Jornal Maio

Cortes sociais, investimento na guerra: trabalhadores italianos combatem orçamento de Meloni

Há uma nova vaga de mobilizações em Itália contra o orçamento de guerra do governo e em solidariedade com o povo palestiniano.

A palavra de ordem foi, mais uma vez, “bloquear tudo”. A greve geral de 28 de novembro, na passada sexta-feira, contra o rearmamento e a austeridade da primeira-ministra de extrema-direita, Giorgia Meloni, foi mais um episódio da crescente mobilização dos trabalhadores italianos e dos seus sindicatos. Esta greve geral junta-se a outras duas nos últimos dois meses, a de 22 de setembro e a de 3 de outubro, contra o genocídio do povo palestiniano às mãos do Estado de Israel. E mais greves virão.

O governo de Meloni tem sido cúmplice do genocídio do povo palestiniano ao fornecer armas e munições a Israel, ao se recusar a reconhecer o Estado palestiniano e a cortar laços diplomáticos ou comerciais com Telavive. Roma tem sido uma força de bloqueio na aplicação de sanções ao Estado de Israel, e por isso Meloni e dois dos seus ministros foram denunciados ao Tribunal Penal Internacional (TPI) por mais de 50 juristas palestinianos, organizados no grupo Juristas e Advogados pela Palestina.

Meloni mantém esta posição hipócrita enquanto assume a dianteira no apoio político, diplomático, militar e financeiro à Ucrânia, invadida pela Rússia, em nome da defesa da autodeterminação dos povos e do direito internacional. Dois pesos e duas medidas, como os líderes europeus já nos habituaram. O povo italiano, historicamente apoiante da causa palestiniana, está em oposição ferrenha à política militarista e genocida do seu governo. A linha que separa a humanidade e a decência da monstruosidade está a ser desenhada a sangue.

Daí que os trabalhadores italianos, em especial os estivadores, tenham avançado com duas greves gerais, em setembro e outubro, em apoio do povo palestiniano. Foram as greves gerais mais bem-sucedidas da história recente de Itália. Foram enormes mobilizações anti-guerra — as quais só têm equiparação com as manifestações contra a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003 — e espalharam-se a todo o país, não se limitaram aos redutos da esquerda italiana nem ao seu eleitorado.

A greve geral de 3 de outubro foi convocada pelas centrais sindicais CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho) e USB (União Sindical de Base), entre outras organizações, em resposta à intercepção israelita da flotilha Sumud, a 1 de outubro, e em solidariedade com o povo palestiniano, pelo fim do genocídio. Mobilizou dois milhões para as ruas italianas. Já a greve geral de setembro foi convocada por uma série de sindicatos de base e centrais sindicais mais pequenas, como a Confederação Unitária de Base (CUB), conseguindo mobilizar um milhão de pessoas.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.


No entanto, a mobilização tinha “acalmado” um pouco no último mês, por causa de uma certa ilusão (ou expectativa) em torno do suposto “acordo de paz” de Donald Trump, mas o gatilho para mais uma greve geral não se fez esperar: a proposta de Orçamento do Estado de 2026. A sua linha mestra é bastante clara e simples: cortes no Estado Social para canalizar verbas para o rearmamento do país, cumprindo os 5% de investimento em defesa impostos pelos Estados Unidos, Bruxelas e NATO. É, em suma, um orçamento de guerra e de ataque aos direitos de quem trabalha quando os salários reais diminuem e o custo de vida não pára de aumentar.

A proposta orçamental retira milhares de milhões da saúde, da educação, das pensões e dos serviços locais para os canalizar para a indústria do armamento. Os trabalhadores são, assim, forçados a financiar o “esforço de guerra”. Mas há mais: o orçamento, à semelhança das intenções do Governo de Luís Montenegro com o seu pacote laboral, também vai aprofundar a precariedade, ao expandir o outsourcing, desregular a contratação e incentivar os patrões a substituir empregos estáveis por empregos de curto prazo e baixos salários. Vai acelerar a privatização de bens públicos essenciais, como infraestruturas e serviços, beneficiando os interesses empresariais e financeiros.

Como se não bastassem os ataques aos direitos mais elementares dos trabalhadores, a nova proposta orçamental também vai aumentar os recursos financeiros para as forças e serviços de segurança. Isto depois de, no início de junho, o governo ter conseguido aprovar no Senado uma lei repressiva que criminaliza protestos, aumenta os poderes da polícia e fortalece os mecanismos de controlo sobre a dissidência. A nova lei até permite aos agentes do Estado cometerem certos crimes em sua defesa, sem que sejam acusados e condenados. Tudo para reprimir a contestação social que o governo sabe que estas medidas vão causar.

A resposta dos sindicatos apenas poderia ser uma: greve geral. Ao contrário da greve geral de 3 de outubro, os sindicatos de base Cobas, USB, SGB, CUB e a central sindical CGIL não uniram esforços. Os sindicatos convocaram greve geral de 24 horas para 28 de novembro, na passada sexta-feira, enquanto a CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho), a maior central sindical institucional do país, o fez para 12 de dezembro, também sexta-feira.

