Jornal Maio

Bairros problemáticos

O preço elevado da construção que verificamos atualmente não tem origem na qualidade da matéria, nos saberes de quem a transforma, ou em salários decentes para quem participa no ordenamento ou no seu processo construtivo. Grande parte deste bolo é artificial, alimenta agiotas, intermediários, certificações e especuladores.

Rui Pinto

Rui Pinto

Arquiteto, professor na FAUL – Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa

A serpente convenceu-os a comer a maçã proibida e logo foram expulsos do paraíso. No paraíso não precisavam de casa, dado que uma atmosfera amena dispensava o abrigo ou condições de conforto excepcionais. Se no paraíso não necessitavam de casa, dispensavam ainda agricultores, cozinheiros ou médicos, já que no paraíso os frutos caíam-lhes das árvores sobre a boca, da mesma forma que não consta que no paraíso alguém ficasse doente. Eva e Adão representam o primeiro caso de expulsão do lugar onde viviam, motivado pela transgressão dos valores morais divinos, momento equiparável aos que hoje não conseguem ser proprietários ou suportar os valores da renda de uma casa. Adão e Eva, fora do Éden, tiveram de procurar abrigo: primeiro numa caverna e depois, fartos da escuridão, com os troncos e ramagens que tinham à mão construíram a primeira cabana, momento tectónico que marca o aparecimento da arquitetura. Uns milénios mais tarde, nas visões protestantes puritanas, a maçã volta a servir de metáfora, mas desta vez a alusão é um pouco diferente: centra-se nos perigos da maçã desalinhada dentro do cesto, capaz de contaminar as demais maçãs, tenras, que de forma individual aspiram a ser ricas, tão ricas como as maçãs brilhantes que aparecem nos canais cor-de-rosa. Nascidos na cabana ancestral, Abel e Caim vieram a marcar a tensão fatal entre os possuidores de terra e os alienados da mesma. Abel representa o pastor nómada e Caim o agricultor proprietário que de forma violenta domesticou a terra e ergueu muros para a delimitar.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Nos milénios intermédios, entre os dias da criação e os dias de hoje, tivemos ajuntamentos e múltiplas organizações: nómadas, pequenos povoados, cidades erguidas, palácios erguidos sobre elas, depois conquistadas ou destruídas, segundo um palimpsesto constante. Se os mitos nos ajudam a entender parte deste processo, os vestígios arqueológicos dos antigos assentamentos humanos são autênticos documentos que prestam informações vitais sobre a ocupação do território e sobre a organização política das comunidades humanas. Numa abordagem sobre este tema, em O princípio de tudo, um livro escrito entre David Graeber e David Wengrow (Bertrand, 2022), ressaltam dados importantes sobre os caçadores-recolectores da pré-história, comunidades que alternadamente viviam entre a viagem e a prática agrícola sedentária. De alguma forma desmontam a linha histórica que aprendemos na escola, que resume a revolução agrícola a um único episódio. Graeber e Wengrow dizem-nos ainda que muitos dos pulos civilizacionais foram dados em comunidades mais colaborativas, algo que os cientistas que estudam primatas já detectaram há muitos anos: comunidades de macacos territoriais e competitivas tendem a destruir-se, ao passo que as comunidades mais colaborativas e matriarcais tendem à prosperidade social.

As formas de habitar decifradas pela história e escavadas pela arqueologia dizem-nos muito sobre os ciclos políticos, sendo curioso comparar os totalitarismos do passado com o totalitarismo financeiro que comanda o mundo dos nossos dias, cada vez mais desigual, digital e distópico. A apropriação da cidade segundo a condição económica dos mais fortes é hoje demasiado assumida, sendo impossível negar que a cidade de hoje esteja a gerar fenómenos de gentrificação e distúrbios ambientais. Num interessante trabalho designado A Cidade Neoliberal (Deriva Editores, 2018), Ana Estevens fala-nos de uma cidade participada e em permanente conflito: de ideias, diferenças ou modos de estar, versus uma cidade neoliberal violenta: “homogénea, submissa, segura, a-conflituosa, competitiva, e em que não se conhecem, vivem alheados”.

 

A cidade atual não se deixa explicar pelo que observamos em domínios tão concretos como o seu ordenamento.

 

Os mitos lá tentam explicar o mundo e a cidade atual não se deixa explicar pelo que observamos em domínios tão concretos como o seu ordenamento: condomínios de luxo blindados ou bairros problemáticos construídos sobre áreas de elevado valor ambiental para os ricos; áreas disléxicas e desagarradas para uma população há muito degradada. Em Portugal temos hoje mais de treze mil pessoas que vivem nas ruas (na Europa, cerca de 1,2 milhões), número muito superior quando comparado com a crise da heroína dos anos 80. Nos EUA, país que nos vendeu o modelo do homem bem-sucedido, montado num descapotável devorador de dólares, temos hoje quarenta milhões de pobres, condicionados no acesso a uma casa, educação plena dos seus descendentes ou direito ao elementar acesso aos cuidados de saúde. Foi essa face da América, do sonho, onde tudo é imenso, incluindo a casa, a piscina e os clichés de Hollywood, que participou no desenho da paisagem da velha Europa: cidades temáticas rodeadas de vias rápidas entre shoppings e não-lugares logísticos. Se nos arredores das nossas cidades isso parece evidente, na província vemos o mesmo fenómeno: supermercados de alumínio pechisbeque (iguais em todo o lado), construídos pelas empresas de retalho, numa permanente competição entre si, sem qualquer relação com os contextos locais, assoladores do comércio local.

Por seu turno, o preço elevado da construção que verificamos atualmente não tem origem na qualidade da matéria, nos saberes de quem a transforma, ou em salários decentes para quem participa no ordenamento ou no seu processo construtivo. Grande parte deste bolo é artificial, alimenta agiotas, intermediários, certificações e especuladores. Neste regime de eficácia, excluem-se as artes, a arquitectura, os experimentalismos ou a utopia de um mundo melhor. Tudo tende à normalização, onde a IA e os BIM’s (Building Information Modeling/Modelagem da Informação da Construção) parecem convergir, prometendo mais celeridade e a superação da participação humana na ética de construir ou fazer cidade.

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