixonado que ela podia ter. Ela sabia do seu poder e diversas vezes esfregou na cara dele um parceiro mais novo, bem mais novo, viril, um garanhão, representação incontestável da testosterona que ele já não exibia. Mas bastava ela estalar dois dedos, lá estava ele aos seus pés. Se ela o mandasse matar alguém, ele iria correndo cumprir a ordem. Só depois perguntaria porquê. 

Eu não conseguia afastá-la do meu convívio, embora fosse justo que o fizesse. Mas a minha porção civilizada e orgulhosa, com esforço me conduzia a tratá-la com simpatia. Falsa, com certeza. Aquela cabra dizia ser minha amiga, eu respirava fundo e sorria, quando minha vontade era me pendurar naqueles seus cabelos longos e balançar-me neles até quebrar o seu lindo e longo pescoço. Imaginava o seu cortejo fúnebre, os garanhões com a sua virilidade encolhida e recolhida, enquanto carregavam o peso do seu caixão. Que defunta mais pesada! “Precisava ser tão grande?”, interrogar-se-iam eles. O corpo tão cobiçado, objeto das fantasias masculinas – talvez não só –, era, finalmente, colocado no lugar que eu queria, do jeito que me apetecia. Era só um peso. Morto. Era bom imaginá-la com o pescoço roxo, algodão nas narinas, olhos fechados, corpo inerte, evacuada do imaginário erótico e das camas redondas dos motéis cheios de luzes e espelhos, que povoaram o imaginário dos que desejaram estar em companhia da loira, para tê-la posta num estreito caixão, que a instalaria numa longa noite escura sem direito a volta. Em pouco tempo, relegada ao esquecimento. Talvez assim ele, o objeto da minha paixão, conseguisse ver que eu tinha um corpo, que queria afeto físico, que não era só inteligente, séria, honesta, atributos que ele reconhecia e declarava, talvez para me compensar pelo sentimento não correspondido. Ele gostava de mim. Não estava sendo falso quando dizia que me queria como amiga por toda a sua vida. Quem não? Sou uma ótima amiga. Ele só não queria protagonizar a minha história, no papel que lhe destinei. Idiota!

Uns trinta anos se passaram. Nos distanciamos os três sem nunca perder o contacto. Às vezes, eu e ele conversávamos por telefone. Nunca falamos abertamente sobre esses sentimentos desencontrados, mas eu sempre recolho das entrelinhas um quê de arrependimento. Pode ser só imaginação minha, talvez ele continue alimentando aquele sonho não realizado. Ela casou com outro. Os dois, ele e a ex-potranca loira, também continuaram se falando. Estamos, ela, ele e eu, em diferentes estados, mas as redes sociais, que cumprem a função de aproximar as pessoas, até as mortas, também nos mantêm “amigos”. Inclusive eu e ela. Embora nos falemos muito raramente, também, graças ao mesmo veículo, somos “amigas”. Confesso que é a única pessoa assumidamente bolsonarista que eu mantenho na minha lista de amigos. Porquè? Para exercitar a minha maldade. Ignorasse eu a sua existência, não ia poder testemunhar que o tempo jogara contra ela: além de ter-se tornado uma branquela gorda, a sua escolha política era reveladora do seu mau gosto e burrice.

 

Minha vontade era me pendurar naqueles seus cabelos longos e balançar-me neles até quebrar o seu lindo e longo pescoço.

 

Um leitor altruísta – se é que tenho leitores – pode estar boquiaberto com essa revelação de sentimentos tão mesquinhos. Acredito que todos os temos, mas não costumamos assumi-los. Às vezes, nem para nós mesmas. A hipocrisia é muito mais aceita socialmente que a franqueza. 

Bem, há modos mais sutis do que os meus assassinatos. Os católicos livram-se da sua dimensão mesquinha no confessionário. Aproveitam-se do sigilo sacramental para vomitarem o “eu pequei”; cumprem uma penitência para demonstrar arrependimento, recebem a hóstia, símbolo do corpo de Cristo, e estão curados, prontos para novas maldades. Os que creem mais na ciência que em Deus procuram um profissional, geralmente um psicólogo, que, diferentemente do confessor, não lhes promete cura e cobra caro. Sessões e mais sessões, anos patinando na lama da própria mesquinhez, a querer que o psicólogo lhe indique o caminho do livramento. Muitos acabam por desistir da análise ou da terapia, culpando o profissional por algo que só o próprio pode mudar. O profissional, por anos a fio, em tom solene e grave, esteve a devolver as declarações chorosas em forma de pergunta, não sendo sua responsabilidade se o sujeito não consegue se reconciliar consigo mesmo.

Acaba de me ocorrer um outro tipo de prática destinada ao perdão da alma. Bem, é uma lembrança da minha infância. O mundo mudou tanto nos últimos anos, que eu me sinto pré-histórica. Para muitas pessoas deve parecer inacreditável o que vou registrar. Refiro-me ao pedido de perdão de pessoas que estão prestes a morrer. Na minha infância, testemunhei uma cena dessas, protagonizada pela minha bisavó paterna. Já começo a perceber que não enveredei por um bom caminho: sem querer, vou revelar raízes pouco admiráveis. A família – católica, apostólica, romana – desejava que a velha ranzinza fosse para o céu. Era de bom tom que ela tivesse o tal descanso eterno e que seus parentes descansassem dela certos de que o céu a acolhera. Um seu inimigo foi convocado para ajudá-la a fazer essa passagem. Diante dela, aquele homem magro, alto, de cara fechada, esperava em silêncio, até que, exasperado, perguntou para o que havia sido chamado. Pois bem, não faltou energia à quase morta para dizer que fora ele a ofendê-la e que, portanto, era quem devia pedir desculpas, perdão ou coisa que o valha. Sem titubear, ela foi mandada diretamente para o inferno, pois como disse ele, era ela que estava a morrer e ele pouco se importava com o destino da sua alma. Como se pode ver, essa também não é uma tática aconselhável. 

  Não me pergunte onde eu me enquadro. Não me vejo pedindo perdão a Deus, nem esperando a morte para buscar compaixão de quem eu fiz questão de não me reconciliar. Posso apenas dizer que sou uma mulher analisada. Às vezes boa, outras má. Já vivi a maior parte da minha vida, mas ainda não estou me despedindo dela. Que ninguém pense que isso é um “mea culpa”. Não me sinto em pecado pelos meus sentimentos pouco nobres. Se sentimentos fossem materializados eu já teria transformado o mundo num lugar menos desigual. Esse propósito é o conteúdo da minha utopia. Portanto, não preciso estar à beira da morte para assumir pensamentos mesquinhos, tampouco preciso guardá-los a sete chaves. Para ser honesta, ao ver a última foto daquela minha adversária a quem eu matei tantas vezes, fiz uma descoberta fantástica: eu nunca quis que ela morresse, eu precisava tão somente esperar por essa determinação natural que é o envelhecer. Simplesmente, a beleza da potranca não resistiu ao tempo.

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Maria Augusta Tavares​

Maria Augusta Tavares​

Investigadora do trabalho