"Gostaríamos que a CGIL também participasse, para repetir a grande e forte união de 3 de outubro. Mas os nossos apelos caíram em ouvidos moucos. A CGIL preferiu entrar em greve sozinha e fora de época, a 12 de dezembro, quando o processo de aprovação da lei orçamental estará finalizado", afirmou a confederação Cobas, citado pelo jornal italiano Il Fatto Quotidiano.

A greve geral de 28 de novembro avançou na mesma e mobilizou dezenas de milhares de trabalhadores nos sectores públicos e privados nos transportes, saúde, educação, administração pública e indústria. As viagens ferroviárias e áreas foram seriamente afetadas e pelo menos 26 voos foram cancelados. O caderno reivindicativo? Travão na aprovação do Orçamento do Estado, investimento no Estado Social, reforço da lei laboral em prol dos trabalhadores, a não privatização de empresas públicas de energia, correios, telecomunicações, transporte público, saneamento ambiental, saúde e educação, a revogação da lei de segurança nacional, entre outras.

“Queremos pelo menos 2000 euros de salário base, reforma até aos 62 anos, fim da subcontratação, redução do horário de trabalho sem perda salarial, direitos à habitação garantidos, novas contratações no setor público e cuidados de saúde públicos universais e gratuitos”, afirmou, em comunicado, a USB. “Estas são necessidades urgentes num país exausto, necessidades incompatíveis com o belicismo do governo.”

 


Os líderes europeus veem na ameaça da guerra uma oportunidade económica e aproveitam-na para justificar a sua contrarrevolução social.

 

E, em mais um exemplo de como a mobilização dos trabalhadores interliga a solidariedade com o povo palestiniano e a oposição ao militarismo europeu, milhares de pessoas marcharam, no sábado, 29 de novembro, pelas ruas de Roma contra o genocídio. A marcha, organizada pela USB, foi encabeçada pela relatora especial das Nações Unidas Francesca Albanese, pela ativista Greta Thunberg e pelo ativista Thiago Ávila. 

“Receio que o genocídio vá continuar, graças ao silenciamento da verdade”, avisou Albanese. “Mais de 50% da Faixa de Gaza está ocupada por tanques israelitas”, recordou a relatora especial, salientando que na Cisjordânia mais de 1200 palestinianos já foram mortos desde 7 de outubro de 2023. “Itália e União Europeia devem parar de transferir armas, realizar exercícios militares com Israel e de comercializar tecnologias que possam alimentar os crimes em curso.”

O próximo grande embate será a 12 de dezembro, mas o mês de dezembro está pejado de protestos e greves, mais um sinal da enorme e significativa mobilização da classe trabalhadora em Itália. Na segunda-feira passada, os trabalhadores do sector dos transportes da Sicília pararam entre as 10h30 e as 14h30. No dia 9 de dezembro, o sector público de Roma entrará em greve por 24 horas e todo o sector marítimo italiano por 48 horas, até 11 de dezembro. Depois, a 17 de dezembro, os controladores do tráfego, trabalhadores das companhias aéreas e dos aeroportos farão greve parcial entre as 13h e as 17h. E, por fim, a 22 de dezembro, mais uma greve, desta vez de 72 horas, no sector de logística.

A mobilização dos trabalhadores não se restringe a Itália. Na Bélgica, os sindicatos organizaram uma greve geral no dia 26 de novembro contra os cortes nas pensões e a redução dos benefícios sociais impostos pelo governo, enquanto aumentam os gastos na indústria da guerra. E a 11 de dezembro será a vez de os trabalhadores portugueses saírem à rua contra o pacote laboral do Governo de Montenegro, a primeira greve geral convocada em conjunto pela CGTP e a UGT desde 2013.

Não há dúvida de que todos estes protestos são um sinal da crescente mobilização das classes trabalhadoras europeias em oposição a uma crise mais alargada, seja dos regimes democrático-liberais seja do próprio capitalismo – e ainda estamos para ver como rebentará a brutal bolha financeira da Inteligência Artificial. Depois da pandemia de Covid-19 e da injeção de milhares de milhões de euros na economia, colmatando uma carência brutal de investimento público ao longo de dez anos, os governos europeus apostam agora no rearmamento para a economia continuar a girar. Fazem-no como sempre fizeram: pondo os trabalhadores a arcar com os prejuízos e os sacrifícios, seja nas empresas seja nas casernas, com a reintrodução de novas modalidades de serviços militares obrigatórios. 

Os líderes europeus veem na ameaça da guerra uma oportunidade económica e aproveitam-na para justificar a sua contrarrevolução social. E já sabemos como será tratado quem se lhes opuser e os denunciar: será apelidado de putinista, de colaboracionista, de lacaio de Vladimir Putin, de traidor e antipatriota. Assim seja.

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